Arco-Íris

Com sete anos Tia Peruca me encantou. Ela e aquela peruca amarela, com um terno amarelo, em uma apresentação da escola da Dulce Maria na qual todo mundo estava de preto. Aquela mulher foi a minha maior inspiração da infância, porque ela podia ser quem ela quisesse e fazer o que quisesse, destemida e… linda. Outro dia encontrei “Carinha de Anjo” no Netflix e descobri que nem é tão legal assim e que Tia Peruca não é nem um terço do que era quando eu tinha sete anos. Mas não me decepcionei. Porque foi ela quem me impulsionou a pintar meus cabelos. E foi graças a ela que minha mãe me proibiu de algo alguma vez na vida. Só poderia pintar com dezoito anos, o que me deu onze anos de planejamento. Fiz toda uma ordem cronológica de cores a serem usadas e consegui cumpri-las. Até que em Agosto deste ano entrei em crise, pensei em desistir da minha saga e voltar a ser morena, comum e invisível. Tentei entender que não preciso demonstrar coragem ou qualquer coisa assim, preciso apenas tê-las em mim e, na maioria das vezes, eu nem tenho. Então eu fiquei loira. E meus familiares acharam o máximo. E todo o universo veio me dizer o quão bonita eu estava. E eu me olhava no espelho e não me enxergava. E eu falei um monte de coisas que não deveria e fiz um monte de coisas que não deveria e parei de me importar com a minha aparência, porque era Outubro, coisas fantásticas estavam acontecendo e eu não podia me deixar abater por uma crise capilar. Então eu lembrei dos meus restos de tinta e que já tinha usado todas as cores, menos amarelo e que não estava afim de usar amarelo, porque tinha acabado de estar loira. E eu precisava dar um up em mim e na minha vida. Precisava voltar a rir da minha cara quando me olhasse no espelho, me sentir menos responsável por todas as mazelas do universo… Precisava ser eu. Do jeito que eu sou e não do jeito que querem que eu seja.

Estava esperando o salário do trabalho que eu odeio cair para que eu pudesse ir ao salão, porque minhas raízes precisavam ser retocadas e isso eu nunca tinha feito. Precisava pesquisar melhor como fazer essa coisa colorida, sem que uma cor passasse pra outra e tudo desse plenamente certo. Precisava de planejamento. De tempo. De protelação. De descobertas interiores. De coragem. De falta de fuga. De enfrentamento. Precisava inventar o meu eu novamente. Admitir uma série de coisas que não me sentia apta, livrar-me de coisas e pessoas que já deviam ter ficado para trás há muitos anos. Precisava de mim. De dormir tranquila, ter bons sonhos, não ter vergonha, dançar e cantar e parar de sofrer pelo desnecessário. E algo no espaço tempo em que fiquei nula, branca, descolorida (literalmente) fez com que eu encontrasse todas essas coisas, ou a maior parte delas. Preparada senti-me, resolvi juntar todas as cores em uma paleta de pintura em tela que nós, família de artesãos temos, forrei partes do banheiro com as minhas já manchadas toalhas, me encarei e decidi começar.

E foi divertido. Eu só ria. A cada passo que a gente fazia uma foto engraçada era tirada e minha mãe ali, ajudando nas partes que eu não enxergava enquanto dizia que se ficasse feio não era culpa dela e que ela não ia pagar a cabeleireira para corrigir os erros. Meu pai, com seus olhares reprovativos e suas reclamações quanto ao cheiro. Meu irmão, abrindo a porta para rir da minha cara, enquanto encontrava partes que ainda estavam em branco e pegava o pincel para completá-las. “Eu vou assim para a sua formatura”, “Não tem problema”. Enquanto quase todos os outros familiares, que ovacionavam a falta de cor e a mesmice devem estar me achando a pessoa mais maluca com os mesmos genes que eles. E talvez eu seja. Ou talvez eles é que sejam chatos demais, preocupados demais. É só cabelo. E é meu. Sinto que estou perto de fechar este ciclo da minha vida, por motivos internos, externos e superiores. E isso me deixa feliz. Completa. Risonha. Contente. Mais eu. Queria que todo mundo encontrasse seu equivalente a pintar os cabelos. O mundo seria mais legal, mesmo que não fosse colorido.

