O Legado da Perda – Kiran Desai

Fazia muito tempo que eu procurava um livro de autora indiana para ler, porque sabia que tinha tudo para ser sensacional. Não me decepcionei nem um pouco com essa leitura e fiz um vídeo pra contar pra vocês como foi a minha experiência – e recomendar fortemente a leitura a todos que possam desfrutá-la!

Desgostar de Gostar

Cersei, de Game of Thrones, disse para seu filho malvado e insuportável nunca amar alguém. “O amor enfraquece”, ela disse. “Mas você me ama”, ele respondeu. “Você é minha fraqueza”, ela replicou. E eu achei um absurdo. Fiquei boladona, em plena madrugada. Que tipo de mãe diz ao filho que o amor enfraquece? Meu mundo só não caiu porque eu lembrei de Harry Potter, a história bonitinha em que tudo dá certo só porque Lily e James amavam seu neném. O amor pode ser a força também, foi o que aprendi com Dumbledore e sua turma. Só que com o passar do tempo eu comecei a entender a Cersei. Amar pode nos fazer lutar por algo, mas não faz com que a gente seja sensato quanto aos motivos para lutar. Amar deixa a gente bocó. Faz com que abdiquemos o nosso próprio bem estar em prol do outro e no contexto do jovem rei insuportável que eu não lembro o nome e estou com preguiça de procurar (Joffrey?) é plenamente compreensível que isso não seja aceitável.

As vezes eu me identifico com essa linha de raciocínio. Eu sempre tive uma dificuldade absurda em me conectar com as pessoas e sempre detestei que isso ocorresse, porque sempre acarretou em noites irreparáveis de choro ou tortura mental, baseados em descobrir se o amor era recíproco ou não. Se recíproco, a tortura limitava-se ao fato de que eu jamais seria digna de ser amada por qualquer pessoa sem ser da minha família, então tinha que dar um jeito de parar de gostar da pessoa, pra ela parar de gostar de mim e a vida voltar a ser normal. Se não recíproco, a tortura consistia em lamentar o fato de que eu realmente sou inamável.

Não sei lidar com quem gosta de mim porque acho tudo falso e bonitinho demais para ser verdade. Eu recebo e-mails dizendo que “EU TE AMO TANTO QUE NÃO SEI COMO É POSSÍVEL O RESTO DO MUNDO NÃO DE AMAR COM A MESMA INTENSIDADE PORQUE VOCÊ É MARAVILHOSA.” e morro de rir, automaticamente desconsiderando. Ou a pessoa é lunática, ou ela está simplesmente feliz por algo que acabei de fazer por ela. Vai passar. Ninguém é capaz de tornar o ato de amar a mim um estado perpétuo. Sempre é efêmero. E a dualidade que isso causa em mim já é parte da angústia existencial que aprendi a chamar de “vida”.

Só que quando eu passo a gostar da pessoa, a me sentir conectada a ela e a querer estar perto dela a maior parte de tempo da minha vida, imaginar que há 1% de chances de frases como a de cima serem sinceras, faz com que eu durma feliz. E a existência do resto da humanidade faz com que eu fique triste no mesmo segundo. É que quando eu gosto de alguém eu sou bem brega. Cafona mesmo. Eu mando músicas do Wando e do Bruno e Marrone e de Chitãozinho e Xororó e digo que simbolizam o nosso relacionamento. Eu escrevo cartas completamente sem sentido, porque nunca consegui dizer “eu te amo” pra alguém que não fosse da minha casa, sem ser em momentos de euforia e aí me rendo a cartas que poderiam ser resumidas em “eu amo você, por favor se esforce para ser feliz e estar sempre bem porque o seu sorriso é a melhor coisa da minha vida”, mas que nunca são resumidas. Eu escrevo e-mails enorme narrando micro-detalhes da minha existência e todas as minhas crises existenciais, na vã esperança de que a pessoa se importe pelo menos um pouco, porque o pouco dela já me faz transbordar de felicidade.

