Abrindo o Fecho

Eu sempre fui péssima em abrir fechos de sutiãs. Sempre fui péssima em tudo que envolve sutiãs, diga-se de passagem.

Eu tinha sete anos e ia na casa das minhas amigas ouvir Britney Spears escondida enquanto tentávamos dançar como ela. Uma das meninas sempre pegava os sutiãs da mãe, colocava e distribuia pras outras, porque “a Britney tem peitos, também temos que ter!” e eu nunca colocava o sutiã. E dizia “eu não quero ter peitos” e elas diziam “mas toda menina tem que querer ter peitos!” e eu ficava emburrada e ia pra casa desolada imaginando que um dia talvez eu tivesse peitos.

A minha relação com os peitos foi muito proveitosa, não há como negar. Mamãe tinha muito leite e eu mamei abundantemente até dois anos de idade, então enjoei e comecei a fazer birra e ela parou de me dar leite e começou a doar pro resto do mundo. Depois disso, perdi o contato com aquele punhado de pele da mamãe, tendo-o visto nela e em todas as outras mulheres da família inúmeras vezes porque eu detestava tomar banho sozinha. Não tinha a noção de que um dia aquilo faria parte de mim e quando eu descobri isso, fiquei chocada.

Lembro de me olhar no espelho, me imaginar com peitos e começar a chorar. Pensando que se algum dia aquilo acontecesse comigo, seria terrível. Não é que eu ache feio qualquer pessoa ter peito, eu não me importo com os peitos alheios, só não os queria em mim. A simples ideia de que isso pudesse ocorrer me atormentava horrores e quando eu cheguei na puberdade tudo que conseguia pensar era “por favor, que eu não tenha peitos” e, bem, meu desejo foi realizado e eu sou absurdamente feliz com isso.

Só que não ter peitos não faz com que você se liberte do fecho do sutiã. Porque usar sutiã não tem nada a ver com ter peitos, pelo menos não na cultura brasileira a qual estou inserida. Aqui as pessoas usam sutiã para disfarçar o mamilo, porque mamilo aparecendo é tão chocante quanto andar de saia sem calcinha. É absurdamente deplorável, julgável e reprovável. Então, a partir do momento em que os mamilos das meninas começam a se desenvolver, elas são coagidas a usar sutiã.

“Vamos comprar sutiã, filha!” “Pra que, mãe?” “Todas as meninas da sua idade usam… é pra não aparecer os peitinhos no uniforme”

E todas nós caímos nessa conversa. E ganhamos sutiãs bonitinhos, fofinhos, aparentemente confortáveis e podemos ir pra escola nos sentindo mais mulheres, porque sutiã é coisa de mulher de verdade e a partir disso é como se a gente de fato tivesse crescido. E nunca mais paramos de usar sutiã. Os seios crescem um pouquinho e lá vamos nós comprar de um número maior, uma cor diferente, estampa mais bonitinha e acabamos gostando da coisa, ela se torna tão natural quanto usar calcinha e ninguém nunca pensa em qual sua funcionalidade, simplesmente compra e usa.

Só que quando você não tem peitos, comprar sutiã é altamente torturante. Porque não existe um que seja do tamanho perfeito, sempre vai ficar faltando pano nas costas ou sobrando bojo e não importa o quão coloridos e versáteis eles pareçam, eles sempre vão te machucar. Usar sutiã, caros colegas, é uma tortura. É aquela coisa terrível de se sentir presa o dia inteiro por uma coisa que você não faz ideia do motivo para usar, porque pra quem tem peitos ele é super útil! Ele levanta, deixa no lugar e ajuda a distribuir o peso, fazendo com que as costas não doam, é altamente necessário! Pra quem não tem peitos, não serve pra nada. Não tem nada pra levantar, não tem peso nenhum. Por favor, deixem meus mamilos em paz.

