Demian – Hermann Hesse

Quem escreveu o livro?

          Hermann Hesse, nasceu em 1877 em uma pequena cidade alemã e faleceu em 1962, na Suíça. Apesar de ter nascido na Alemanha, em 1923, ele foi naturalizado Suíço. Era pintor e escritor e recebeu o Prêmio Goethe e o Nobel da Literatura, ambos no ano de 1946. Publicou 37 livros, sendo Demian, Sidarta e O lobo da estepe os mais populares. Seu último romance foi O jogo das contas de vidro. Todos esses títulos têm tradução para o português.

O que é interessante saber antes de ler?

         Os livros de Hesse são densos, porque tratam muito de interpretações pessoais do autor por sobre a filosofia e religiões orientais. Estima-se que toda sua trajetória literária tenha sido uma trajetória em busca do auto conhecimento e da criação de uma filosofia própria. Seus escritos são relacionáveis com os de Carl G. Jung, sendo possível encontrar diversos dos arquétipos conceituados por Jung nas obras de Hesse. 

          A leitura pode parecer devagar e sem sentido, mas uma dica que facilita é pensá-la como uma grande jornada pelo inconsciente dos personagens. Em cada livro de Hesse é possível perceber um desenvolvimento pessoal do personagem principal, que está em uma busca constante por algo a mais. Novamente, para quem é familiarizado com os arquétipos de Jung, fica mais fácil. No decorrer da leitura você identifica o animus e a anima, a sombra e assim sucessivamente. 

         O livro demanda reflexão. Hesse escreve em poucas palavras, seus livros principais não passam de 200 páginas. Porém, não é o tipo de literatura que você domina em poucas horas de leitura, por causa da densidade da escrita. É necessário refletir, pensar e repensar, ou então a história será vazia e simples e ela não foi escrita para isso. Ou seja, ao começar Demian, lembre-se de ter calma.

         Dizem que Demian, Sidarta e o Lobo da estepe compõem uma trilogia e que o Sinclair de Demian é o personagem principal das outras duas histórias, mas em fases diferentes de sua vida. Essa hipótese não foi confirmada pelo autor, mas demonstra-se uma boa maneira de percorrer por suas obras.

Demian, em Demian de Hermann Hesse
Demian, em Demian de Hermann Hesse

Ok, mas sobre o que é esse livro afinal?

         Demian foi escrito em 1919. A edição que li é da Editora Record, de 1999, traduzida por Ivo Barroso. O livro conta a história de Sinclair, que começa o livro como criança/pré adolescente, e termina adulto. Sinclair vem de uma família cristã e bastante rígida e, logo no começo da história, se envolve em uma situação complicada, pois mente e começa a ser chantageado por um colega de classe. 

         Um garoto novo começa a frequentar sua escola, o nome dele é Demian e ele é bastante maduro e enigmático. Demian ajuda Sinclair a resolver o problema da chantagem e eles começam a ser muito amigos. Sinclair nutre um carinho especial por Demian e o vê como um guia para sobreviver. Demian é repleto de filosofias próprias e ensinamentos diversos àqueles aprendidos por Sinclair em sua concepção cristã. Por causa dessa relação, Sinclair começa a questionar muitas das coisas que tinha como certas e passa a ser uma pessoa reflexiva e disposta a descobrir coisas novas.

           Sinclair cresce e muda de cidade, para prosseguir em seus estudos. Para de ter contato com Demian, mas não esquece do amigo e de seus ensinamentos. Nesse novo ambiente, ele conhece Pistórius, que acaba cumprindo a mesma função que Demian na vida de Sinclair

           Sinclair começa a sonhar com uma figura feminina e chega a desenhá-la, nutrindo um amor especial por essa pessoa que desconhece. 

           Encaminhando-se para o final da história, Sinclair e Demian se reencontram, colocam o assunto em dia e percebem o quanto cresceram e se desenvolveram. Sinclair acaba entrando em contato com a figura feminina de seus sonhos.

        O enredo do livro, por si só, parece banal e uma história simples. Isso ocorre porque, na obra de Hesse, a história é o que menos importa. O que importa na história é a forma como ela é escrita e os ensinamentos e reflexões que transmite.

Pistórius, em Demian de Hermann Hesse
Pistórius, em Demian de Hermann Hesse

E o que você achou do livro?

         Demian foi meu segundo livro de Hesse. O primeiro que li foi O lobo da estepe e foi um livro que mexeu tanto com a minha cabeça, que nunca fui capaz de escrever ou falar sobre a minha experiência com ele. Com Demian me senti um pouco mais segura para tal, mas ainda não acho que eu tenha entendido completamente o livro.

