Corel Draw e o devir Designer

Eu tinha 14 anos quando jogava no Neopets e tive que fazer uma apply pra conseguir um pet específico e, para isso, precisava criar um site dedicado a ele. Para esta empreitada, baixei o programa que parecia ser mais fácil e funcional da época – Adobe Fireworks. E comecei a fuçar até fazer um layout bacaninha, um header decente e poder começar a escrever em paz. O site ficou gigante, porque eu era criativa na época e inventei a história do pet desde o seu nascimento até a necessidade de adoção, passando pelo momento em que ele se encontrava comigo e com os outros pets e a gente se demonstrava a melhor família possível para ele naquele momento. Aprendi o básico de HTML e publiquei a primeira página feita inteiramente por mim. Ganhei o concurso e o pet (Hindt, aquela LINDA <3) e continuei a arranjar desculpas para fuçar cada vez mais no Fireworks.

No outro ano, tive a oportunidade de realizar um curso de Photoshop básico, o que me decepcionou um pouco. Veja bem, o legal do Fireworks era poder criar as minhas próprias coisas e o que o curso ensinava era a corrigir fotos e afins, coisas que eu não conseguia me imaginar fazendo. Ok, aprendi a aplicar alguns filtros e deixar uma pessoa não muito bonita gatíssima e fotogênica, mas isso nunca foi de meu interesse, mesmo porque eu sou um tanto quanto contra o uso de photoshop como efeito modificador em fotos. Mas isso é outra história. Depois do curso, com o programa instalado no meu computador, pude começar a fuçar outras coisas e descobrir que os layouts e headers passíveis de serem feitos ali eram ainda mais legais. Porém, como eu nunca soube desenhar e sou uma canhota utilizando mouse para destros, não fui com muito afinco nessa história. Afinal de contas, eu podia apenas brincar com imagens já prontas, cores, efeitos, texturas, letras, símbolos e afins, mas nunca criar algo totalmente meu – porque eu não sabia desenhar.

Mudei de computador e desisti do Photoshop. Nunca mais tive acesso ao Fireworks – que depois do PS começou a parecer um programa tosco. E esse ano me vi obrigada a utilizar o Corel Draw para realizar a redação/edição dos textos do jornal Tribuna do Bairro Alto, cuja equipe faço parte. Só que, ocupada com uma série de outras coisas, nunca tive tempo de fuçar o programa e nas poucas vezes que tentei o achei menos funcional e bacana que o PS, me fazendo morrer de saudades dele. Eis que hoje eu decido que preciso renovar a identidade visual do blog e equiparar com a do Youtube (transformei aquilo lá em um canal do blog) e ainda criar uma página no Facebook onde eu pudesse compartilhar todas as minhas coisas. Só que, bom, como eu ia fazer isso em um computador recém zerado? Fui lá e baixei o Corel novamente. Cumpri todas as etapas do procedimento de instalação e tã-dã estava livre para fuçar. Pela primeira vez, o header que está aí em cima tem a minha letra. E eu escrevi com a mão direita e acertei de primeira. A assinatura ficou péssima, mas dá pra entender. O teste com os efeitos, os desenhos, as texturas e as imagens que eu vi serem possíveis de se realizar através do programa me deixaram apaixonadas.

Aí eu lembrei que Design era um dos cursos desejados na época do vestibular. Junto com história, letras, jornalismo e, claro, ciências sociais. Desisti porque a nota de corte era muito alta e a prova específica era desenho. Eu realmente não sei desenhar, mas sempre fui fã número um das minhas amigas que sabem (tenho uma pasta com mais de 60 desenhos feitos por uma delas), mas eu gosto de pintar. Também não sei fazer super efeitos e coisas lindíssimas, mas eu vivo pintando e meu sonho utópico de futuro é justamente a minha pessoa na frente de montanhas lindíssimas colorindo telas. O ponto é: estou com muita vontade de resolver essa etapa não resolvida da minha existência. É claro que não vou me tornar ilustradora ou uma real designer, mas quero aprimorar essas habilidades a fim de construir o meu próprio layout – inteiramente desenhado por mim e programado em CSS para quando eu comprar um domínio no WordPress (finalmente) que é um dos meus mais próximos planos. Vou jogar isso como meta pra 2016. Espero que cole.