E daí cá estou eu, dezenove anos na cara, mais de dez sutiãs na gaveta. Cada um com um modelo e cor e tamanho diferentes, nenhum sendo confortável o bastante para me fazer querer usar o dia inteiro. Sem saber como lavar aquela coisa de um jeito que não estrague e que limpe de verdade e sempre tendo que pedir ajuda pra mãe. Sem habilidade para abrir ou fechar o maldito fecho, sendo obrigada a colocar a coisa do mesmo jeito que a minha vó colocava, ou seja, abrindo e fechando com ele virado pra frente e tendo como única habilidade no quesito “sutiã” o ato de tirá-lo. Porque é a única coisa que eu faço. Porque eu chego em casa e antes de tirar as meias e o sapato vou logo tirando o sutiã daquele jeito que não precisa tirar a roupa primeiro, ou no máximo eu abro ele e deixo ali só pra constar. Porque machuca, dói, aperta, prende, é aquela coisa que eu nunca esqueço que estou usando, não é orgânica à minha pessoa e, AI. Cansei.

Cansei. É isso. Simples assim.

Eu conheço gente que não usa cueca pelos mesmos motivos que eu detesto usar sutiã, só que, por favor, não usar cueca é muito mais problemático, mas como os terceiros não percebem a falta da cueca, ninguém reclama. Só que todo mundo percebe a falta do sutiã, então todo mundo automaticamente julga, cochicha, reclama, intervém e eu decidi lutar contra isso. Romper esses grilhões, rasgar essas amarras e abrir esse fecho. Eternamente. Decidi que só vou usar sutiã quando eu me sentir altamente desconfortável em alguma roupa sem ele – o que acontece as vezes, porque há roupas com costuras no peito que coçam e nesses casos até sutiãs são mais confortáveis – e em todas as outras ocasiões ficarei sem.

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E se você for dizer “Ai, mas é sensual e você já não tem peitos, se não tiver sutiã ninguém vai querer você” eu vou responder que “se a pessoa me quiser ou não baseando-se nas roupas que eu uso ou não, é um babaca tão grande que prefiro manter distância”.

Ao Avesso

Acordei cedo hoje, ainda não eram nem 18h.

Tomei meu banho, comi uma coisa e fui conferir a quantas anda minha vida internética.

Não, eu não estou de férias. Apenas decidi viver um dia às avessas. Um desses anseios toscos que invadem nosso peito às vezes.

Então eu acordei e percebi que estava faltando cerca de uma hora para começar a escurecer. Ri sozinha enquanto ouvia as reclamações da minha mãe dizendo “você faltou aula para dormir de novo!” “mas dormir é bom!” “mas a gente tem que dormir de noite!” e ai… quem foi que inventou isso?

Não que eu tenha algo contra o dia, longe de mim. Ele é bonito as vezes, tem seu charme. O céu azul me encanta, ainda mais quando está surrupiado por cumulus-nimbus, porque sim eu tive minha fase de decorar as nuvens e as constelações e passar horas e horas tentando identificá-las. Eu gosto do Sol brilhando enquanto o vento bagunça meu cabelo e gosto de quando tudo resolve ficar cinza e a chuva me banha de graça enquanto ando pela rua. Mas a noite também precisa ser valorizada.

Tudo começa com o pôr-do-Sol, que é bem mais bonito que o nascer do mesmo. A partir daí começa uma abundância de maravilhas que se concretizam quando há uma coisa branca sorrindo pra você lá em cima. Porque a Lua simplesmente sorri. Ela é o Cheeshire cat de Alice que fica sorrindo pra gente o tempo inteiro e a cada dia ela sorri com mais ênfase, até que atinge seu ápice e começa a murchar de novo e daí eu me esforço horrores pra fazer a vida ser divertida o suficiente para que ela volte a sorrir de novo, porque eu gosto do meu cheeshire, eu gosto da Lua.

As vezes as estrelas aparecem também e começam a dançar com ela e com as nuvens e com as luzes dos aviões que passam pelo meio do caminho e com a névoa que aparece e deixa tudo laranja, mesmo estando no meio daquilo que as pessoas chamam de “noite”.

Quem foi o animal que decidiu que a noite seria noite e o dia seria dia? Quem foi que inventou que a gente tem que acordar super cedo e ir dormir na hora em que o céu e o kosmos estão mais sorridentes, bonitos e amistosos? Porque é que não pode ser ao contrário?

