O tal do “Espírito Olímpico”

De onde vieram e o que são as Olimpíadas?

      A gente ouve muito por aí que as Olimpíadas vieram da Grécia Antiga, mas não entende muito bem. O fato é que desde cerca de 700 anos antes de Cristo, os representantes das cidades-estado gregas se reuniam para realizar competições de esportes diversos. Era uma coisa pequena e restrita ao país, que perdurou até entre 300 e 400 anos depois de Cristo. Depois disso, houve uma tentativa francesa, da época da Revolução, em reinstaurar os jogos, mas fracassou. Somente em 1896 as Olimpíadas tornaram a ocorrer, dessa vez, em proporções bem maiores. em 1890 fora fundado o Comitê Olímpico Internacional, pelo Barão Pierre de Coubertin, que desde então é responsável por organizar os jogos.

    Atualmente, os Jogos Olímpicos possuem vários desdobramentos. O primeiro deles é a divisão entre jogos de inverno e jogos de verão. Os de inverno contam com a participação dos mais diversos esportes que dependem da neve e do tempo frio para sua realização. Já os jogos de verão, contam com esportes que podem ser praticados independente da condição climática, e alguns que dependem do calor – como o vôlei de praia, e esportes aquáticos a céu aberto. Os jogos ocorrem sempre nos anos pares, de forma revezada. Assim sendo, há Olimpíadas de 2 em 2 anos, porém apenas de 4 em 4 ocorrem as da mesma categoria. As Olimpíadas de verão são maiores e mais populares que as de inverno.

      Há também as Paraolimpíadas, realizadas logo após os Jogos tradicionais. Elas contam com diversas categorias esportivas, restritas a atletas que possuem deficiência visual e física – os atletas com deficiência mental ou auditiva não podem competir. Há ainda os Jogos Olímpicos da Juventude, realizados com atletas adolescentes.

      Todas essas categorias são organizadas pelo mesmo comitê, com o auxílio de Comitês Olímpicos Nacionais e comissões organizadoras de cada especificidade dos Jogos Olímpicos.

    Há mais de 13 000 atletas envolvidos com as Olimpíadas e eles disputam em cerca de 33 modalidades diferentes, proporcionando uma média de 400 eventos esportivos. Neste ano, há 207 países participando dos Jogos Olímpicos, que estão sendo realizados no Rio de Janeiro, entre os dias 05 e 21 de agosto. 

Minha relação com os Jogos no Brasil

      Em 2007 foi realizado o primeiro grande evento esportivo no Brasil, o Pan-Americano. Eu tinha 12/13 anos na época e assisti a várias modalidades, torcendo bastante para o Thiago Pereira, na natação. Desde as Olimpíadas de Atenas, em 2004, que eu tinha percebido gostar bastante desses eventos que envolvem vários esportes. Eu nunca fui uma boa esportista, principalmente por causa da artrite, mas gosto bastante de assistir. Não gosto do fato de que o futebol masculino é superestimado e acaba sendo o único esporte que os brasileiros acompanham visceralmente. Principalmente porque eu nunca consegui gostar de futebol – apesar de saber o que é a regra do impedimento. Eu considero o campo muito grande para poucos jogadores e a partida longa demais. Raramente consigo assistir a um jogo inteiro. Então, sempre me deu uma angústia a existência da Copa do mundo e o patriotismo que ela despertava, porque futebol é chato e a Seleção brasileira desvia muita grana dos nossos impostos, pra financiar atletas que já recebem salários exorbitantes de seus próprios clubes. Enfim, não gosto e boicoto futebol há um bom tempo.