Um dia com Doctor

Minha melhor amiga, Piper Chapman, foi presa por ser comparsa em tráfico internacional de drogas. Eu, como pessoa legal que sou, fui visitá-la na cadeia e uma vez acabei querendo levar presentes para ela que não eram propriamente aceitos pela segurança, o que fez com que eu fosse presa também. Viramos companheiras de cela e a vida era até divertida.

Meu trabalho na prisão era entregar comida, na verdade, cuidar do caixa do refeitório. Isto porque as detentas deveriam pagar para obter sua alimentação. O pagamento era feito com moedas, e eu tinha um imã muito forte que as grudava e ninguém conseguia pegar de mim. Minha chefe era a temida Red e as meninas da cozinha eram incríveis! Na frente do refeitório havia uma loja, repleta de manequins. E eles me assustavam, afinal, poderiam ser aliens dispostos a me atacar a qualquer momento. Por isso, eu sempre trabalhava acompanhada.

Chapman descobriu que o diretor da prisão era amigo de infância de seu pai e conseguiu uma reunião secreta com ele, que lhe garantiu a soltura. Quando ela foi me visitar, prometeu me levar para conversar com o mesmo senhor e para isso passamos pelos dutos de ventilação do presídio, até chegar na sala dele. No entanto, ela não deixou que eu saísse do esconderijo e me mostrasse, a ideia era de que eu fosse apenas uma supervisora do encontro. Era como se eles estivessem em uma televisão, eu podia ouvir, ver, mas não podia tocar e muito menos ser vista. Fiquei com medo, pois meu esconderijo era pequeno e escuro e ouvia barulhos estranhos vindos de fora. Fiz o caminho de volta e na hora que saí pela última porta, não consegui mais encontrá-la para o caso de querer voltar. Havia sido decisão sem retorno.

No momento em que saí, me dei conta que os barulhos advinham de marretas que estavam trabalhando contra a estrutura do presídio, ou seja, havia uma série de pessoas do lado de fora, querendo quebrar as paredes da nossa casa, para nos proporcionar liberdade. Enquanto isso, estava na hora de servir mais uma refeição.

Estava trabalhando normalmente, quando vi uma série de policiais assustados vindo em nossa direção, alguns estavam machucados. Eles gritavam “eles conseguiram! as barreiras foram quebradas!” e com isso, percebi que algumas das paredes haviam caído e era possível fugir. Por um momento, fiquei em dúvida se fugiria ou esperaria Chapman conseguir minha libertação. Decidi não trocar o certo pelo duvidoso e saí correndo desesperadamente.

Só que a cadeia se encontrava no deserto e para chegar até algum lugar com gente, eram muitos quilômetros de corrida. Não sabia o caminho e por isso segui o comboio. Tive que pular barrancos, correr desesperadamente e torcer para que os policiais não me alcançassem. Encontrei uma outra colega de prisão quando estávamos na frente do primeiro prédio do caminho: um hospital psiquiátrico. A mãe dela estava à espera dela, com a intenção de fazer uma internação surpresa, pois sua filha foi presa após um surto psicótico. Enquanto minha amiga pegava a chave do carro, convenci sua mãe a desistir da ideia do manicômio, pois a menina tinha passado muito tempo presa e liberdade supervisionada pela família e psicólogos parecia com o suficiente para ela. A mãe concordou e além disso, ofereceu-me carona para a cidade.

Chegando na cidade, encontrei a minha família e começamos a pensar em como dissuadir a polícia do meu caso para sempre. Considerando que as eleições se aproximavam, caso eu votasse saberiam que tinha fugido e se não votasse eu teria que pagar multa ou voltar para a cadeia. A situação precisava ser resolvida antes disso e a eleição estava muito próxima. Fomos pensar em um plano no refeitório de um shopping, pois estava morrendo de saudades de comidas “normais”. Quando finalmente escolhemos nosso prato e começamos a degustá-lo, percebi que o ambiente estava repleto de policiais e fiquei com medo de ser reconhecida, pois reconheci alguns deles. Olhei para a família e falei que precisaríamos sair dali correndo e ao mesmo tempo sem deixar rastros. O medo era que minha roupa de cadeia me denunciasse.