irisarco

1 – Descolorindo as raízes (OX vol30 + Pó descolorante azul)

2 – Resultado da descoloração, pós lavagem + secagem

3 – Depois de separar mil e uma mechas e pintá-las alternando entre nove cores distintas (detalhe pra boca suja)

4 – A cara de felicidade do pós lavagem

Angústia

Eu entendo as razões para a existência do feminismo. Entendo que as mulheres são tratadas como inferiores em quesitos que realmente não são e que por causa de tamanha desvalorização elas acabam objetificadas e tratadas como nada. Eu entendo que por causa dessa cultura massificada que ensina os homens desde sempre que mulheres possuem ótimos buracos e que peitos são a oitava maravilha do mundo, muitas mulheres sejam estupradas, abusadas, violentadas de maneiras absurdas e mortas todos os dias. E entendo que muitas delas não tenham coragem de contar nada disso, por medo da revolta do agressor. Por medo de sofrer mais pelo simples fato de ser mulher. Eu entendo tudo isso. E acho uma palhaçada. Assim como acho uma palhaçada que todas essas coisas aconteçam com negros, indígenas, mendigos, homossexuais e quaisquer outra subdivisão considerada inferior e mais fraca por algum modo. E é por isso que defendo o direito de todas essas pessoas a irem à luta, por igualdade e por respeito. Coisas que deveriam nos ser garantidas, tendo em vista que fazem parte da “Declaração Universal dos Direitos Humanos”, mais precisamente do artigo II que diz “Toda pessoa tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidas nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento ou qualquer outra condição”.

A questão é que a Declaração de Direitos Humanos é só uma proposta de acordo de paz, como muitos outros, que servem como aparatos para algumas coisas, mas não como bases reais de fundamentos para atitudes humanas. A maioria das pessoas nunca leu essa Declaração e, convenhamos, ninguém nunca foi perguntado se concordava com ela ou não. A gente simplesmente nasceu. Aqui, num universo repleto de regras e convenções às quais tivemos que aprender a lidar, até que isso nos sufocasse o suficiente para que, os que não aprenderam a lidar, se revoltassem e começassem suas revoluções em prol das minorias.

Descobri-me uma pessoa revoltada para com o feminismo. Eu sempre achei que gostava dele, porque eu concordo com vários de seus preceitos e porque adoro o fato de eu poder ter voz e poder tomar decisões sobre a minha vida, coisas que jamais teriam acontecido sem ele. Só que uma das linhas do feminismo é a da “teoria queer”, que pretende uma igualdade social total entre os gêneros e isso me incomoda de um tanto que nem consigo expressar. Não a teoria em si, se ela se tornasse realidade ok, eu até conseguiria me acostumar, eu acho, a questão é que vejo essa e algumas outras linhas do feminismo tão utópicas quanto o lindo comunismo marxista. E isso me irrita. Porque é impossível que a classe oprimida se reconheça como oprimida e se una em prol de uma revolta de paradigmas. A gente nunca vai conseguir uma revolta comunista, porque ao mesmo tempo que detestamos a desigualdade social e todo o mal que ela trás para a humanidade, adoramos o fato de podermos comprar o celular que a gente quer e todos os outros privilégios de “classe média” e, ok,  a ideia não é empobrecer as pessoas, é tornar todo mundo igual em um patamar econômico mediano, suficiente para todos serem felizes com seu dinheirinho e tal, mas eu não consigo ver uma aplicação prática disso. Não consigo imaginar um mundo sem desigualdade e se eu conseguisse, não sei se ia querer viver nele. Pode parecer ridículo e talvez seja, mas é a verdade. O mesmo acontece com o feminismo. A intenção não é tornar o mundo uma enorme supremacia feminina, é apenas promover a igualdade entre os sexos/gêneros, visando o respeito. Tecnicamente é uma coisa bem simples, o problema é que até as pessoas que lutam por isso foram criadas sob preceitos machistas e até elas vão reproduzir o machismo em algum momento, não é como se fôssemos capaz de extirpar uma cultura da gente, só porque de repente a vemos como errada.  Por mais feministas que sejam, as mulheres vão continuar em busca de um parceirx para a vida. Vão continuar sabendo menos sobre fios elétricos e mais sobre pregar botões e para mudar isso teriam que mudar toda a mentalidade de uma geração que está sendo formada, mas como mudar essa mentalidade, se os próprios formadores de opinião não sabem direito o que expressar?