      Aí ter acesso a eventos esportivos que ultrapassam as barreiras do futebol é uma coisa bastante emocionante para mim. A partir desse Pan-Americano e da percepção de que eu realmente gostava desse tipo de evento, passei a assistir com mais ênfase às Olimpíadas. A abertura de Pequim, em 2008, foi a coisa mais bonita que eu havia visto até então. Eu não fazia ideia de que existiam tantas etnias na China, tantas tribos e línguas diferentes e ver toda a harmonia daquela apresentação me deixou bastante empolgada. Acompanhei o Brasil nos jogos, aprendi regras de esportes até então desconhecidos e percebi que eu não me importava mais se era o Brasil ou não, porque o esforço dos atletas havia passado a me encantar, independente de onde eles tenham vindo. Em 2012 eu acompanhei com menor ênfase aos jogos, mas achei a cerimônia de abertura bem mais fraca do que a Inglaterra poderia ter feito. Quando vi que teria Olimpíadas no Brasil, quis ser voluntária. Pensei no quão legal seria estar no Rio passando rodo na quadra de Vôlei, ou mantendo a arena de ginástica sempre organizada. Acabei não me atendo aos prazos e perdendo a oportunidade.

      Fiquei bem chateada quando vi que a crise política do país ia afetar as Olimpíadas. Eu entendo perfeitamente que não é o melhor momento para sediarmos os jogos, mas isso foi decidido há anos e não fazia sentido boicotar o evento agora. Não realizar as Olimpíadas seria jogar o esforço de 11 000 atletas no lixo, só porque nós não sabemos administrar o nosso dinheiro e somos péssimos eleitores. Eu fiquei descrente ao ver que a Vila Olímpica foi entregue sem ter sido terminada. Porque não faltou tempo ou dinheiro para que ela fosse. O que faltou foi responsabilidade e honestidade de construtoras irresponsáveis. Quando eu vi o nome da Odebrecht no meio, só fiquei mais chateada. Parece que o Brasil realmente prefere não aprender com os próprios erros.

      Eu torci para que a abertura dos jogos fosse bonita e inspiradora. E me decepcionei um pouco, graças aos inúmeros erros arqueológicos na parte de contar a história do povoamento do país. Fico bastante triste quando reduzem a povoação indígena – que comprovadamente tem mais de 8 000 anos – ao povo tupi guarani que ocupava as terras pré-cabralinas. Também não fico contente quando ouço falar que houve “escravização africana“, sem que fique claro de quais países e para atender quais interesses esses negros vieram. E acho que se a intenção era mostrar que o país é miscigenado, construído por imigrantes e através da supressão da natureza, faltaram vários outros imigrantes. E vários outros fatores. É muito bonito passarem a mensagem de sustentabilidade, mas é absurdamente incoerente com as práticas nacionais. Os últimos governos permitiram o desmatamento, criaram hidrelétricas em locais que destruíram não só etnias indígenas, como rios e vegetações inteiras. As grandes propriedades improdutivas seguem à rodo, a poluição das fábricas, o desastre de Mariana até hoje não foi solucionado. Para a realização das Olimpíadas uma onça foi morta, uma floresta foi desmatada e a Baía de Guanabara sequer foi totalmente limpa, sendo ainda considerada tóxica pela ANVISA. 

     Apesar dessas questões, gostei bastante da abertura. Utilizamos muito bem os recursos que tínhamos e fazer o 14 Bis voar foi incrível. Os jogos de luzes foram muito bem explorados, as atrações bem escolhidas e meu coração se encheu de orgulho ao ver Mc Sophia ao lado de Carol Conká sendo vistas por 5 bilhões de pessoas. Fiquei com bastante orgulho das artes brasileiras e da criatividade. Achei a “gambiarra” um ótimo ponto de partida e bastante bem explorada. Gostei de ver passistas do carnaval participando da festa. Senti falta de Chico Buarque e espero que ele não tenha participado por boicote ao Temer e, inclusive, achei incrível o fato de o presidente não ter sid mencionado em nenhum momento, fazer uma rápida aparição e receber vaias. Porém, eu esperava manifestações maiores em relação a isso. Mas entendo que as Olimpíadas tenham a premissa de serem politicamente neutras.