Assim que saímos do refeitório, fomos parar em uma sala pequena e branca, sem nenhum móvel e com apenas uma mulher vestida em uma blusa amarela e uma calça azul. Contei a ela a minha situação e pedi que trocasse de roupas comigo, ela disse que isso era impossível, mas que em breve um clone dela chegaria e ficaria com orgulho em trocar as roupas comigo. Dito e feito, dois minutos depois entra pelo meio da parede (que aparentemente era uma porta invisível) uma réplica perfeita da mulher, que se dispõe a trocar de roupas comigo. Porém, como nem tudo são flores, a roupa era extremamente apertada e desconfortável.

Saímos e fomos encontrar minha prima que é advogada e poderia me ajudar a resolver o meu caso. Estávamos conversando normalmente, quando avisto mais e mais policiais e o medo volta a crescer. Saímos do local em que nos encontrávamos e nos deparamos com a TARDIS. Doctor, que era Matt Smith, pede para que Amy e Rory me ajudem a encontrar a maior quantidade de fugitivos possível para que entrassem na TARDIS e conseguissem fugir.

Encontramos muita gente e o tempo era curto, pois os policiais se aproximavam. Aconteceu algo inédito para a rotina de Doctor e sua TARDIS: ela lotou. Tanto que eu tive que viajar com as pernas para fora, o que, cá entre nós, era muito divertido. O problema é que o excesso de peso fez com que a decolagem fosse difícil e estar com partes do corpo para fora não ajudava. Consegui entrar e fiquei tão espremida quanto em um biarticulado em horário de pico. Até que a TARDIS parou em um local aleatório, Doctor pediu para que saíssemos e desapareceu.

Estávamos diante de uma porta, a qual entramos e nos deparamos com um maravilhoso (e chique) jantar em clube elegante, sabe-se lá onde. Encontramos lugar para todos nós e comemos muito e bem, enquanto alguns recebiam notícias de que algumas pessoas foram recapturadas. Soubemos que as latinas, ao voltarem pra prisão, estavam felizes por terem tido tempo de visitar o México e que Red continuava mal humorada e irritada por não ter sido bem sucedida. Nós estávamos felizes e aparentemente despreocupadas, embora não soubéssemos onde e tão pouco qual era a nossa situação.

Foi então que eu acordei.

Quase tive uma Rory

Resolvi interromper toda a correria da minha vida para compartilhar que sonhei que tinha ganho um poodle. E passei o resto do dia com um mol de tristeza a cada momento que me lembrava do sonho.

Não me deixavam ficar com meu poodle e tive que doá-la antes mesmo de decidir qual seria o nome. Queria que o nome fosse Rory, mas depois achei que precisava de algo mais criativo. É que eu sempre acho que posso fazer melhor do que o que estou fazendo. Fingiremos que o nome dela era Rory.

Preciso contar que era a poodle mais linda que já vi na vida. Ela era bem pequena e fofa e não granhia quando eu apertava e amassava daquele jeito invasivo e doentio que eu adoro fazer. Ela parecia gostar de mim.

Nas poucas horas em que ficou na minha casa, fiz um cercado no meu quarto parecido com o dos Rugrats e deixei ela no quentinho, com comida, água e jornal. Já que o nome era Rory, ela podia gostar de ler! Mentira, era só pra fazer xixi mesmo.

Ela olhava para mim com uma carinha horrível, de quem implorava para não ter que ir embora e meu coração sofria por dentro com a ideia de ter que deixar ela ir. Meu pai tinha sido bem enfático, ou ela ia embora ou eu iria junto com ela. Cogitei optar pela segunda coisa, mas não havia condições para tal.

Liguei para os familiares e amigos que tinham casa, perguntei se ela podia ficar lá pra sempre. Disse que pagaria todas as despesas e iria visitar sempre que possível, só não podia dar um lar pra ela, mas quando eu fosse morar sozinha pegaria. Ninguém aceitou.