Vivo em um mundo muito ativo politicamente, vivo rodeada de militantes das mais diversas coisas e, ao mesmo tempo, vivo em uma família ultra-conservadora que odeia tudo isso. Para ser diferente da minha família, forcei-me a acreditar cegamente em todos os padrões militantes sem nem pensar sobre eles, porque eram diferentes dos da minha família, então deviam ser bons. Só que eu me sinto tão oprimida pelas pessoas que pregam o libertarismo, o feminismo e a igualdade, quanto pelos que pregam a opressão, o conservadorismo e a supremacia. Consigo verificar pontos negativos e positivos das duas posições e me é impossível decidir de qual lado eu quero ficar. Sou uma completa indecisa e em cima do muro, em todos os quesitos, porque eu nunca vou conseguir discordar completamente de alguém e, ao mesmo tempo que isso me irrita, eu acho fantástico. Porque eu realmente me acharia uma babaca se estivesse comendo kinder bueno enquanto saía gritando por uma igualdade econômica ou se tivesse indo gritar pela liberdade feminina após ter pedido permissão para o meu pai para isso.

Meu pai nunca se importou com o que eu faço ou deixo de fazer, então eu simplesmente faço. Mas eu sei que isso decepciona tanto a ele quanto à minha mãe. Saber que eu tento pensar e que não quis ser um robô programado para seguir preceitos da moral cristã os assusta, tendo em vista que foi para isso que eles me criaram e eu acho divertido esse embate familiar que tenho que lidar todos os dias, acho que é um ponto forte do feminismo existente em mim. Isso e o fato de eu ser uma maluca por quebrar convenções sociais que impõem que eu tenha um cabelo comportado, use roupas bonitinhas, coma salada e tenha planos para casar. Mas acho que é só isso. Eu prezo muito pela liberdade perante o meu próprio corpo e pelo direito de poder estudar e trabalhar e receber a mesma remuneração que um homem no mesmo cargo. Eu detesto as cantadas dos pedreiros que sou obrigada a ouvir todos os dias e me enojo ao ver as crianças brincando de ser mães, porque elas poderiam estar brincando de uma série de outras coisas, mas não pelo fato de “estarem treinando para ser mães”. Acho legal a noção de que uma mulher não PRECISA ser mãe, mas ao mesmo tempo, acho legal quem respeita aquelas que querem. Aquelas que acreditam no casamento, numa vida comportada e conservadora.

Se Doctor Who aparecesse na minha vida hoje e me perguntasse em qual época e lugar eu gostaria de ser largada, pediria para estar na Inglaterra do século XVIII, para ter a chance de viver um dos romances da Jane Austen. Porque eles são lindos, eles são românticos, mas são a representação perfeita de como uma sociedade machista funciona e de como uma mulher acaba por se render a ela quando encontra o amor, porque só o amor salva. Eu nem sei se ainda acredito no amor, mas queria ter a chance de viver naquela época, porque lá eu acreditaria, lá eu não precisaria pensar, lá eu não teria que viver essa eterna angústia de pessoa insatisfeita com a própria insatisfação. Lá eu poderia apenas reproduzir o que minha mãe me ensinaria, poderia bordar em paz (como eu tenho saudades de ter tempo para bordar!) e poderia criar um monte de pirralhos, do jeito que eu sempre quis.