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      O aspecto de união que as Olimpíadas agregam ficou bastante evidente. Todos os países desfilaram, alguns com roupas tradicionais, outros portando a bandeira brasileira além da própria e todos visivelmente felizes. Há delegações com um ou dois atletas. Há delegações inteiramente femininas e outras inteiramente masculinas. Há pessoas de todas as etnias, religiões, línguas e construções sociais, históricas e políticas. E uma vez a cada quatro anos elas se unem, se abstendo de todas as diferenças, para praticar esportes. Eu acho isso sensacional! Toda vez que tem desfile de abertura, acompanho para ver quantos países eu sei o nome e quantos eu nunca tinha ouvido falar. Fico encantada com as vestimentas, principalmente as africanas, e a vontade de conhecer todos os países do mundo apenas aumenta. Quando a Olimpíada me proporciona histórias como a da equipe de Refugiados, a coisa fica ainda mais bonita. Eu nem sei mais colocar em palavras todo o sentimento que Rio 2016 está me causando. É claro que o desfile também ressalta desigualdades sociais, visto que dificilmente países pobres têm delegações de porte equivalente à dos Estados Unidos ou da China. Mas continua sendo incrível ver que, apesar das baixas condições, os atletas conseguiram a classificação e vieram.

      Certamente as Olimpíadas trazem e ressaltam uma série de problemas sociais, econômicos e políticos – não só do Brasil. Mas, ainda assim, é grandioso e sensacional que elas existam e sigam agregando tantas pessoas diversas em prol de um anseio comum. Esse evento acaba sendo a maior oportunidade de ver o mundo unido e em paz e isso deve, em absoluto, ser mantido, propagado e perpetrado.

     Tenho estado bastante ocupada, mas entre as ocupações arranjo tempo para ver algumas modalidades. Acompanho as notícias todos os dias e torço muito para que um dia a gente deixe de ser apenas o país do futebol e passe a ser o país dos esportes. Porque temos atletas incríveis nas mais diversas modalidades e todos eles precisam do mesmo valor que os jogadores de futebol têm. 

        Eu espero que as Olimpíadas continuem bonitas e emanando coisas boas e mensagens positivas para esse mundo que está cada vez mais nocivo. E espero que em breve eu consiga pensar em outras coisas, para voltar à programação normal por aqui.

O Efeito

Aí que eu sou pirracenta e só consigo me apaixonar loucamente por bandas com integrantes falecidos. E é claro que as razões para eu gostar das bandas sempre são os integrantes falecidos. Chico Buarque, SOAD e outros à parte, a verdade é que não consigo me interessar por música ou lançamentos de cd’s ou shows porque só consigo pensar na desgraça que é viver num mundo sem show do Legião, Beatles, Queen e tantos outros lindos em sua formação original (Vinícius, te amo). Porém, no entanto, todavia, em todo fim do túnel há uma luz. A não ser que seja um túnel sem saída, claro, mas não é disso que estamos falando no momento. O fato (que não é o ato da procura – sdds Sandy) é que existe lá naquelas terras cariocas que recém descobri amar infinitamente uma banda que consegue encantar o meu coração como nenhuma outra. E isso acontece há cerca de quatro anos, quando ouvi “Montagem da Solidão” pela primeira vez, no final de um trabalho do meu irmão. Mário, seus amigos com bom gosto musical e a influência que isso tem sobre a minha pessoa.

Ok, “O Teatro Mágico” também é legal, mas não chega aos pés de “El Efecto”. Porque só eles conseguem unir instrumentos inusitados, vozes desgrenhadas de todos os instrumentistas em músicas com arranjos fenomenais e letras mais fenomenais ainda. Além de ser musicalmente fantástica, a banda tem a capacidade de ser engajada socialmente em um nível infinito, de disponibilizar todas as suas músicas integralmente em seu site, de conversar com seus fãs, de retratar a vida em versos simples e lindos e de não desistir de encantar o mundo com seu canto. Só que eles nunca vieram pra minha cidade, pelo menos não desde que os conheço. E jamais imaginei que o fariam, porque não parecem uma banda que tem muito dinheiro/que aceitaria um show cobrando ingressos a preços absurdos de seus fãs. Por isso sempre ficava de olho nas Viradas Culturais e nos outros eventos gratuitos para ver se, por um acaso, o secretário de cultura resolveu desbravar bandas inteligentes e trouxe pra essas terras. E nada disso nunca aconteceu.

