A Cintura da Muleca

Todos os murais com fotos infantis na minha casa constam pelo menos uma foto comigo vestida de bailarina. O negócio é que eu só lembro de ter feito aula de balé quando tinha oito anos e as fotos são de antes dos cinco. Nem minha mãe sabe se eu fazia aula, mas eu tinha as roupas. Eu sempre gostei de dançar, mesmo sendo a pessoa ridícula que sequer sabe bater palmas de acordo com o ritmo imposto.

Quando eu tinha cinco pra seis anos mudei de cidade pela primeira vez na vida. Traumas à parte, minha escola nova era muito legal. E lá tinha aula de dança. É claro que a diretora me convenceu a participar e que eu convenci minha mãe a me deixar tentar. Nessa época eu tomava corticóide, que é um remédio branco horrível que me fazia ficar gordinha e eu me odiava por causa disso. E lá estava uma Mayra criança no início de todos os seus traumas de vivência tentando acompanhar o ritmo de todas aquelas meninas que, ao contrário dela, sabiam exatamente o que estavam fazendo.

A apresentação final eu nem lembro onde ou como foi, mas lembro da música e de um pedaço da coreografia até hoje. A roupa que deveríamos usar era muito curta, um shorts que só cobria a bunda e um top micro. Eu vestia ela em casa e ficava imitando a Sheila Melo, minha musa da dança infantil. Axé sempre moveu meu coração dançante.

Eis que eu vesti aquela roupa e com seis anos na cara fui lá, perto de todas as meninas que tinham aprendido a coreografia, fiz birra pra mamãe e papai irem me ver dançando e grudei na cintura da muleca, super reboladeira. A partir daí minha performance em em “vai ter que rebolar” de Sandy e Junior melhorou muito de qualidade.

Depois disso eu entrei no balé de verdade e pedi pra sair no dia em que me obrigaram a tentar fazer uma abertura total e eu quase chorei de dor nos meus músculos fracos e não alongados. Fiz uma apresentação, tenho fotos e minha mãe amou. Depois disso descobriram que minha gana no show business era outra e eu virei apresentadora de programa infantil, o que é uma história à parte. Nunca deixei de me aventurar nas festas juninas (que eu só dançava se meu par fosse o mais bonitinho da sala) e lembro de mais duas danças no palco, uma eu estava vestida de anjo e na outra era uma dança grega.

Hoje eu fui ver minha prima de oito anos fazendo sua primeira apresentação de jazz. É claro que fiquei nostálgica, que parei pra lembrar da primeira vez que subi num palco (três anos, apresentação da escola em que eu era o tempo – minha roupa era de relógio) e também da última (dezoito anos, a primeira peça infantil da minha vida, vulgo, a coisa mais difícil que já fiz) e fiquei com tanta saudades de toda aquela energia, de ficar brava por ter que tirar tantas fotos e de ouvir meu primo gritar meu nome e depois me encher de abraços e beijos, enquanto eu ganhava chocolates bons e passava o resto do mês me odiando por ter sido péssima! Decidi, pois, que uma das resoluções de 2014 é essa: Mayra vai voltar pro palco. Ela não sabe ao certo com o que, mas provavelmente vai terminar o curso de teatro antes de se aventurar nas danças de novo. Se até a Analu conseguiu, eu também posso.

O Teatro dos Sonhos

Não quero que você vá embora, mas não sei se quero que fique.

Nunca te dei a chave, mas você entrou mesmo assim. De supetão, sem nem precisar ser convidado. Entrou e me fez rir e deu chance para a minha impulsividade, que te adorou desde o primeiro instante.

Hipnotizou-me e magnetizou-me, chegando a ser um imã que me atraia de uma maneira impossível de resistir ou manter distância.

Fez-me gozar de uma alegria imensa em momentos inusitados, mas especialmente prazerosos e me fez ter coragem.

Você entrou e nem foi tão fundo, mas já fez uma bagunça enorme, mesmo sendo extremamente organizado.

Olho para as marcas que moram no meu corpo e gargalho. Mesmo sem querer, seu território está marcado.

Sinto cães farejadores aproximarem-se e sei que te encontrarão, não importa o quão bem se esconda e tenho vontade de gritar e dizer que há um alçapão por aqui em algum lugar, que eu te aceito e não vou deixar que te prendam.

Você mal passou da porta, mas eu já estou com vontade de te entregar a chave, não para obter o controle, mas pelo contrário, para garantir a liberdade.

Tenho vontade de provar que independente do que você tenha feito, sempre haverá um lugar aqui dentro para te abrigar e nem é porque és especial, é porque a casa é grande e vazia demais e eu preciso de um pouco de companhia às vezes.

Claro que o fato de eu gostar de você também influi nisso, tendo em vista que não é qualquer um que garante uma cópia desta chave.

Não é que eu precise ser escravizada ou alienada a um rol de ideologias que me são estranhas. Eu quero dividir as tarefas, oferecer o café e sentar enquanto escuto um pouco de todas essas coisas que nunca ouvi falar sobre. Não é que eu queria a polícia sempre te perseguindo para que assim você sempre corra até mim, mas eu quero que você venha a mim.

Você entrou de supetão, me fez rir e eu acabei te entregando a chave. Ficou um pouco, mas vai embora. Como aquela boa visita de férias que traz alegria, mas precisa seguir com a própria vida.