Hoje foi tudo ao contrário. Não fui à aula, não almocei, tomei meu café da manhã pouco antes das 18h. O almoço dar-se-á por volta de 22h, porque sou gulosa e a partir daí fartar-me-ei em meio a doces, misturas e ceias que permearam toda a minha noite, que hoje eu elegi para ser meu dia.

Em um mundo perfeito estaria encaminhando-me à universidade por agora e voltaria à meia noite, só então faria todas as outras coisas que faço naquele período que chamam de “tarde” e na hora que o Sol nascesse eu ia tomar meu banho e dormir o dia inteiro. Nem é porque é legal ser do contra ou porque dormir de dia é mais descansante do que dormir à noite. Quer dizer, eu realmente descanso mais quando durmo de dia e eu realmente gosto de ser do contra, mas o que posso fazer se a noite me encanta muito mais? Se quando o dia fica escuro é como se algo aqui dentro se iluminasse e dissesse “uhul, está na hora da gente viver”? O que posso fazer se na verdade a convenção social eleita como correta para o geral não me contempla? O que fazer se o dia não me representa?

Sinto-me defronte a mais uma de minhas propostas de revoluções que jamais serão colocadas em prática. Mas as férias existem, os dias de greve geral de mim mesma para com o resto do mundo também e ainda bem que eles existem porque só em momentos assim eu vejo que ainda vale apena existir.

Afinal, qual a graça de sentar numa cadeira para estudar durante o dia, enquanto ele está lindo maravilhoso e convidativo para um sorvete no parque com gente querida? Não dá. É impossível. Sempre me rendo ao sorvete. Só que de noite ninguém faz nada, de noite o silêncio reina e quem o quebra são as caixas de som dos carros das ruas que passam com músicas hilárias, que só servem para me animar ainda mais a fazer aquilo que eu deveria. Porque de noite nem dá vontade de tomar sorvete, de noite a gente pode tomar litros e mais litros de café, com todas as misturas possíveis e fechar com um bom bolo de caneca enquanto vemos aquele filme que nos dá sono na hora em que resolvemos dormir.

Se algum dia eu resolver fazer algo da vida, será uma escola/universidade/emprego que fucione a noite para que pelo menos alguns felizardos possam aproveitar os dias da maneira como devem.

Sendo gente.

Há algum tempo eu vi um curta metragem  absolutamente genial que se passa num futuro distante em que as bonecas infláveis são mais versáteis. Assim sendo, um camarada vai lá e compra a sua. Só que elas não são vendidas por inteiro, mas sim em pedaços e o primeiro pedaço que ele compra, claro, é a região busto-abdômen. Berni, o camarada, diverte-se horrores com a tal parte, tendo em vista que ela não pensa, não se movimenta, está só ali disponível para “servi-lo” o tempo que for necessário. Mas ele não se contenta e quer mais. Trabalha como um condenado e aos poucos vai comprando as partes restantes para completar sua boneca. Por ser uma boneca, logicamente, Berni pode escolher as pernas que a deixam mais bonita, os braços que o agradam mais e assim pode personificar a mulher de seus sonhos. Até que ele resolve comprar a cabeça, a parte final. A mais cara, mais difícil de ser elaborada e também a que causa mais danos para o coitado Berni. Porque no segundo em que ele coloca a cabeça na boneca, ela se lembra de tudo que passou, da maneira como foi usada, de como sua vida foi péssima porque sempre foi limitada à servidão sexual para um babaca. Ela se lembra que ganhou braços só porque ele queria roupas passadas e que nunca fora algo além de um objeto. Então ela abandona Berni e ele fica chateadíssimo porque desperdiçou todo este tempo e dinheiro com uma boneca que fugiu.