Só que aí existe o MST, sim, o Movimento Sem Terra, essa coisa linda que sempre teve pedaços do meu coração, porque sempre os vi como gente que corre atrás de justiça e que depois que visitei um assentamento e experimentei o melhor feijão da minha vida, decidi amá-los para sempre. MST tem escolas em todos os assentamentos e eles fazem um festival de artes nelas e fazem espetáculos no dia de finalização. É claro que chamaram “O Teatro Mágico”, que mesmo estando cada vez menos engajado, jamais abandona a bandeira vermelha do movimento em seus shows. A surpresa, porém, foi que pouco depois de “El Efecto” finalmente ter anunciado um show de lançamento do novo cd, sendo pago, eles foram confirmados como atração também para este festival, que é de graça, em uma praça no centro da minha cidade. Hoje.

Desde que soube do evento, há duas semanas, conto os dias sem parar. Durmo e acordo re-ouvindo minhas músicas preferidas, tratando de decorar mais e mais letras e aumentando a emoção no meu coração porque, finalmente, eu vou em um show de uma banda que eu realmente me importo com! E de graça!!!!! Mário, eu, Liv, Douglas e Ju, que contamos os segundos para finalmente vê-los em nossa frente cantando as músicas que cansamos de gritar por aí durante quatro anos, vamos juntos e tem tudo para ser absurdamente fantástico. Mesmo com esse vento chato dessa cidade malvada.

Só que eu não me contento com o fato de eu estar feliz, gosto de ver meus coleguinhas felizes também. E por mais que eu morra de ciúmes das coisas que eu gosto de verdade, fico emputecida em saber que são poucas as pessoas que conhecem essa banda genial, assim sendo, resolvi elencar meus trechos preferidos e linkar cada um deles a um vídeo da música completa, porque eu já estou no clima do show, mas, assim, vocês precisam conhecer esses lindos!

“Admira o próprio carrasco, pois no fundo é ele quem você queria ser, pra pisar em todo mundo, inclusive naquele que no caso é você!”

“Sem ter razão pra rir, não vá fingir que tudo vai ser mais feliz”

“De deuses e demônios eu não quero nem saber. Escravizam sua mente incoerente. Vivendo em função de algo, ou de alguém. E eu e tu e eles e nós?! Marionetes de quem?!” “Demônios diferentes fazem a fé e a fé faz demônios diferentes fazem a fé e a fé faz” “Pare e pense naquilo que você faz, se isso te satisfaz, se foi você quem escolheu. Você ou eu?!” e “Bonde do evangélio tão querendo nos pegar! Eles vem de Kombi para nos catequizar!”

“Super-Conservador, conserve a sua dor, teu desprezo é frustração, metade macaco metade vegetação”

“Mas quem são eles? Quem somos nós? Será que nós é que são eles ou eles que somos nós? Mas quem são eles? Quem somos nós? Quanto de nós existe neles e quanto deles existirá em nós?” e “O que importam pra você? Quem se importa com você? Impor tantos importados… Impossível”

“Duas coisas bem distintas: Uma é o preço, outra é o valor. Quem não entende a diferença pouco saberá do amor, da vida, da dor, da glória”

“Pedras são sonhos na mão. Flores que brotam, brotam do chão. Se as pedras não voam os sonhos são em vão”

“Pra solucionar, fazer passar sua tristeza,Teo vai às compras. Compras que irão encher seu coração de amor e de ilusão”

“Quem tira o brilho da vida não é a cidade e sim seu jeito de robô sem espontaneidade. Pessoas só fazem o que já foi feito. Pessoas só repetem o que já foi dito” e “Na ruptura da rotina é onde se esconde a felicidade.”

“Qual violência será mais nociva? Te roubam a carteira e de mim roubam a vida. Enquanto isso você continua a levar sua vida costumeira” e “O canivete que o pivete mete contra o seu pescoço te obriga a ser mais generoso. Mas tu tem ódio e só olha pro próprio umbigo, só fala em justiça quando acontece contigo. Não vê que todos juntos somos parte de um todo, e se alguém tem muito é porque outro alguém tem pouco. Desfila na avenida e não percebe a agressão, a indiferença é a doença que apodrece o coração.” e “Olho por olho, dente por dente, a gente acaba cego, banguela e doente”

“A vida imita a arte, quem foi que me disse que não? Você merece um Oscar pela tua atuação. Difícil é distinguir o que é real do que é ficção.”

