Reflexões leoninas.

Eu sou de Câncer, que fique claro. Mas tenho pensado muito em Rei Leão.

Vocês sabiam que a história é baseada em Hamlet? Em Hamlet o irmão do rei o mata e o príncipe foge de medo, enquanto seu povo perece. Igual o Simba faz. Eu acho muito interessante porque a gente tem a ideia de que o Timão e o Pumba são personagens bonzinhos e bacanas, mas na real eles são os responsáveis por fazer o Simba viver em um constante estado de “Hakuna Matata” e esquecer que largou mãe, família e reino pra trás.

Como diz a música de “Hakuna Matata”, é um estado que implica em “os seus problemas, você deve esquecer… isso é viver, é aprender, hakuna matata”. E, como a gente vê no resto da história do Rei Leão, “Hakuna Matata” demais estraga tudo. Simba não aprende bulhufas esquecendo os problemas dele, quer dizer, ele aprende. Ele tem uma vida super boa, comendo coisas boas, vivendo em um ambiente pacífico e ensolarado, tem amigos, é quase um paraíso. Certamente a vida é repleta de aprendizados, ele consegue até rugir!!! Só que esquecer os problemas traz um encargo negativo maior que o positivo, como a gente vê quando a Nala aparece.

Basta ela aparecer para tudo aquilo que ele fugiu a vida inteira e não lidou com, porque estava se preocupado em hakuna matatar, volte à tona em um turbilhão impossível de lidar. Primeiro vem o êxtase em reencontrar sua melhor amiga e o anseio por “vem pro paraíso você também”, mas aí ela mostra que paraíso é o caralho, porque o reino tá um caos e o Simba é um irresponsável inconsequente que largou a própria mãe à míngua de um monte de hienas malvadas. Puts. O Simba não fica bem com a coisa.

A consciência pesa horrores e ele vai olhar as estrelas, tentando contato com o pai que é uma delas e aparece um macaco chato e vai atrapalhar o momento reflexivo dele. O macaco quer que ele volte pra casa e ele diz que não é problema dele, que tudo aquilo ficou no passado e que ele já esqueceu e então ele recita o mantra “hakuna matata” e o macaco dá um cacete na cabeça dele com seu cajado. Simba reclama de dor e o macaco reitera “tá no passado” e o Simba completa “mas ainda dói”. E com isso ele se sente impulsionado pra voltar pro seu reino e lidar com Scarf e as hienas, da forma como era esperado.

Só que na verdade ele não tá apenas salvando o reino de passar fome, ele tá se resolvendo e lidando com todo o encargo que ele tinha “esquecido” em sua vida com Timão e Pumba. Ou seja, no fim das contas Rei Leão é só uma epopeia sobre um filho que precisa lidar com o trauma de ter sido a causa da morte do pai e o “hakuna matata” que a gente sempre achou legal, na real serviu apenas para que ele ficasse em stand by da vida até que estivesse preparado para lidar e superar aquilo que tinha acabado com ele.

Já pensou em como seria massa se a gente pudesse decidir que ia tirar cinco anos da nossa vida pra “hakuna matatar”, esquecer de tudo, aprender outras coisas e depois voltar e lidar piamente com os nossos problemas de maneira maestral? Cara, seria tudo tão mais fácil!!!! Mas não. A gente tem que continuar no mesmo lugar depois que a merda acontece. O nosso tempo para superar a mágoa e tentar lidar com a situação é muito mais curto, assim como o tempo para treino e preparo para as novas perspectivas e atitudes.

Nossa vida não é a do Simba. É a da Nala. Porque é ela que além de perder o chefe do seu reino, perde seu melhor amigo e fica com a responsabilidade de encontrá-lo e de conseguir manter o psicológico de várias leoas estável o suficiente para evitar uma morte em massa. É ela que tem que semear esperança para os mais novos, enfrentar o Scarf, sobreviver às hienas e se contentar em comer migalhas. Ela não tem o tempo e a oportunidade do Simba e é justamente ela que age como ponto chave para que ele volte para as suas responsabilidades.