Este filme tem menos de dez minutos, mas causou em mim pensamentos que vários dos filmes com mais de duas horas que eu já assisti jamais seriam capazes. Não consigo rever este curta sem me sentir mal. Angustiada, enojada, repulsiva. E não é porque eu ache que algum dia vão inventar uma boneca que seja capaz de substituir uma mulher. Porque nem tem como isso acontecer, porque mulher nunca foi e nunca será apenas um objeto. Sempre fomos mais do que isto. O que me incomoda no filme é pensar que mesmo não sendo bonecas, mesmo sendo de carne e osso, há mulheres que são tratadas e que vivem exatamente como a boneca do Berni. Há mulheres que são usadas para objetivos sexuais e para limpar a casa, como se só servissem pra isso. Mulheres que nunca podem abrir a boca, porque sequer passa na cabeça dos outros que ela pode ter algo a falar que não seja sobre futilidades. Há mulheres que ficam em casa para organizar a vida de seus maridos executivos e há mulheres que trabalham como condenadas para ganharem menos que estes tais executivos e quando chegam em casa ainda tem que arrumar tudo. Mulheres que acordam e dormem sofrendo, repletas de cosméticos em sua pele e de pensamentos absurdos sobre seu corpo e sua aparência em geral, porque elas não estão no padrão imbuido, porque elas vão morrer sozinhas. Porque elas são feias e, como o único papel da mulher é ser bonita, elas não merecem viver.

Eu cansei. Cansei de todos esses argumentos babacas. Cansei de ver gente que eu conheço e tenho muito apreço por entrando em relacionamentos completamente babacas apenas para cumprir um padrão pré-estabelecido por uma moral ultrapassada que nunca foi repensada. Cansei de ter que dar conselhos porque eu sei que ninguém vai seguir os meus conselhos, porque poucos são os que conseguem ser despreocupados com toda essa neura social que envolve mulheres, homens e relacionamentos. Eu cansei de voltar da faculdade e me deparar com gente na rua dizendo que estou “gostosa” ou entrar no facebook e ter que ouvir que “tal roupa te deixou uma delícia”. Cansei mais ainda de ouvir gente dizendo que eu me incomodo não com a palavra, mas com quem a disse. Porque, segundo estas pessoas, se fosse uma pessoa por quem eu tenho algum tipo de atração que viesse me dizer que estou “gostosa” eu não ia ligar. É claro que eu ligo! Porque é um absurdo que as pessoas achem que eu escolho as minhas roupas com o intuito de parecer algo para alguém. É um absurdo ainda maior acharem que só porque fico bonita com aquela roupa estou emanando sinais de “vamos nos agarrar”. É só uma roupa. É só um cabelo. Sou só eu. E eu não sou só essas coisas, embora seja também elas.

Eu queria que o mundo entendesse que nós mulheres não temos a obrigação de parecer lindas e perfeitas e que se parecemos não é porque vocês quiseram e sim porque nós quisemos. Queria que entendessem que se estou bonita, ótimo, mas isso não te dá o direito de falar de mim como se eu fosse uma boneca que se aprumou para ser utilizada sexualmente. Queria que entendessem que eu tenho o direito de não querer casar virgem e de fazer o que quiser, quando quiser até neste aspecto da minha vida. Queria que entendessem que eu tenho voz, que eu penso, que não sou um objeto comparável com outros objetos. Queria que entendessem que não dá mais pra tratar questões sérias como o aborto baseando-se em princípios puramente religiosos. Queria que entendessem que mulher nenhuma é culpada por sofrer algum tipo de abuso, porque num mundo perfeito cometer abuso sequer passaria na cabeça dos homens. Queria que entendessem que gosto de exercer meu poder de escolha e minha liberdade e que não me sinto nenhum pouco obrigada a ser afável com gente que me irrita por ter atitudes babacas. Queria que entendessem que meu mundo perfeito seria um mundo em que eu pudesse andar com a roupa que me deixasse mais bonita por aí sem medo de que algo ruim me acontecesse por isso. Sem ter que forçar sorrisos amarelos para cada “elogio” ouvido. Queria que entendessem de uma vez por todas que o problema existente, a tal dominação do masculino sobre o feminino, já ultrapassou os limites do tempo espaço. Já passou da hora de acabar. Queria que entendessem que eu não aguento mais ver estes conceitos reproduzidos em cada um dos filmes, livros, seriados e relacionamentos que me deparo por aí. Queria que entendessem que eu sempre quis ser tudo na minha vida, mas nunca, jamais, sob hipótese alguma, submeter-me-ei a ser algo semelhante à boneca deste vídeo.

E desta vez nem é porque sou um alien, é porque sou mulher mesmo. Uma mulher que sonha em ser tratada como gente.

Mesmo Rodeado de Gente.