No mundo atual eu me vejo cada vez mais obrigada a aperfeiçoar o meu intelecto, a conviver com pessoas que acreditam em coisas que acho duvidosas, a olhar para as crianças às quais dou aula com pena, porque sei que um dia elas vão ter que encarar o mundo e vão se decepcionar. Mas não consigo deixar de ter um pingo de esperança e fico com vontade de mudar a vida deles de algum modo, de fazer eles pensarem, talvez se todo mundo tiver senso crítico as utopias se tornem reais. Talvez o que falte seja a gente acreditar. O Chapeleiro Maluco de Once Upon a Time disse que o problema dos humanos é que eles querem sempre uma solução mágica, mas não acreditam nela. Eu realmente não acredito. As vezes eu acho que não acredito em nada. Se não consigo acreditar nem em mim, como serei capaz de acreditar em qualquer uma dessas milhares de teorias fenomenais com as quais vivo entrando em contato? Como serei capaz de achar que um dia seremos iguais, mas ainda assim haverá um jeito do romantismo existir? A visão que eu tenho é a de que o romantismo é tão antiquado e dominativo, que em uma sociedade igualitária simplesmente desapareceria e a gente ia se relacionar com as pessoas só para suprir a ânsia de não sermos sozinhos. E eu já cansei disso, de tentar tampar o Sol com uma peneira e continuar queimada pelos raios UV que passam por cada buraquinho. Eu já cansei de me ver obrigada a sorrir e concordar com as coisas só para não parecer uma conservadora-reprodutora-de-senso-comum mesmo estudando antropologia. Porque tem uma assim no meu curso e ela é deplorável e eu não quero ser ela e eu não acho que eu seja. Mas também não sou aquela que vai sair por aí gritando que quer que o mundo seja perfeito, porque eu odeio coisas perfeitas, porque eu preciso dos meus problemas imaginários e dos motivos para passar o dia inteiro angustiada e sofrendo e comendo mil e um doces e ficando com peso na consciência porque vou sair do padrão de beleza implantado na minha mente!

Eu jamais lutaria contra o padrão de beleza, inclusive, porque eu adoro ele. Por mais opressivo e exclusivo que seja, eu gosto da ideia de que as pessoas tem que se depilar, ter dentes brancos e não tortos, cabelos ajeitados, unhas bonitas, roupas não grotescas e um peso que condiga com sua estrutura óssea. Acho triste as pessoas que se submetem a mil plásticas porque querem ser a barbie, mas nisso eu enxergo apenas um exagero e não uma razão para acabarem com as barbies, mesmo porque, elas são bonecas simples, que proporcionam que as crianças continuem criativas e continuem a inventar histórias e qual é graça de ser criança se você não pode inventar histórias? Se você não pode achar que um dia vai ser uma princesa, como as da Disney, ou até mesmo como a Mia Thermopolis? Eu odeio a robotização infantil que vem sendo pregada constantemente, se elas não puderem inventar histórias, não vão conseguir desenvolver seu raciocínio a ponto de se tornarem bons pensadores e sem bons pensadores a humanidade acaba. As indagações acabam, a arte acaba, a literatura, música, cinema… tudo vira reprodução do que já foi, repetição do que já foi dito. E é isso que me incomoda. E não o fato de uma mulher pedir para um homem trocar uma lâmpada ou fazer a bateria do carro funcionar, não são coisas que interessam muitas delas. Assim como pregar botões e fazer cachecóis não interessa muitos dos homens. E eu não sei qual é o problema disso. Não sei qual é o problema em cumprirmos alguns papéis diferentes. Não sei qual é o problema em sermos diferentes e ao mesmo tempo tão intensamente dependentes uns dos outros.

As vezes eu acho que todos esses movimentos sociais apenas ampliam o individualismo e o enfraquecimento de laços sociais, enquanto acreditam estar fazendo o exato contrário. E isso me irrita, me incomoda, me deixa enfurecida. Porque eu odeio ser sozinha, porque eu sou uma pessoa absurdamente dependente. Porque um dia minha mãe vai morrer e eu vou precisar de alguém que me dê liberdade o suficiente para eu chorar no colo, dormir abraçada e pedir para pentear meu cabelo nos dias que meu braço resolve não funcionar. E eu não me vejo conseguindo nada disso em um universo em que as pessoas vivem pregando que não precisam umas das outras, exceto no momento da revolução. Porque eu odeio as pessoas, mas eu preciso delas. O tempo inteiro.