            O enigma da escrita de Hesse não é o tipo que agrada a todos. Acredito que essa escrita é reservada às pessoas introspectivas e reflexivas que, por si só, passam tempo da vida tentando entender coisas que a maioria não se importa. Por essa razão, Hesse não é best-seller na atualidade, mas segue sendo importante e clássico. Seu estilo de escrita, apesar de denso, é gostoso e agradável de acompanhar.

        Ler Hesse causa em mim efeitos fisiológicos. Meu coração fica apertado e vai ficando mais apertado no decorrer da leitura, relaxando apenas em seu final. Eu demoro muito mais nesses livros do que em vários livros maiores. Cada parágrafo ou página tem muito mais coisas escritas do que o que aparece textualmente e a capacidade de enxergar as entrelinhas é posta à prova nesse tipo de leitura. As vezes me sinto incapaz de compreender e acompanhar, mas sigo tentando. 

          Essa foi a segunda vez que tentei ler Demian. Na primeira, não consegui passar da página 30. Não consegui entender a história e pegar o ritmo dela, não conseguindo acompanhar. Agora já acostumei que ao ler Hesse eu, necessariamente, vou me sentir burra, incapaz e insuficiente. Porque os livros parecem muito maiores do que eu. Mas, é claro, isso é uma opinião pessoal.

          Apesar de ser uma experiência literária bastante subjetiva e complexa, a leitura de Demian me foi bastante construtiva, principalmente pelo teor crítico à religião, que é um tema que muito me apraz. Terminei a leitura sentindo que aprendi muitas coisas e pensei sobre muitas outras que até então não o havia feito. Além de tudo, o livro é repleto de frases de efeito e escrito de forma que pode ser considerada poética. Por essa razão, senti a necessidade de transpor algumas de minhas frases favoritas em imagens. 

Sinclair, em Demian de Hermann Hesse
Sinclair, em Demian de Hermann Hesse

           As imagens estamparam o decorrer desse texto e encontram-se todas na galeria abaixo. Além disso, elas farão parte de um álbum exclusivo na página do Ancoragem no facebook. Pretendo persistir com esse hábito sempre que achar válido e necessário. 

         Sinto que falei, falei e não disse nada. É realmente difícil e frustrante para mim falar sobre a obra de Hesse, porque eu realmente não consigo transpor em palavras todo o sentimento que me causa. Tudo que consigo dizer é que recomendo os dois livros que li a todo o universo e adoraria que todos lessem e interpretassem Demian de maneiras diferentes e fenomenais e viessem me falar sobre. Nesse texto não dei detalhes de minha interpretação pessoal, por ela ser bastante íntima e porque considero que apresentar um tipo de interpretação pode guiar a leitura da outra pessoa a enxergar as mesmas coisas que eu e essa nunca é a minha ideia com as resenhas.

          Caso você tenha ficado interessado, aí vai um link para a compra do livro. Comprando por esse link, você ajuda a manter o site.

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BEDA #4 Sobre o fim das férias

… Mesmo que elas não tenham terminado.

Planejei escrever sobre as minhas férias hoje, como uma redação de primeiro dia de aula da quarta série. Só que acabei ganhando uma semana a mais de férias e talvez seja precipitado falar sobre o término de algo que acaba de ganhar a possibilidade de um novo fim. Apenas afirmando aquela noção básica de que o fim não existe, assim com o começo não existe e como o agora é puramente subjetivo. O que, inclusive, faz com que eu retorne a uma das mais emblemáticas questões das férias, trazidas – acreditem se quiser – por um desses testes sem graça que a gente faz no facebook. Afinal de contas o que vem antes, o ser ou o nada? Ainda não encontrei uma resposta para essa difícil indagação que me dá um arrepio na espinha ao pensar que talvez eu não exista e me faz repensar todos os conceitos que já dei por certo e transforma todas as minhas certezas em uma única, a de que odeio filosofia. (e ao mesmo tempo acho genial, necessária e orgásmica, claro)

Acredito que esse primeiro parágrafo tenha dado uma ideia geral de como foram os meus dois meses de férias. O primeiro, aquele em que estava ocorrendo a copa, resumiu-se em colocar meus seriados em dia, tragicamente terminar Doctor Who e chegar em um ponto de Fringe que está meio difícil de continuar e fugir desesperadamente do foguetório e do blablabla idêntico que advinha de todos os locais possíveis.

Sobrevivi e resolvi adentrar no universo dos livros. Havia quatro livros não terminados na minha escrivaninha e era questão de honra terminar a todos e conseguir começar novos. Consegui terminar os quatro, li um quinto e agora com a semana extra de férias que ganhei pretendo terminar o sexto. Missão cumprida.