E eu fico com ciúmes. Eu vejo que as bandas e seriados e vídeos que nós tanto conversamos sobre, na verdade não são só nossos. Vejo que existem outros amigos. Outras pessoas importantes. Tento ponderar “veja bem, ela também não é a única na minha vida”, mas a sensação temerosa de que qualquer um possa vir a ser mais legal e digno de amor do que eu faz com que o medo de perder apareça e a partir daí o desespero começa a tomar conta. De repente estou tentando descobrir quem são as outras pessoas que rodeiam a minha e o que elas têm de mais legal do que eu e deito na minha cama me sentindo a pior e mais possessiva pessoa da face da Terra. Sinto-me o próprio Smeagol gritando “my precious” pra algo que nem é meu, porque é uma pessoa e não um objeto e pessoas não são passíveis de serem possuídas, a escravidão foi abolida e tal.

Aí eu estava vendo The L Word e de repente a Alice, que era super centrada, se torna a pessoa mais maníaca do universo. Ela finalmente consegue fazer com que o amor de sua vida a ame e não sabe lidar com a ideia de talvez perdê-la, então passa a sufocar a pessoa de todas as maneiras possíveis e acaba se tornando insuportável. Alice fica com ciúmes de amigas, ex-namoradas e chega ao cúmulo de pedir para morar junto com a pessoa por pura falta de segurança. Logicamente o relacionamento termina e isso rende uma epopeia de acontecimentos terríveis para Alice, que ficou obsessiva, criou um mural com fotos e todas as lembranças possíveis e passou a perseguir a ex em todos os lugares imagináveis, perdendo a hipótese de ter sua própria vida.

Eu não gosto de gostar de pessoas porque eu tenho medo de virar a Alice. Eu tenho medo de me tornar obsessiva compulsiva a ponto de nunca mais conseguir fazer nada não relacionado a tal pessoa. Essa ideia me atormenta tanto que eu nunca me permiti ser fã de nada, a ideia de ser obsessiva compulsiva por alguém sempre me deu uma aflição terrível. Se eu nunca consegui gostar de verdade de mim mesma, o que me torna apta a ser um peso na vida de outra pessoa? A me introduzir tanto assim em sua existência? A viver mais a vida dela do que a minha? Nada disso faz sentido. Nada disso está certo.

Desgosto do que gosto porque sei que gosto e as vezes acho que o saber é que é o problema. O auto conhecimento é que é o vilão. A ignorância perante si mesmo parece muito mais fácil de ser vivida. Não identificar os problemas é bem mais tranquilo do que tentar lidar com eles. O que os olhos não veem o coração não sente, não é? Eu queria ser cega perante essas coisas. Não perder tempo pensando nelas. Ou aprender magicamente a lidar com elas, porque a vida humana gira em torno da construção de laços sociais e afetivos. Da completude. Do fazer-se bem quisto. E eu não sei se quero ser bem quista. Não sei se sei lidar com isso. Não sei se quero despertar sentimentos tão doentios nas pessoas quanto elas despertam em mim. Não sei se quero me sentir ainda mais vulnerável enquanto busco ser um pouco mais forte.

Desgosto com gosto do gosto de gostar. Essa é a conclusão do dia.

Meu

É interessante analisar a tenuidade existente entre o exterior e o interior, dentro de nós mesmos. Sim, essa frase ficou estranha. O que quero dizer é que em basicamente todos os âmbitos que nos cercam, aquilo que aparentemente é nosso, na verdade não é. O que preenche o nosso interior, na maioria das vezes, é muito mais externo do que poderíamos imaginar.

Os sentimentos existem. A maneira com a qual lidamos com eles nos é socialmente construída e culturalmente ensinada. Acho essa escola muito falha. Nem a ciência, nem Shakeaspere e nem os maravilhosos gregos souberam nos explicar exatamente como agir em cada uma das micro-situações em que nos colocamos. E as vezes as caraminholas de nossas cabeças agem tão mais depressa que o mundo que nos cerca, que a ansiedade nos faz fazer coisas que jamais deveriam ser feitas e tudo que nos resta são lamentações por sobre coisas que ninguém sabe ao certo como conceituar e menos ainda como viver e sair ileso.

Aquilo que é meu nunca o é necessariamente. E mesmo que o casaco seja só meu ou que só eu utilize aquela calcinha, nada impede que um dia eu doe o casaco ou alguém use minha calcinha. O fato de algo parecer meu em algum momento, não o torna eternamente meu. Exclusivamente meu. Meu, de fato.

As histórias que a gente lê e considera nossas foram lidas por muitos outros que também as consideram deles.  E mesmo que uma pessoa jamais consiga ser exatamente a mesma para duas pessoas diferentes, ainda assim ela não é inteiramente diferente, única, só sua. Uma pessoa nunca é inteira e exclusivamente de ninguém.