“O amor é meu, meu e não depende de ninguém. É claro que você me faz bem, mas o amor é meu” e “Eu sou um otário! angustiado! A minha meta é vaga, infelizmente não dão vaga para quem vive só sonhando! Flutuando pela ciclovia num mundo de sonho e fantasia”

“Eu quero mais é se foda, porque eu estou pouco me fudendo.” “Eu quero voar mundo à fora mas estou preso numa gaiola só me resta cantar…” e “Medo, angústia e depressão. O ódio tomou conta do meu coração”

Espero que o efeito de tudo isso seja tão bom ao vivo quanto é virtualmente.

5 Noites Quentes

Curitiba é conhecida por ter a característica paulistana de fazer quatro estações em um único dia. Assim sendo, mesmo que vá fazer trinta graus na hora do almoço, durante a noite a temperatura nunca passa dos quinze graus. A gente sempre dorme no fresquinho e quando, lá no cume de Janeiro, as coisas esquentam, é só abrir a janela que o vento faz tudo ficar bem. No Rio de Janeiro não é assim. Lá faz calor-infernal-mas-delicioso até de noite. Só que de noite deixa de ser tão delicioso, porque a gente precisa dormir, né. Sou absurdamente encalorada e na primeira noite quase tive um colapso nervoso de calor e acordei suada e olhei pra cama de cima e lá estava Paloma, carioca da gema, dormindo sorridente embaixo de um EDREDOM. Aquilo pra mim foi o fim do mundo. Acordei às 6h da manhã e fiquei rolando na cama até que ela acordasse e só depois percebi que toda a agonia vinha do fato de que o ventilador estava desligado. Tomei um banho e sobrevivi.

Na segunda noite já tinha aprendido como funcionava as coisas, liguei o ventilador, peguei um lençol bem fino e ficamos deitadas na cama assistindo aos shows da sexta-feira 13 esperando o momento em que Analu e Milena finalmente chegariam. Dormimos porque David Guetta não é algo que faz nosso coração bater forte e eu acordei de supetão com os gritos da Beyoncè que resolveu cantar todas as músicas que eu conhecia e fazer performances um tanto quanto engraçadas e finalizou com uma épica dança de “lelek lek lek”. Assim que a dança terminou eu desliguei a tv e voltei a dormir. Então Milena e Ana Luísa chegaram, junto com Marcelinho e a gente acordou, foi fazer um lanchinho da madrugada e ficamos sentados ouvindo as histórias da noite que são muito engraçadas, mas vou deixar Ana Luísa relatar com detalhes. A mim cabe mencionar que Marcelinho, o nobre jovem com cara de Hércules e poderes de metamorfomago que o transformam em pessoas com bigodinho, pegou uma pulseira do Itaú durante o show. E a pulseira não desligava. E a pulseira parecia um ícone de uma “party hard”  que não foi tão hard assim e quando ele cansou da gente e todo mundo já tinha tomado seus banhos e nós decidimos que dormiríamos, Marcelinho joga a pulseira em nosso quarto. A gente coloca ela dentro da gaveta. Ela continua a piscar e fica parecendo um aparato mágico daqueles de desenho animado, algo que nos desencadeia uma série de risos. Isso e o fato de que Analu simplesmente dormiu e acordava esporadicamente para dar pitacos em nossas conversas e me mandar ficar quieta porque, “gente, essa mayra não cala a boca” e “tenho uma teoria sobre a Mayra, mas depois eu falo porque vou dormir” e em meio a tudo isso havia ainda o fato de que Milena iria embora no sábado, porque precisava viajar de volta para a casa dela e isso significava que eu quase não a veria e que meu coração estava morrendo, porque saber que estou na mesma cidade que ela, mas não no mesmo recinto é algo que sempre me mata. Dormimos, por fim.