Eu acho que esse foi um dos sonhos mais agoniantes da minha vida. Minha família brigando. A coitada da Rory olhando pra mim como se estivesse implorando pela própria vida. Eu sem fazer ideia do que fazer e morrendo de vontade de pegar ela e ir pro mundo, enquanto chorava desesperadamente.

É claro que, no sonho, acabei encontrando uma casa para ela. Ela era linda e glamour puro, lógico que alguém ia querer. O interfone tocou e era a Tetê dizendo que ia levar pros novos donos e que eu podia ir junto pra ficar mais tranquila. Fomos o caminho inteiro xingando o meu pai, enquanto meu coração doía.

Acordei, não tinha Rory.

E percebi que sou incapaz de entender como as pessoas conseguem abandonar animais por aí. No meu sonho quem me deu a poodle sumiu, que nem gente que engravida a mulher e deixa ela cuidando do filho sozinha. Minhas únicas opções eram cuidar dela ou doá-la e toda hora ia alguém no meu quarto perguntar porque eu não largava na esquina. Como é que alguém consegue largar um bicho fofo na esquina? Mas conseguem, né. Tem gente que larga criança na lixeira, veja bem.

Outra coisa engraçada que descobri é que toda a vontade de ter filhos – só pra ver qual a pira de ter uma parada crescendo na sua barriga e depois a coisa sair de você e você cuidar e chamar de filho ao invés de lombriga-que-parece-comigo (sempre achei gravidez uma coisa curiosa), sumiu. Tenho muito mais vontade de ter uma Rory do que uma criança me pentelhando. Achei bem curioso observar isso em mim. Bem curioso mesmo.

É claro que a minha ideia interpretativa do sonho é completamente diferente, mas nada disso interessa. A não ser a frase máxima: nunca abandonem um bichinho. Assim, nunca. Sempre vai ter alguém pra amá-lo.

Consider me a satellite, forever orbiting…

Acho que nunca vou encontrar um personagem que me capte tanto quanto Christopher McCandless. É quase uma obsessão. Já perdi a conta das madrugadas não dormidas às quais se fez necessária mais uma vista ao filme sobre sua história, enquanto o coração morria dentro do peito por pensar que eu deveria saber pelo menos esse livro de cor. E não sei. Não sei quantas noites passei chorando por ele ou pelo que ele desperta em mim ou por tudo que eu sinto, sonho e reflito a cada vez que lembro que um dia o universo foi habitado por um ser humano de tamanha magnetude. É uma saudade imbatível de algo que eu nunca vi ou vivi e nunca verei ou viverei. Uma dor absurda ao olhar ao redor e perceber que, infelizmente, o mundo não é feito desse tipo de loucos maníacos, dispostos a abandonar a sociedade e viver sua própria vida. A história de McCandless pra mim é  impossível de ser descrita ou explicada. E eu decidi que vou passar minha vida inteira procurando alguém com quem eu ache que deva compartilhar a felicidade. Porque eu decidi que ia tentar entender o Chris e eu decidi isso quando eu tinha catorze anos e nunca tinha lido sequer “O chamado da floresta” e não fazia ideia de quem era Thoreau. E acho que estou conseguindo.

Todas as vezes que acabo em algum canto repleto de natureza, pedras e pouco sinal de civilização, não resisto em subir nas pedras, abrir os braços e sentir o infinito que a Sam, lá no livro do Charlie (que eu sempre esqueço o nome) vivia se referindo a. E eu descobri que não tem a menor graça se sentir infinito sozinho. Não porque seja impossível aproveitar uma felicidade instantânea enquanto estamos solitários, mas porque não é tão infinito se não há alguém do seu lado, sentindo a mesma coisa e rindo da mesma coisa com você. E as vezes a pessoa em si não é significante, o importante é ter alguém. E é por isso que a gente abraça o primeiro estranho que está ao nosso lado quando estamos no meio de uma praça e descobrimos que passamos no vestibular, por exemplo, porque a gente precisa compartilhar. Fomos ensinados que é assim que se vive. E por mais que Mc Candless tenha lutado arduamente para tentar romper com a construção cultural que o cercou, ele modificou a frase do Tolstoi e decidiu que a felicidade só seria real quando compartilhada.