Coerção Social

Nunca fui do tipo maníaca por encontrar um namorado e nunca entendi as perguntas do tipo “mas você não tem vontade?”, “já tá na idade, não?” ou os desejos de “e muitos namorados” que minhas primas começaram a fazer nos meus aniversários desde os quinze anos. Nunca me imaginei tendo um namorado, isso porque tenho aquele problema de não conseguir imaginar como chegar ao fim, mas conseguir imaginar o fim. Nas poucas vezes que me vi velha (e por velha entendam trinta e pouco anos, não que isso seja velha, mas nunca consegui me imaginar mais velha que isso – síndrome de Marla Singer de viver esperando que a morte chegue logo e ficar decepcionada porque ela demora) conseguia imaginar minha casa com um lindo ateliê de arte e uma máquina de escrever antiga e paredes repletas de livros – a maioria lidos e eu preparando o lanche para os meus filhos levarem para a escola e fazendo o nó na gravata do pai dos filhos e depois indo para o meu lindo trabalho sofisticado e sem horário pré-estabelecido, que permitiria pausas esporádicas para lanchinhos e sonecas.

Veja que eu digo “pai dos meus filhos”, isso porque como nunca me imaginei casando não me sinto apta a chamar esse indivíduo de “marido”. Assim como acho que vou demorar anos pra conseguir chamar alguém de “namorado”, mesmo que o resto do mundo chame. Mesmo que eu ache que talvez a gente seja. Porque na minha cabeça, estar em um relacionamento significa que você finalmente admitiu sua vulnerabilidade e resolveu compartilhar de verdade a existência para com outra pessoa. A partir disso você passa o tempo inteiro conversando com ela, e continua a sempre ter assunto simplesmente porque se sente apta a falar sobre o que quiser.  E você tem certeza de que não importa o que fale estará sendo ouvida, a pessoa estará interessada e no final vai te falar o que você precisa ouvir e vocês vão sorrir e dormir tranquilos. E eu não consigo me imaginar nessa posição.

Alguma coisa no meu cérebro bloqueia o quesito “relacionamentos amorosos” e toda vez que eu acho que estou finalmente gostando de alguém e a minha família finalmente vai tirar a imagem de 19-anos-nunca-beijou-na-boca que têm de mim na cabeça, pronto. Tudo volta. Eu me sinto a pior pessoa do universo por considerar a hipótese de gostar de alguém e empatar a vida da pessoa e, ai Deus, 7 bilhões de pessoas no mundo, não posso condenar o pobre coitado a gostar de mim e exigir exclusividade ainda! Porque, né, quem seria o burro que ia se condenar a ficar ~~comigo~~? Aí eu desisto de todos os meus possíveis pensamentos românticos, sento no meu canto comento meu chocolate e vendo meus filmes reflexivos, tento entender porque isso acontece, tento pensar que talvez eu mereça ser amada por alguém, talvez todos mereçam, choro um pouquinho e durmo. Acho que a cultura emo de 2007 realmente se enraizou em meu coraçãozinho e decidiu nunca mais me deixar em paz.

Até aí tudo bem, o problema é quando eu resolvo assistir as comédias românticas. Porque eu odeio as comédias românticas, mas as amo tão intensamente! Elas são insuportáveis porque mostram gente comum, triste e solitária que encontra o amor da vida na fila do supermercado e passa por altas aventuras enquanto tenta consolidar que de fato eles são o amor da vida um do outro e no final todos ficam bem e felizes e ao mesmo tempo que eu rio da história e choro com a desilusão por nada daquilo ser real, uma sementinha no fundo do meu cérebro me faz pensar que talvez essas coisas aconteçam com alguém. Talvez eu só precise me abrir mais. Talvez o problema esteja comigo (no fim sempre concluo que o problema está comigo, claro.)