A única coisa que pode ser nossa, é justamente aquela que mais nos assola e faz com que passemos dias e dias de nossas vidas tentando externá-la, encontrar uma outra solução não intrínseca e ficar apenas livres de. O sentir. Não o ato de sentir, isso todos fazem. Seja pelo tato ou pelo subjetivo, sentir é algo que até os micróbios devem ser capazes de fazer, mesmo que não tenham consciência disso.

A questão é que a leitura que fazemos dos nossos sentimentos é única. Ela depende de nossa vivência e ninguém tem a mesma vivência que outra pessoa, mesmo que seja irmão gêmeo e tenha frequentado os mesmos lugares a vida inteira, a maneira como um enxerga as coisas ainda vai ser um pouco diferente e a razão disso eu não sei, mas é assim que é.

A gente pode escrever páginas, dossiês, linhas, livros, coletâneas e o que mais quiser sobre os nossos sentimentos e ainda assim eles serão incompreensíveis. Tanto para nós quanto para terceiros. Se nem nós conseguimos colocar em palavras tudo que nos assola, como é que podemos mensurar toda a realidade que nos angustia e deixa malucos para uma outra pessoa, que provavelmente vai ouvir a história inteira e ter uma leitura completamente nada a ver sobre o fato vivido?

A gente pode rotular os sentimentos. Dizer que tal coisa é medo e aquela outra coisa é paixão, mas nunca vamos conseguir explicar a forma como o medo e a paixão se mostram para nós. Nunca vamos conseguir transpor em palavras exatas aquilo que tanto nos atormenta e isso vai nos deixar cada vez mais atormentados, porque o fato de não entendermos tudo que se passa com a gente nos deixa ainda mais temerosos, inseguros e atormentados.

A ilusão de posse sobre algo, mesmo que esse algo seja uma ideia de sentimento, uma ideia de pessoa, uma ideia – como na maioria das vezes o é, faz com que a posse se inverta. Enquanto primariamente a ideia é que a gente obtenha o controle sobre aquilo que possuímos, acabamos por nos envolver tanto que nos deixamos possuir. Objetificamo-nos. Perdemos a tão falada autonomia e viramos dependentes de pessoas, coisas, ideias, ideais e leituras idealizadas de sentimentos.

“A felicidade só é real quando se vive para outrem” disse Tolstoi e no decorrer do livro a gente percebe que não é bem assim que a banda toca, porque viver para outrem não necessariamente gera a completude e a dita felicidade que tecnicamente buscamos. E que buscamos, mas suportamos por apenas alguns dias e depois nos irritamos com o ato de estarmos felizes e procuramos defeitos e problemas em lugares completamente aleatórios, só para ter uma desculpa para continuar reclamando, continuar lutando, continuar vivendo. Afinal, qual é o ponto em viver feliz? A constância irrita. Não importa de qual sentimento seja essa constância. Nada importa.

E a cada dia que passa, cada história conhecida, momento vivido, lugar encarado e abraço sentido fazem-me entender menos ainda todo esse caos ambulante na qual estou inserida. Fazem minha vontade de existir diminuir cada vez mais, enquanto o ódio dilacerado pela existência da humanidade me possui, me conforta e me irrita. Ser malvada, assassina, temida, briguenta, um sonho. Hiper-sensibilidade, preocupação extensiva, sonhos bizarros que parecem tão reais que assustam, vontade de fugir, de recolher-se em si e só depois ir em busca a um abraço querido e apaziguador.

Síndrome de Supertramp, talvez. Culpa do Tolstoi, talvez. Ou minha, dessa cabeça impensante que tanto pensa, dessa necessidade abrupta de sentir e ser sentida, mas não se sentir apta para nada disso. Culpa? Por que é que alguém tem que ter culpa? É tudo meu. Minhas leituras sobre o mundo. Meu sentimento. Meu. Mesmo que eu não tenha nada.

Eu não sei pra que lado mas eu vou, tento tanto mas tão tonto perco o tempo e a direção. Percorrendo, assim, eu vou. Persistentemente em frente eu tento insistir em ir. Eu sou um otário! angustiado! A minha meta é vaga, infelizmente não dão vaga para quem vive só sonhando! Flutuando pela ciclovia num mundo de sonho e fantasia…