A terceira noite foi aquela em que nós é que tínhamos ido à Cidade do Rock. Não pegamos nenhuma pulseira, mas é claro que a do Marcelinho ainda piscava – e continuou a piscar até quarta-feira, quando choramos sua morte e criamos um epitáfio para ela. Dessa vez nós é que chegamos sujas e acordamos Analu e… ops, Milena ainda estava lá! O fato é que algo aconteceu nas aventuras diurnas das duas moças e elas chegaram em casa muito tarde e não tinha como Milena ir embora naquele dia, tendo que esperar até a manhã de domingo para o mesmo. Então nós tomamos banho e ficamos deitadas na cama confabulando, até que Ana Luísa dormiu, eu guardei a pulseira num lugar em que não a víssemos piscar, Milena escreveu em nossos caderninhos e dormimos com o início da dor no coração gerada pela despedida que ocorreria no próximo dia.

E eu até esqueci que estava com calor, porque acordar e me deparar imediatamente com aqueles rostinhos fofos e lembrar de tudo que a gente estava vivenciando me fazia criar forças para esquecer todo o sofrimento que estava sentindo graças ao calor, porque Rio de Janeiro é maravilhoso, mas não entendo como alguém consegue morar lá sem banhos de praia diários. Absurdamente necessário.

4 Os Dias de Cão Acabaram

O palco mundo é aquela coisa gigantesca e super decorada e iluminada, do jeitinho que a gente vê na televisão. Tem dois telões, um de cada lado, e uma tirolesa bem na frente! Eu queria muito ir na tirolesa, mas demandava três horas de fila e é claro que a minha preguiça mandou pular essa parte da aventura.

Escolhemos não ir para a muvuca porque teríamos que voltar ao palco Sunset para ver Offspring e porque nenhum de nós era fã o suficiente de alguma das bandas para querer estar extremamente próximo delas. Então ficamos um pouco afastados, no canto direito do palco, numa área bem periférica em cima da grama. Só que o destino estava ao nosso lado e eis que eu e Paloma, duas pessoas muito pequenininhas, conseguimos o espaço entre cabeças alheias PERFEITO para que enxergássemos o palco. Aquele lugar havia sido pré-destinado a ser nosso. Eu tinha certeza disso.

O show do Capital Inicial foi bastante chato, devo confessar. Eu nunca gostei da personalidade do Dinho Ouro Preto e respeitava-o porque achava que ele era uma espécie de ícone da música nacional e tal, só que eu descobri que só conhecia uma música dele e que o fato de os integrantes da banda serem ex-aborto elétrico não era suficiente para me fazer ficar em pé ao longo do show ou cantar. Por isso estendemos a canga e ficamos sentados na maior parte do show, enquanto esperávamos terminar para que Offspring começasse no outro palco. Aí eles resolveram tocar “Natasha” e essa todo mundo sabe. Então a gente levantou, dançou que nem malucas, voltamos ao normal e fomos para o Sunset quando o show estava no fim.

O maior erro do festival foi ter colocado Offspring no Sunset e 30 Seconds to Mars no Mundo. Ok, Jared Leto é lindo. Mas ele ia continuar sendo lindo (ou ia ser ainda mais lindo) no Sunset do que no Mundo. No palco mundo 30 Seconds to Mars proporcionaram ao público uma hora com seus maiores sucessos, com Jared completamente afetado se achando o Batman com uma capa de penas num calor horroroso e fazendo cosplay de Jesus Cristo com um cabelo muito bem tratado, mas que não favorecia seus olhos. Enquanto isso, Offspring moveu o que eu creio ter sido metade das pessoas daquele festival para a região do menor palco na hora do show. Eu nunca tinha estado no meio de uma muvuca tão grande, não dava para a gente se mexer e por um segundo eu pude experimentar a sensação de tirar o meu pé do chão e não encontrar o chão na hora de colocá-lo novamente. A pior parte, porém, era a de que por algum motivo bizarro, o áudio do show estava péssimo. Era possível ouvir todos os instrumentos, mas o vocal estava baixíssimo e a gente tinha que se concentrar horrores pra conseguir cantar a música ao mesmo tempo que a banda. Dado este terrível problema, a multidão começou a sair. A gente conseguiu voltar a respirar e conseguimos ouvir as últimas músicas. Então eles deram uma paradinha e a gente achou que tinha terminado e quando voltamos para nossa posição perfeita do Palco Mundo (que dava para ver os dois palcos) vimos que a banda havia voltado. Morri de frustração, mas já não dava para voltar e teríamos que aturar um pouquinho de Jared Leto.