Só que eu sempre soube lidar bem com essas coisas. Eu sempre consegui dormir depois dos meus choros-chocolates-filmes. Sempre consegui sorrir no outro dia e ignorar minhas tias dizendo que eu preciso parar de ter nojo de beijo na boca, porque é bom. Só porque  com 14 anos eu falei que achava super nojento e nunca fiz isso na frente delas e elas sub-entenderam que eu nunca fiz isso em lugar nenhum. E estava tudo bem, tudo tranquilo. Eu conseguia ouvir minhas amigas falando sobre os possíveis amores e sobre os reais amores, sobre o que fizeram e o que gostariam de fazer, sobre qualquer coisa relacionada a garotos e manter-me longe o suficiente para jamais me envolver com as conversas. Um dos principais motivos para eu me sentir um alien durante a escola era justamente o fato de que as meninas só falavam sobre garotos e, poxa, tinha tanta coisa a mais no mundo para ser dita e elas se limitavam a tão pouco! Nada fazia sentido.

Eu nunca vi sentido em encontrar um namorado aos quinze anos e estar noiva aos 21. Nunca vi sentido nessa história de amor da vida, alma gêmea ou qualquer coisa assim. Pra mim sempre foi clara a ideia de pessoas que se encontram, se gostam, tornam-se dependentes da existência uma da outra, sentem-se aptas a compartilhá-las e o fazem. Simples assim.

E daí minhas amigas começaram a ter namorados. E daí as pessoas que estudavam comigo no ensino fundamental casaram e tiveram filhos. E aí algumas outras amigas ficaram noivas e outras não namoram porque preferem ir para as baladas e “passar o rodo” e várias outras fazem como eu e passam as noites fugindo da realidade enquanto encaram realidades paralelas em filmes, livros e séries e imaginam o quão bom seriam se aquela fosse a realidade delas. E eu não consigo entender porque essas coisas acontecem ou como acontecem, mas chega um ponto na vida em que tudo ao seu redor coage para a ideia de que você precisa de um relacionamento romântico monogâmico para ser feliz. Que você precisa encontrar um homem-hetero-solteiro que more na sua cidade e pareça minimamente confiável e interessante. Que sua vida nunca vai ser completa ou fazer sentido se você não tiver isso. Que você vai ser excluída socialmente, porque todas as amigas-que-namoram vão sair com os namorados e você vai ficar sozinha em casa. E que um dia de fato todas as suas amigas vão ter namorados e você não, logo, você será uma velha cheia de gatos e livros não lidos numa estante gigante.

E essas ideias são aterrorizantes. Porque ninguém quer ser sozinho. Ninguém que imaginar um futuro distante em que está sozinho. E eu sei que tem toda essa gente que acredita que mulher não nasceu para casar e ser mãe e ok, ela não NASCEU pra isso, mas, assim como os homens, ela vai sentir vontade de fazer isso em algum momento. E não importa se é porque a cultura em que ela está inserida a faz sentir mais segura quando acompanhada, não importa se é porque colocaram na cabeça dela que a solidão é a pior coisa do mundo, não importa se é porque ela acredita piamente que só vai ser feliz com um homem do lado, nada disso importa. O fato é que vai chegar um ponto na vida em que a mulher vai se sentir obrigada a encontrar um homem para compartilhar as coisas. Vai chegar um momento que tudo ao redor dela vai levar para isso. Vai chegar um momento em que ela vai se desesperar e ansiar amargamente que essas coisas aconteçam com ela.

E é exatamente nesse momento que os filmes de comédia romântica nos diriam que a gente não vai encontrar, porque estaremos tão desesperadas procurando nosso padrão que acabaremos sozinhas. E é nesse momento que vamos começar a ler Marian Keys, achar Nicholas Sparks fofo e morrer chorando com músicas da Taylor Swift. E que vamos fazer playlists para dor de cotovelo (porque todas as pessoas minimamente interessantes não cumprem o padrão básico hetero-solteiro-quemorenamesmacidade) e que vamos baixar aplicativos que transformam pessoas em catálogos ou mandar spotteds pra qualquer um que demonstre-se disponível de algum modo. É nesse momento que dormimos esperando o cara-lindo-dos-filmes apareça e ele nunca aparece. E os eventos familiares se aproximam, e seus primos sempre estão acompanhados, e os que não estão são chamados de “espertos” e “pegadores”, enquanto as primas acompanhadas são super aclamadas, as não acompanhadas, mas com mais de 25 anos são rechaçadas e dizem que “vão ficar para a titia” e as um pouco mais novas, mas que nunca demonstraram algum tipo de habilidade no quesito romântico viram piada.