Estou fazendo uma matéria muito legal neste semestre. Não que as outras sejam chatas, mas elas exigem demais da minha pessoa, essa não, com ela as coisas acontecem naturalmente. É a única que me dói ter que sair mais cedo ou não ter tido tempo de ler o texto e é por isso que eu sempre leio e sempre tento prestar atenção.

Eu aprendi que há uma grande diferença entre pessoas que vivem na metrópole e pessoas que vivem no interior, é que as que vivem na metrópole passam anos e anos desenvolvendo um individualismo extremo, enquanto as do interior, mesmo que individualizadas, ainda sabem ouvir o outro. Na metrópole você anda na rua se esbarrando nas pessoas e pedindo desculpas, porque elas estavam bem na sua frente e você não viu. Você passa todo dia por lugares maravilhosos e nunca percebe porque há sempre muita coisa acontecendo na sua cabeça. Você dorme planejando o dia de amanhã, o seu dia de amanhã, com a sua rotina. Você não fica pensando que talvez não devesse fazer tal coisa porque poderia ir ao médico com sua amiga que está sem companhia, por exemplo. No meu caso, as coisas são críticas a ponto de eu planejar o final de semana sem parar para pensar que talvez outra pessoa da casa queira usar o carro também. E isso não é um problema meu porque, ai meu Deus, sou a rainha dos egoístas. Eu sou egoísta, mas convenhamos, todos nós somos. Todos nós queremos que a nossa vida dê certo, a gente não perde o tempo dela para melhorar a do outro. Raras são as pessoas que dão comida nova a um mendigo por livre e espontânea vontade, por exemplo. A gente vive esperando o nosso retorno. Eu. Você. Todos nós.

Comecei a ler um livro do Chuck Palahniuk e, gente, eu amo muito esse autor. Porque ele consegue descrever em palavras simples coisas que eu demorei semanas para sistematizar em minha mente. Porque com ele cada frase é uma quote fantástica e o livro não precisa ser lido, ele precisa ser apreciado. Cada palavra é um soco no estômago tão forte que não há graça nenhuma em deixá-lo passar sem sentir a dor do soco.

Eu tenho sentido socos. Por todos os lados. De todas as pessoas. Tenho recebido muito amor, carinho e atenção também, mas nunca é suficiente. Enquanto a maioria das pessoas chega em casa, vai para seu quarto e lá fica até a hora de sair no outro dia, eu chego em casa e vou conversar com a minha família, o quarto só serve para dormir ou passar fins de semana/férias tediosos. A gente compartilha nossa vida, conta nossa história, nossos segredos e angústias. A gente faz comida um pro outro e come junto. Discute o jornal, a novela e as brigas de rua que ocorreram na noite anterior. A gente conversa, ri, chora e sente. Eu falo mais que a boca todos os dias na minha casa. Eu adoro a minha casa, esse ambiente familiar, o cheirinho do café das 17h e os inúmeros abraços, palavras fofas e piadas hilárias que transpassam por todos os nossos dias e eu não consigo entender como é que para tanta gente é fácil se desvincilhar disso, pra mim não é. Pra mim dói.

Todos os socos que ando levando finalmente começaram a doer. Eu que sempre fui a pessoa mais sensível e chorona do mundo andei forte por tempo demais, até que percebi que não preciso provar nada para ninguém além de mim mesma. Que preciso parar de mentir para mim mesma e que preciso entender que as vezes chorar é necessário. Só que chorar sozinho dói mais ainda e daí eu fico com mais saudades e sofro ainda mais. Os socos se misturam com as bolas de neve e o emaranhado de sensações é tão forte que as vezes acho que não vou resistir e vou morrer de sentir tanto. Passei anos da vida tentando encaixar meus sentimentos ao padrão proposto, tentando adequar-me à seu modo obrigatório de expressão, mas depois que passei a perceber a existência deste padrão é que notei o quão boba é todo esse complô e resolvi me rebelar. Ainda não tenho coragem de chorar em qualquer lugar, quando dá vontade. Não tenho coragem de dizer “me abraça que quero chorar no teu ombro”, mas sei que um dia eu vou conseguir.