Enquanto fugindo o Simba demora anos para se recuperar psicologicamente, a Nala mal tem tempo para ficar abalada, porque cada dia traz um abalo e decepção novos e o fluxo é tamanho que a única mágoa que fica é o abandono do Simba, o qual ela considerava morto. Era melhor pensar ele morto do que vivo e completamente irresponsável. Se ela soubesse que ele estava vivo, duvido muito que ele teria passado todo aquele tempo com o Timão e o Pumba, ela teria tirado ele de lá bem antes. Durante toda a história, enquanto o Simba fugia era a Nala quem de fato ria na cara do perigo. Mas o foco, inevitavelmente, é pro drama Simba/Mufasa.

A vida é isso. A gente magoa os outros e se magoa constantemente e não é legal, não é saudável, é cansativo e desgastante, mas eu tendo a acreditar que todo mundo se esforça pra fazer aquilo que pode no momento. A gente não tem um paraíso pra “hakuna matatar” e tem que se reerguer das mágoas e lidar com elas, por mais machucados que a gente ainda esteja. E isso não é ruim, pelo contrário, é o que nos torna sábios e fortes. É o que deixa a gente um pouco mais preparado para lidar com todo o mar de mágoas e magoações pelo qual passaremos durante a nossa existência.

Porque a dor constroi e fortalece muito mais do que ficar hakuna matatando por aí. Embora a segunda opção seja muito mais tentadora.

(essa imagem é uma prévia do próximo post, onde trataremos sobre como Timão e Pumba se transformam no decorrer da história)

Encruzilhadas

Criar raízes é uma completa novidade para a minha pessoa. Nunca tive que fazer isso, sempre me aproximei dos outros com o botão “delete” já armado na mente para usar assim que a pessoa me irritasse. Eu não sei manter relacionamentos, não sei permanecer nos lugares por muito tempo, não sei terminar o que começo e sei muito menos contentar-me com o sedentarismo – no seu sentido literal.

Só que meus pais me obrigaram a fazer uma faculdade. Tentei encontrar um curso de dois anos que me agradasse, tentei escolher uma em outra cidade, um curso aleatório, algo que garantisse um intercâmbio no meio do caminho, ou uma faculdade gigante para eu poder mudar de sala o tempo inteiro. E quando vi que teria que estudar em Curitiba E na ufpr, tentei convencê-los a mudar de casa e não deu certo, porque já moro perto o suficiente do campus universitário em questão.

Redescobri que eu sofro. Não consigo me imaginar indo ao mesmo lugar por tanto tempo, encarando as mesmas pessoas, tendo as mesmas conversas, comendo as mesmas coisas na cantina, ouvindo as mesmas histórias, lendo textos que me fazem sempre concluir coisas muito semelhantes e voltar pra casa maravilhada com um universo sensacional, mas incapaz de imaginar uma maneira de colocá-lo em prática e ficar frustrada e ir dormir chateada porque a vida é chata e eu não tenho com quem compartilhar os brilhantismos que concluí, porque não há ninguém interessado na minha pessoa, porque como eu fico com a ideia fixa de que não consigo manter contato com os outros por muito tempo e com muita intensidade, acabo afastando-me involuntariamente e ninguém tem paciência de tentar me pescar de novo e eu me sinto cada vez mais sozinha e largada e acabo escrevendo em um dos meus mil cadernos e durmo sonhando com o dia em que a vida vai mudar e eu vou conseguir me sentir satisfeita e feliz.

Só que não importa o quanto eu resita, continuarei tendo que ir todos os dias pela manhã para aquele ambiente que me atormenta mentalmente por mais três anos. Terei que continuar vendo as mesmas pessoas, ouvindo as mesmas histórias, conversando sobre os mesmos assuntos e comendo os mesmos salgados sem graça da cantina. Vou continuar me sentindo sufocada, entediada e insatisfeita com o simples fato de existir. Mas vou continuar ali. Em um único lugar. E pela primeira vez na vida vou ter que aprender na marra como é que se relaciona com gente, como é que se mantêm legal e com assunto por tanto tempo. Como é que se estreita laços afetivos e os cria. Como é que se vive em sociedade no mundo real e não no ideal ou no virtual. Pela primeira vez na vida, estou condenada a uma realidade palpável, sólida, danificada, sem graça e sem perspectivas de mudanças ou melhorias. Sem hakuna matata. Com preocupações.