E mesmo que nada nesse universo faça sentido, você torce para encontrar logo um namorado, colocar isso no facebook (pra evitar ter que falar pra todo mundo, porque isso me faria admitir que tenho um namorado e seria estranho e símbolo de fraqueza imenso) e conseguir dormir em paz à noite. Depois de ver um filme compartilhando pipoca, cobertor e a cama.

E esse é só mais um dos motivos pela qual a sociedade me irrita.

Casamento

Não tenho uma visão muito acertada sobre o matrimônio, acho impossível que duas pessoas se amem pelo resto de suas vidas, mas os casais apaixonados insistem em me dizer que só acho isso porque nunca achei o meu amor. Não sei. Mas como toda garota já perdi um bom tempo da minha infância planejando o meu “grande dia”. Só que quando eu parei de acreditar na sua concretude, passei a desconsiderá-lo e nunca mais passou pela minha cabeça a hipótese de me casar algum dia. No máximo eu moraria com a pessoa, mas sem uma cerimônia com uma festa gigante, porque seria desperdício de dinheiro, bobeira e ai, eu detesto ir em casamentos, não quero fazer as pessoas passarem por isso.

Recentemente, porém, encontro-me numa fase completamente romântica e cheia de firulas, na qual me pego lendo Lord Byron no meio da madrugada e derramando lágrimas por qualquer sinal de amor, achando tudo lindo e morrendo de inveja do universo por acontecer com todo mundo que me cerca, menos comigo. Como se o cupido simplesmente ignorasse a minha existência. Em busca de uma conformidade para tal fato, resolvi planejar o casamento dos meus sonhos e gostaria de convidá-los a fazer o mesmo!

Pedido:

Eu sou uma criança nerd que cresceu lendo livros e vendo filmes repletos de amores românticos e pedidos de casamento fofos. O pedido tem que envolver alguma referência que seja a minha cara e o sentimento entre eu e o pretendente tem que ser semelhante a Beatrice e Lemony ou Snape e Lily Potter. Tem que ser uma coisa que eu consiga imaginar uma perpetuação e uma concretude, que me faça bem e deixe-me ser eu mesma, sem precisar fingir nada. Se tem uma coisa que eu sempre repito para o mundo é: se fez uma declaração com boas referências, eu caso.

Aliança: 

Aliança baseada em Khal Drogo e Daenarys Targaryan – Game of Thrones

Detesto a ideia de ter que usar um anel pelo resto da minha vida e sempre disse que se eu fosse casar e soubesse que seria pra sempre ia tatuar alguma coisa significativa para mim e o respectivo, como sinal do nosso amor eterno. Só que essa semana me deparei com a aliança dos meus sonhos e resolvi mudar de opinião: se eu casar, além da nossa tatuagem poética, por favor me dê essa aliança, é claro que só vale se você entender a referência. E se você entender a referência, me der essa aliança e tiver feito um pedido bonito é claro que eu vou aceitar.

Vestido:

Eu não sei como vai estar meu cabelo e sei que não vou conseguir usar salto, então estarei com tênis ou no máximo uma sapatilha. Sei que vou exigir uma maquiagem simplista e que vou torcer pra ter pouca gente na plateia, porque é um casamento e não um espetáculo. E sei que quero um vestido como o dessa foto. Eu preciso do vestido dessa foto. Porque ele é absurdamente maravilhoso e absurdamente a minha cara e porque se meu casamento for colorido, as chances de ele funcionar são muito maiores, porque nada de ruim acontece quando há muitas cores envolvidas e essa é uma das minhas maiores filosofias de vida.