A gente anda por aí cercado de tanta coisa, de tanta vida, que acabamos por não percebê-la, por deixá-la passar sem que a sintamos. Não importa o que aconteça, quantos “oi, tudo bem?” você responda por dia, quantos abraços de cumprimento você dê, no final da noite sentir-nos-emos sozinhos. Pelo menos grande parte de nós. Independente de termos ou não alguém em nosso lado. Pensaremos em todas as coisas que gostaríamos de ter dito ou feito, de toda a sinceridade que mantemos retida, de todos os impulsos retidos e ficaremos cada vez mais angustiados, desiludidos e tristes. Sempre nos sentindo sozinhos, mesmo que em meio a uma multidão. A gente precisa de carinho, precisa de atenção, mas precisa do “todo” porque ninguém constrói o seu “eu” sem a ajuda dele. Ninguém é alguém sozinho. E a gente devia parar de achar que somos. A gente devia simplesmente repensar a vida e ser mais legal com as pessoas. Eu incluída neste grupo, certamente. A gente precisa ter compaixão e respeito. Precisa conseguir pensar e levar a sério algo além de nós mesmos. Precisa dessa consciência simples e básica, desta noção que nos deveria ser inata, de que nada nunca poderá ser algo sem que haja uma influência externa. Por que é que a gente rejeita tanto essas influências então?

Não é que os abraços devam ser extraídos ou os “oi, tudo bem?”, mas eles deveriam ser feitos com uma certa importância, não apenas por costume. A gente devia querer de fato saber se o outro está bem. A gente devia querer de fato abraçar o outro porque talvez ele esteja precisando e não só porque é uma convenção social! Eu preciso de abraços, eu sou viciada neles. Quando não os recebo a solidão me atinge num nível tão superior que eu me sinto tão pequena e tão “ninguém” que nem consigo explicar. Abraços, para mim, são o símbolo mor de que há alguém no mundo que ainda está interessado na nossa existência e, por favor, viver já é difícil, turbulento e torturante, se a gente achar que ninguém está interessado, qual é a graça, o sentido e a razão?

Eu não sei o que esse texto quer dizer ou porque o escrevi. É que faz muitos dias que eu não tenho o prazer de chegar em casa e sentar no sofá pra conversar com a minha família e eu fico completamente surtada da vida quando não tenho com quem falar, daí sento aqui e escrevo. Simplesmente escrevo. Se vocês quiserem ler, que leiam, se não quiserem, bem, pelo menos eu escrevi.

Hoje

Ah… O oito de Março… Aquele dia lindo em que todas as mulheres acordam, recebem flores, são respeitadas e parabenizadas por serem mulheres, para que todas as ofensas dos outros 364 dias do ano sejam explicáveis porque “ah, vocês tem um dia só de vocês”.

Só que não. Hoje não é um dia para remediar os outros 364, hoje é um dia para fazermos os outros 364 serem dias melhores. Mais igualitários e, acima de tudo, mais justos. Oito de Março não é pra gente ficar comendo bombom e sendo paparicada, mas sim para lembrarmos que por milênios às mulheres foram atribuídos somente os trabalhos domésticos, enquanto os homens iam “caçar” e depois “trabalhar”. É para lembrarmos que para uma divorciada conseguir respeito e emprego foram décadas de lutas, que as artes sempre foram vistas como “mar de orgia” porque toda artista é “um pouco puta”. É para lembrarmos que houve uma época em que as mulheres não podiam usar calças e muito menos se movimentar durante uma relação sexual, na verdade, elas não podiam sequer tirar suas roupas. É para que a gente lembre que diariamente milhões de mulheres são espancadas, estupradas e mortas, simplesmente por andarem na rua com a roupa que quiserem ou fazerem o que quiserem quando quiserem. É pra gente lembrar que graças ao domínio da sociedade patriarcal fomos deixadas de lado por MUITOS anos, até que finalmente conseguíssemos um pouquinho mais de dignidade.