Ou não.

No meio do show do 30 Seconds to Mars resolvemos ir ao banheiro/comer. Foi aí que comi um lanche no bob’s, a única lanchonete que tinha lá. Mentira, tinha uma que vendia espetinhos, a casa do pão de queijo, um lugar de batatas fritas, de pizza e mais algumas coisinhas, mas o bob’s fornecia um hamburguer e a fome apertou. Aventurei-me. Não foi o melhor hamburguer da vida, mas não estava péssimo, claro. Comemos e ficamos sentados na graminha esperando o chatíssimo show terminar e o tempo de intervalo entre ele e o próximo também. Quando estava perto da hora do show da Florence voltamos ao nosso lugar predestinado e ele ainda estava intacto à nossa espera!!!

Florence entrou, linda e maravilhosa e eu quase morri de êxtase ao vê-la entoando algumas das canções que embalam a minha vida a tanto tempo, bem ali, na minha frente, em um local que eu conseguia enxergar sem telão, sem muvuca, com os dois pés no chão, podendo gritar e rodopiar o quanto eu quisesse. E a Florence me deu vontade de ser tão feliz quanto ela. Me deu vontade de ser feliz. Porque ela emana felicidade. Além de ter uma voz sensacional e usar roupas lindas e ser hiperativa e conseguir manter a afinação mesmo correndo horrores, ela emana felicidade. E eu me senti completa. Ainda mais quando ela terminou o show dizendo que os dias de cão haviam terminado.

Depois da Florence faltava Muse, a banda que eu só conhecia a música do Crepúsculo, mas que quando começou a cantar eu descobri que conhecia várias outras e, embora minhas pernas já estivessem me matando e eu tenha passado grande parte do show sentada morrendo de dor enquanto via Paloma sair do próprio corpo de tanta felicidade, garanto que foi um show muito legal de ter estado presente. E garanto que as músicas que consegui ver em pé valera muito a pena!

Após o fim do show fomos procurar umas amigas da Kika e depois encontrar o Marcelinho (e encontramos ele de primeira, porque os poderes de metamorfomago estavam offline no momento) e fomos para o ônibus. A questão é que pra entrar cada um chega na hora que quer, mas pra sair todo mundo sai em um fluxo contínuo e eterno de gente pelo mesmo lugar. Uma multidão caminhando para o mesmo rumo, parecia uma passeata. Demoramos uma hora para chegar até o ponto do ônibus, mas pelo menos conseguimos um para a maioria ir sentado. Chegando no ponto em que desceríamos foi questão de minutos para que tio Marcelo viesse nos buscar e dentro de mais alguns minutos estávamos em casa.

E quando chegamos no quarto, Analu estava dormindo. Mas Milena ainda estava lá.

3 O Festival

O maior medo que a minha mãe tinha em me deixar ir ao Rock in Rio era de eu ser pisoteada. Ela tem na cabeça que eu sou esse objeto frágil que quebra com qualquer coisa e me fez prometer que ia tentar escapar de um possível pisoteamento. Poor mommy. Mal sabe ela que nem havia essa possibilidade.

Os portões do festival abrem às 14h, mas ia ter churrasco na casa da Paloma antes e Milena foi tomar banho e demorou uma vida lavando o cabelo e é claro que a gente saiu de casa tarde e chegou no lugar perto das 16h. O percurso foi feito de carro até o terminal de ônibus (um carro com cinco pessoas no banco de trás, duas no do passageiro e o motorista) e de ônibus até o local do festival. Um ponto positivo para a infraestrutura é justamente o ônibus! As ruas de perto da cidade do rock ficam fechadas e somente os ônibus podem chegar até lá, então a cidade proporciona um ônibus chamado “rock in rio” que leva as pessoas do terminal à cidade do rock. Para facilitar o processo de pagamento de passagem e evitar perda de tempo com procura por trocos, só é possível voltar do festival quem tem um “Rio Card” que é o cartão de ônibus deles, então, na ida a gente também usou isso. Eu nem precisei comprar um, pois Paloma me emprestou o de sua mãe.