Enquanto Tolstoi propõe que a gente só é feliz quando vive pra outrem, Chris propõe que a gente é feliz e ponto. Que a gente consegue atingir um nível de introspecção benéfica e auto conhecimento que se tornam mais imprescindíveis para nossa existência do que a existência de qualquer outra pessoa. Não que a gente deva virar narcisista e passar o dia inteiro se achando o máximo, mas Chris enxerga que há um ponto de “máximo” em todo mundo e que a gente nunca percebe, porque estamos sempre atordoados com mil e uma preocupações, pressões e problemas inventados para suprir nossa ociosidade e é justamente isso que causa nossa sensação terrível de solidão e de falta de afeto e de laços duradouros, porque a gente passa tanto tempo sendo levado a crer que precisa achar um “outrem” para mirar nossa felicidade em que acaba por esquecer de nós mesmos. E o Chris nunca soube quem ele era e ele precisou de uma epopeia tenebrosa pra descobrir isso e mostrar pra mim que eu posso e que eu consigo. Mesmo que meus pais a vida inteira tenham dito que não, que eu jamais conseguiria andar muito ou ir muito longe e que eu tinha que aprender a dirigir logo, pros meus pés não doerem e que shoppings eram muito melhores que parques, porque eu não me sentiria tentada a andar de bicicleta ou pular corda ou fazer qualquer uma das outras coisas que eu “não posso”.

Se um cara aleatório encheu uma mochila com livros, um saco de arroz, uma troca de roupa, um sapato de chuva e uma arma de caça e foi pro meio do nada, absolutamente sozinho e ainda assim sobreviveu por um bom tempo, escreveu um diário incrível e conheceu pessoas tão maravilhosas que fizeram com que o ato de sair de casa, largar os pais sem dar notícia, queimar todo o dinheiro e abandonar o carro valessem a pena, quem é que disse que eu não posso? Por que eu não poderia? Se há limites na vida, é para serem explorados. Se há perigos, é para serem desafiados e se há desafios é para serem enfrentados. Mesmo que a gente perca. Mesmo que a gente nunca encontre alguém para compartilhar a nossa felicidade. Mesmo que a gente tenha que se contentar com nós mesmos e nossa magnetude eternamente invisível perante os nossos olhos. Mesmo que a gente chore no fim da noite se sentindo um fracasso. Porque viver é sobre tentar. Viver é sobre se sentir infinito. Viver é sobre compartilhar. Viver é sobre estar absurdamente cansado e não conseguir dormir por não conseguir parar de pensar e de chorar pelo simples fato de se… viver.

Jamais conseguirei agradecer meu Supertramp à altura e já me conformei com o fato de essa ser a maior frustração da minha vida, junto com minha maior paixão não realizada e a maior decepção por um abraço que jamais poderá ser dado. E eu nunca vou cansar de falar sobre ele, de lembrar dele e de aprender com ele. Mais uma vez, obrigada Chris.

…I knew all the rules, but the rules did not know me… Guaranteed.

Ódio do ócio, ócio do ódio.

Eu descobri com doze anos que odiava as pessoas. Todas elas. Eu não tinha a menor vontade de me misturar, porque todas eram inúteis e só iam servir pra um par de risadas e nada mais que isso. Por mais que eu goste de rir, expandir meu contato social só para obter este sucesso na vida sempre me incomodou. Aí eu comecei a fazer teatro e aprendi que devia tentar ser legal, mesmo que não fosse de verdade. Aprendi que na frente das pessoas eu tinha que colocar uma máscara feliz e divertida e “me jogar”, ser quem elas queriam que eu fosse e ponto final. Aprendi que sempre teria o meu quarto cor-de-rosa (que agora é branco) para abranger as minhas rebeldias sem sentido perante a vida e a não existência de algo que eu possa considerar como vida de fato. Aprendi que meu guarda-roupas estaria sempre bagunçado, mas jamais se compararia com meu chão e que minha estante de livros estaria impecável e catalogada, pois é meu método de tentar organizar a tal vida. Aprendi que eu ia conhecer cerca de meia dúzia de gente que ia me fazer sentir a vontade o suficiente para arrancar a tal máscara e mostrar que ei, eu sou chata pra caramba, ok? E essas pessoas, mesmo com essa ciência, continuariam ali. Porque tem louco pra tudo nessa vida.