Local:

Las Vegas

Despedida de solteiro em um cassino, casamento que já vem acoplado com Lua de Mel, ao invés de gastar com festa, gasta-se com passagens. Não é necessário convidar todos aqueles parentes que você nem conhece direito e nem os amigos dos amigos dos amigos do seu irmão, dá pra se divorciar e, por favor, quem celebra é o Elvis.

Votos: 

O processo ocorreu muito bem até agora e está tudo lindo e dentro dos conformes. Mas é lógico que pode melhorar e a hora de melhorar é a hora dos votos. A opção número um é cada um escrever os próprios votos baseando-se no outro, porque isso parece lindo. Se por um acaso isso não puder se concretizar, faremos os votos de Game of Thrones.

“Pai, mãe, velha, ferreiro, donzela, guerreiro e estranho. Eu sou dele e ele é meu, deste dia até o fim dos nossos dias.”

Dança Final: 

Eu não sei dançar ritimadamente e torço para que meu concumbino também não saiba, caso contrário a dança de casamento será vergonhosa. É claro que de acordo com o contexto, assim que o Elvis disser que podemos nos beijar vamos embarcar em uma playlist empolgante que misture vários ritmos musicais e nos faça morrer de rir, para depois irmos pro hotel descansar e começar o casamento de fato! A única premissa é que a gente possa dançar que nem o Carlton. Porque dançar que nem o Carlton com um vestido de noiva é um paraíso.

E ai de quem disser que esse não seria um casamento genial!

Twist and Shout

Foi assim que “o dia que tinha tudo para dar errado” começou. Um convite interessante e em seguida uma falha da pessoa que vos fala, que sempre acaba dormindo nas horas erradas e decepcionando pessoas. Emi podia ter respondido que já estava em casa e que nós sairíamos outro dia, mas como boa estudante universitária de férias que ela é, respondeu que estava passeando no shopping, ao passo em que eu levantei da minha cama, troquei de roupas e encaminhei-me ao mesmo.

Passamos por uma tarde divertidíssima de confábulos à respeito da nossa vida e existência e fomos assistir ao tal filme, que nenhuma das duas sabia do que se tratava, só sabia que era legal. E realmente era. A sala estava quase vazia, do jeito que a gente gosta e é acostumada a aproveitar em todas as férias há sei lá quantos anos. E a gente se sentou e eu comecei a me lembrar de cada uma das vezes que fomos ao cinema, porque todas foram épicas e com situações divertidas, como aquela em que entramos na sala errada propositalmente porque precisávamos ver o filme do DiCaprio e dane-se que não tínhamos idade. Então Jeise Eisenberg aparece bonito em nossa frente e um filme eletrizante e surpreendente se desenrola sob nossos olhares. E a pipoca acaba nos primeiros dez minutos. E nós morremos de rir. E fomos embora.

Então, na rampa de saída do cinema ouvimos uma música tocar e eu lembro que tinha uma exposição dos Beatles no saguão e “ei, tá tocando Beatles”, daí a gente sai correndo como duas crianças que acabaram de ver o tio do algodão doce, nos enfiamos no meio da plateia e começamos a cantar que “I need somebody to help” e que amamos mil pessoas e todas aquelas coisas beatlenescas que eu, pessoa que teve como bio do twitter por dois anos que sonha com um show dos beatles, sempre gosta de presenciar. Era um bom cover. Era uma situação bastante inusitada.

Eis que vejo ao nosso lado uma senhora de uns setenta anos, cantando todas as músicas e dançando loucamente. Sozinha ali, no meio de toda aquela multidão, aproveitando como se fosse um show da sua banda de adolescência preferida de verdade, na frente dela. E talvez para aquela senhora tenha sido justamente isso, enquanto para o casal ao meu outro lado era uma noite romântica e para as crianças da frente era uma situação dançante. Para Emi era uma coisa tranquila, para mim uma explosão de vida, risadas, reflexões e constrangimento, afinal lá estava eu, no meio do shopping, cantando loucamente e dançando como se ninguém tivesse vendo. E as pessoas estavam.

Férias, te amo.