O ônibus parou e a gente foi andando até o local em que entregaríamos nossos ingressos. Estava bastante sol e calor e no percurso havia uma série de vendedores ambulantes, vendendo bebidas, guloseimas e, claro, ingressos. O curioso é que não eram ingressos absurdamente caros, havia alguns mais caros do que o preço normal e outros inclusive mais baratos! Me explicaram que isso ocorre porque o dia de atrações já havia começado e eles percebem que se não abaixarem o preço não vão vender e vão acabar perdendo o dinheiro integralmente, então se você for sem ingresso e chegar bem perto da hora dos shows tem chances de conseguir pela metade do preço que todas as pessoas compraram. Mas é claro que depende do fluxo mercadológico do momento, então se você realmente quiser ir ao show aconselho que compre antecipadamente, mesmo porque é R$130 a meia entrada e, pelo menos em Curitiba, esse é o valor do ingresso para o show de uma única banda e você paga para ver um dia inteiro de atrações legais.

Chegamos na fila de entregar os ingressos e de ser revistado. Eu não levei bolsa porque, enquanto o medo da minha mãe era de eu ser pisoteada, o meu medo era de perder meu celular ou documentos. Então peguei emprestada uma espécie de pochete que a Analu tinha levado, mas que não fica por fora da roupa e sim por dentro da calça. Lá coloquei dinheiro, documentos e o RIR Card. Na hora de entrar estava com o ingresso e identidade em mãos e a moça apenas passou o ingresso no código de barras, amassou o cartão, devolveu-me e me mandou entrar. Nem conferiu com a identidade, se fosse minha mãe que tivesse comprado meia entrada no nome dela teria simplesmente entrado. Também não fui revistada, porque eles não viram a bolsa. E tecnicamente eles tinham que passar um detector de metais e não o fizeram. Eu poderia ter entrado com drogas, armas ou qualquer outra coisa, mas não poderia entrar com uma garrafa de água, por exemplo. A não ser que ela estivesse sem a tampa.

Entramos e fomos direto ao stand do Trident, porque se a gente dançasse por 30 segundos ganhava chicletes. Lá encontramos a Rafinha, que tinha ido ao festival com seus amigos e nem tínhamos marcado encontro e eu achava que nem teríamos chance de vê-la e no primeiro lugar que vamos, lá está ela! A gente se abraçou, tirou foto e fomos dançar pra ganhar nosso chiclete. Chiclete em mãos, fomos até a Rock Street comprar água, porque lá era “só” R$4. Eles superfaturam a água, o mais barato que você encontra é R$4, mas tem que ficar na fila, porque é nos restaurantes. E nem é uma garrafa de água, é um copo de 300mL! E se você não compra essa água, tem que comprar no meio do povão, por R$5, também em copo, com o pormenor de não ser tão gelado (pelo menos não tem fila).

A rock street estava linda, com um super estilo United Kingdom e a Roda Gigante ao fundo para relembrar a – chatíssima e lerda – London Eye. No momento em que chegamos estava tendo a apresentação chamada “All You Need is Love” com 4 pessoas vestidas de Beatles, em cima do telhado das casas da rock street, cantando “Hey Jude”. Naquele momento eu já sabia que o dia seria incrível! Compramos nossas águas, andamos um pouco para ver o que tinha no lugar, sentamos na sombra enquanto alguns de nós iam ao banheiro e começamos a nos encaminhar para o Palco Sunset, pois já estava quase na hora do tributo ao Raul Seixas começar. Chegamos perto do palco, estendemos nossa canga no chão e ficamos esperando… Enquanto isso Paloma e Pedro foram comprar comida no bob’s e pouco depois eu e Kika nos juntamos a eles na fila. Quando terminaram de comer já se podia ouvir o cara do detonautas cantando que nasceu há 10mil anos atrás e por mais errado que possa parecer ver o cara do ~~detonautas~~ cantando Raul foi legal. Foi o mais próximo de um show dele que eu poderia estar.

E então fomos para o Palco Mundo.