Este foi o primeiro ano da minha vida que eu vi um grande número de pessoas compartilhando nas redes sociais frases como “não dê bombons, dê respeito” e fiquei feliz com isso. Acreditei que as pessoas estavam começando a perceber que as injustiças ainda existem. Então eu percebi que o número de gente que não entende ou concorda com a frase em questão ou com qualquer outra do tipo ainda é muito maior. Que a maioria das pessoas não ficou indignada com o fato do HC daqui oferecer um “curso de etiqueta” no dia da mulher, para trabalhadoras que recebem menos que os homens, são assediadas e mereciam ao menos uma conversa à respeito disso. Percebi que a maioria das mulheres ainda quer bombom, que são poucas as que não sofreram algum tipo de abuso e lutam pelas que sofreram e que são menos ainda as que percebem que foram abusadas. Eu percebi que eu não vivo no mundo que eu sonho em viver algum dia e eu me revoltei com isso. Eu me revolto com isso na maior parte dos dias da minha vida, claro, mas o dia de hoje me revolta mais enfaticamente. Porque eu não admito ver alguém  chamando uma mulher  de “vadia” pelo simples fato de ela estar com calor e estar usando um shorts. “Ah, ninguém manda usar shorts apertado”, na verdade a gente não tem culpa de o padrão da moda ser esse e temos menos culpa ainda com o fato de as pessoas acharem que isso é “pedir para ser violentada” ou qualquer coisa do tipo.

Eu fiquei revoltada e fui à luta. Levantei a bunda do chão da minha casa, larguei a argumentação internetesca e fui ao Ato do Dia Internacional da Mulher, que todos os anos ocorre aqui em Curitiba. Havia participado ano passado e foi lindo, mulheres trabalhadoras rurais vieram participar e tinha tanta gente, tantos cartazes, tanto barulho que eu fiquei com orgulho por morar aqui. Esse ano fui de novo, não pude ficar o tempo todo, mas eu fui. E foi lindo. Havia muita imprensa, muita gente de vários coletivos, de vários cursos universitários e gente que não participa de movimento nenhum. Havia gente de todos os gêneros, idades e estaturas. De todas as vontades, ideologias ou religiões. Todos com um único objetivo: a igualdade.

Igualdade. Uma palavra tão simples, mas que gera tantas lutas. Tantas. Basta relembrarmos a luta que foi para tentar conseguir a igualdade entre as  “raças” humanas, algo que até hoje não foi inteiramente conquistado, a luta tremenda que todos os lgbt’s enfrentam em sua vida corriqueira, a igualdade social, econômica e, claro, a igualdade de gênero. Não, a luta não é para o fim da diferenciação de gênero. Não é para que as mulheres mandem no mundo. Não. A gente só quer poder andar na rua com a roupa que bem entender sem ter que ouvir coisas absurdas. Quer ter o direito de dizer “não” e ser correspondida todas as vezes que alguém chega tentando nos agarrar em uma balada ou quando não estamos afim de fazer algo sexual. A gente quer ser vista como gente e não como mercadoria, como algo que tem que estar lindo, como um objeto em uma vitrine e prontas para ser usadas quando quisermos. A gente não luta pela força física das mulheres, a gente não acha que elas sejam frágeis. Mulher não é frágil. Mulher é mulher. Simples assim.

Hoje eu lutei, eu ouvi coisas ruins e coisas boas, eu tive a oportunidade de perceber que ainda existe gente que compartilha destas opiniões comigo e tive mais esperança de que um dia de fato possamos dizer que somos iguais. Hoje eu ganhei mais forças para batalhar por um mundo em que eu receba o mesmo tanto que um homem na mesma posição, que eu saia de shorts na rua sem passar por algum constrangimento. Que ao andar na rua e ser congratulada pelo dia da mulher eu receba coragem para seguir em frente e não um cartão de lavanderia. Que as mulheres tenham coragem de reportar todos os abusos que passam, que o número de espancamentos, estupros e mortes por motivos toscos como fim de relacionamento ou suposição de traição sejam quase zero, ou quiçá zero. Um mundo em que quando eu contar que “minha tia foi assassinada por seu marido, porque ele achou que ela estava o traindo” pareça apenas uma história fictícia. Hoje eu não ganhei flores, nem bombons e, infelizmente, não ganhei respeito. Mas espero que um dia a gente ganhe.

Para quem não acredita, aí estão algumas manifestações que ocorreram hoje ao redor do mundo.