Nunca aprendi a sobreviver ao ócio. Aos feriados e às férias. Sempre as passei perto de minha prima, que me aturava durante todas as madrugadas, às quais eu jamais dormia. Porque é muito mais legal ficar acordado e interagir quando todo o mundo está em repouso, quando você não precisa se esforçar, pentear o cabelo ou fazer as olheiras desincharem, simplesmente porque ninguém vai estar vendo. Tudo é mais fácil quando o escuro te protege. A claridade sempre me incomodou. Por isso o blackout do quarto fica fechado o dia inteiro sempre, menos quando eu saio e minha mãe abre pra “entrar um ar”. As noites não dormidas ou dormidas e mal sonhadas ou dormidas e tão bem sonhadas que tornam-se péssimas puramente por serem irreais sempre foram minha parte preferida da existência. E é um absurdo que eu seja obrigada a desperdiçá-la dormindo durante a maior parte da minha vida. É por isso que, amante da madrugada, odiante de pessoas, convivência, intimidade, relacionamentos e claridade, madrugadas de feriados e fins de semana tornaram-se minhas preferidas. Mesmo sem a minha prima. Mesmo sem as conversas sem sentido e sem olhos nos olhos. Porque agora eu canalizo todo o meu ódio em músicas violentas e escrevo coisas absurdas enquanto me imagino socando todas as pessoas que odeio e é incrível como a lista de pessoas e lugares que eu odeio crescem a cada dia. É quase uma função exponencial e pra eu ser capaz de me lembrar o que é uma função exponencial é porque ando muito irritada. É isso. Eu ando irritada. Explosiva. Estressada. Com vontade de pegar uma metralhadora e sair por aí lavando o mundo em sangue. Porque é tudo muito errado. Tudo muito irrelevante. Tudo muito pra nada.

Dezenove anos. Inconstância. Preguiça. Malemolência. Vontade de retornar aos hábitos de cidade de interior e visitar o cemitério só para poder correr e gritar sem parecer maluca. Vontade de pular da janela só pra ver se aprendo a voar. Vontade de fugir. Pra qualquer lugar. Pra fazer qualquer coisa. Algo diferente. Inconstante. Que não me irrite. Porque até chocolate me irrita. Porque até as lágrimas que insistem em aparecer pararam de ser benéficas e se transformaram em odiadoras e malvadas como todo o resto da minha essência. Porque ler me irrita e não ler me irrita mais ainda. Porque eu não consigo ver um filme inteiro sem ter vontade de explodir o idiota que inventou os filmes e não consigo passar dez minutos no computador sem querer explodir o débil mental que inventou essa merda. Porque não consigo respirar de olhos abertos por cinco segundos sem querer explodir o retardado que inventou essa coisa chamada “gente”.

Trilha sonora de Clube da Luta. Textos que eu queria muito poder não ler. Vontade absurda de não ter tendinite só pra poder bater em alguém, qualquer um. Nem que fosse pra sair na rua de pijama e dar um soco e voltar pra dormir tranquila. Busca por uma paz interior que aparentemente está mas que longe. Vontades e anseios que jamais serão realizados. Fuga. Síndrome de Supertramp mais atacada do que nunca. Vontade de achar um babaca qualquer pra me acompanhar em uma viagem de carro para o infinito, só pra eu ter quem xingar enquanto escuto músicas esquisitas e reclamo de cada micro-pedaço de cada micro-coisa que eu encontrar pelo caminho. Porque eu odeio novembro. Porque eu odeio fins de ano. Porque eu odeio fins. E odeio inícios. E odeio tudo. Inclusive você.