Em meio ao mar de leituras, surgiu um problema de pele apavorante. Digo isso porque eu não costumo ter problemas de pele e o único que me recordo foi justamente o motivo para a única internação da minha vida. Problemas de pele me apavoram. E como dessa vez era no rosto, fiquei ainda mais apavorada. Foram dias de drama agudo, com uma boa dose de todos-os-médicos-possíveis até que encontrei um remédio que sarasse (aleluia) e não tivesse nenhuma mancha de recordação. Coisa importantíssima para pessoas que odeiam maquiagem no dia a dia.

Com a leitura, a “doença apavorante” e o clima sabático que as férias de inverno trazem, restou voltar o olhar para dentro de mim mais uma vez. E foi mais intenso que o normal. Não sei se porque coloquei na cabeça que não posso continuar sendo tão monga quanto sempre, porque tenho 20 anos e tenho que parar de agir/achar/pensar que tenho 12, o que acontece em vários momentos. Não sei se porque os livros que li mexeram mais comigo. Não sei se porque pude ficar mais tempo sozinha. Não sei se porque dw acabou. E sei menos ainda se porque não consigo saber se o ser vem antes do nada. É clichê adotar o “só sei que nada sei”aqui, mas é exatamente isso. Por algum motivo, mergulhei dentro de mim em diversos momentos e comecei a perceber atitudes que odeio em outras pessoas  e sempre faço. Comecei a me irritar com a minha passividade. Com a minha morosidade, minha preguiça, minha falta de ação. Comecei a me irritar comigo mesma em tantos níveis que alguns dias eu só queria ficar embaixo das cobertas no escuro, sem comer e esperando que ninguém lembrasse da minha existência. E dois segundos depois eu percebia que era exatamente esse tipo de atitude que eu odiava e tentava fazer alguma coisa. Foi difícil. É difícil.

Já falei nesse lugar milhares de vezes que estava farta da minha passividade e que ia tentar tomar jeito na vida. E dois dias depois eu desistia. E nessas férias tudo isso começou a me angustiar em níveis extremos. Parei de ir no psicólogo porque não queria falar sobre e não sabia direito o que falar ou sobre o que falar. E é muito raro eu não querer falar sobre o que me aflinge. Só que pela primeira vez eu consegui ver quais são, pontualmente, essas coisas. E percebi que é possível eu melhorar a elas e, com isso, melhorar a mim. Alguma coisa aconteceu que eu comecei a ter esperanças. E decidi que elas não se tornariam realidade se eu não fizesse nada. E mesmo tendo feito algumas coisas, ainda acho que fiz pouco e que tenho muito a melhorar e ainda tenho uma visão negativa abrupta sobre mim mesma e penso coisas horríveis sobre o efeito da minha existência na vida alheia quase todos os dias. Tenho, no entanto, visto uma melhora significativa na minha coragem e na minha vontade. Eu consegui voltar a ter vontade. Até de comer. Até de experimentar. Até de sair um pouco da minha bolha. E a coragem pra tudo isso está vindo, eu comecei a acreditar.

Ganhei mais uma semana de férias porque todos os meus professores foram para um congresso, ganhei tempo de terminar de ler Oblómov (que eu culpo como uma das causas para a tremenda vontade de valorizar a vontade própria desde que não fira a alheia – sempre a ser levada em conta), para finalmente fazer os mandamentos da minha vida, pra conseguir voltar pra terapia, pra dar oi de novo pra yoga e pra aproveitar calmamente o limbo bom que resolveu surgir desde que ganhei um quarto branco e uma cama confortável. Continuo sem saber se o ser vem antes do nada ou o contrário e talvez eu nunca consiga entender isso (ou porque ideologia não é uma ideologia – e se for, porque nunca problematizaram isso), mas estou começando a acreditar que o fim não é mais importante que o meio. Mesmo que nem o fim, nem o começo, nem o meio, nem o agora existam.

A polpa das experiências está no processo e o entendimento delas só se dá quando em relação com o todo. A experiência e o todo são indissociáveis, o entendimento de uma, depende do da outra. Se eu nunca vou conseguir extrair a polpa da vida, deveria me preocupar menos e aproveitar mais. Desoblómovizar o complexo existencial e largar um pouco essa carga emotiva que me dá nos nervos. Talvez um dia eu consiga ser uma pessoa sábia e madura que demande algum tipo de respeito por parte de alguém.

Não é o fim, nem das férias, nem das reflexões, nem das falhas, nem da humanização tremenda e constante e muito menos de mim.