Eu acordo. Não te encontro mais em nenhum dos cômodos e há apenas uma chave em cima da escrivaninha, com um cartão avisando que um dia talvez você volte e eu sorrio. Como sorri no dia em que você apareceu na minha porta identificando-se.

Sorrio porque não preciso necessariamente da sua presença, só preciso que você saiba que pode se fazer presente sempre que quiser, pois será recebido com sorrisos. Sorrio porque vejo que aquela não é a chave que eu te dei, mas sim outra, de outra cor, de outra casa. Uma casa que eu nunca vou saber de quem é, porque não é este o intuito.

Você veio, entrou e foi embora. E eu aqui, aproveitando as novas visitas, os novos anseios, cheiros e vícios, sorrindo ao olhar para a chave que permanece em minha mesa e tentando lembrar-me de seu dono. E eu aqui, sentada nessa mesa de jantar, tomando minha xícara deste chá sem gosto enquanto termino o novo romance velho do meu autor favorito e sorrio.

Se um dia resolveres voltar, pode entrar de supetão, dessa vez você tem a chave. Pode sentar à mesa e confabular sobre o que vier em sua cabeça que já estou preparada para o maremoto de reflexões que surgirão daí. Pode acariciar meu gato e escolher um lugar para acomodar-se. Pode me abraçar e dizer que nunca mais vai embora, mas, por favor, vá. As visitas só são boas se forem curtas e se algo tiver que ser perpétuo, que seja o movimento, afinal, foi ele que nos uniu.

You met me at a very strange time in my life.

O Que Seremos Nós?

Jogados por aqui, cujo único destino e certeza é a de que um dia partiremos e seremos eternamente esquecidos? Cujas lembranças, esperanças e sonhos não passam de um bando de bobagem esquisita que surge apenas na nossa cabeça e não passa de lá quase nunca?

Seremos nós covardes, salvadores, protetores, famosos, decepções? Seremos algo? O que é ser algo? Será que somos, fomos ou seremos? O que será de  nós? O que somos nós?

Perguntas sem resposta. Sem resposta para nenhuma delas. Apenas perguntas. Letras que se unem em sílabas que se unem em palavras que se unem e formam frases que com um ponto de interrogação transformam-se em perguntas e nos atormentam. A todos nós. O tempo todo. Será que algum dia conseguiremos ser exatamente aquilo que achamos que somos?

Ser.

A eterna dúvida do ser humano. Ser humano. Três letras que poderiam formar outras palavras, Res, Rse, Sre, Esr, Ers, mas só fazem sentido quando unidas na ordem S-E-R. Três letras capazes de nos atormentar e de nos tirar noites inteiras de sono, de nos fazer perder a cabeça, afinal… O que seremos nós? Seremos algo? Seremos alguém? Seremos? Não seremos? Em que momento deixamos de ser o que somos? Fomos algo?

E por que nos importamos tanto com essa simples palavra? Porque queremos tão arduamente simplesmente ser o que achamos que devemos? Porque a gente não consegue simplesmente ser, sem pensar o que somos? Ou será que alguém consegue? Eu não.

Eu não sei quem eu sou. Não sei quem espero ser e muito menos consigo descrever quem eu fui. Não sei absolutamente nada sobre o ato de ser algo. Eu não sei se eu sou ou se eu quero ser algo. Muitas vezes eu simplesmente desisto dos questionamentos e tento implantar em minha própria mente a sensação de que não sou nada e de que não há problema algum nisso. Mas há. Porque eu fui ensinada desde sempre que devo ser alguma coisa.

Que devia querer ser alguma coisa quando crescesse e que eu já devia saber e estar fazendo isso agora, porque já cresci. Que eu devia ser educada e me esforçar ao máximo para ser bonita, sociável, gentil e carregar todos os outros infinitos valores que a nossa cultura nos impõe como sendo corretos. Eu cresci sabendo que precisava ser alguma coisa, mas ninguém me disse o que. Ninguém me disse como descobrir exatamente o que eu quero ser. Ninguém me disse quem eu posso ser ou se eu posso ser ou se devo apenas ser, sem pensar nisso primeiro. Só me disseram que eu deveria, nunca me explicaram as regras.

E, sem as regras, eu não aprendi. Eu não sei ser. Eu não sou. Sou? Seremos nós alguma coisa além de simplesmente nós mesmos? Além de um emaranhado de carne, osso, sentimento, cultura e vontade de ser alguma coisa? Será que um dia seremos algo?

O QUE SEREMOS NÓS?

That is my question.

É esse o efeito que uma boa peça de teatro tem sobre a minha pessoa. “A Varanda do Esquecimento”, última apresentação amanhã, 21h no Teatro Cena Hum.

Traíra

Quando se é criança é comum que seus colegas de classe achem uma palavra que rime com seu nome e te chamem dela. Nunca acharam uma palavra que rimasse com o meu. Nunca até a quinta série. Na quinta série eu enforquei a minha melhor amiga e comecei a falar mal dela pro mundo inteiro – porque ela realmente era uma falsa e eu odeio gente falsa, né. Então descobriram que meu nome rimava com uma palavra e desde então virei “Mayra Traíra”. Lógico que eu mudei de escola depois disso e tentei melhorar os meus nervos. Na sexta série bati em um menino porque ele era bobo e ficava puxando o meu cabelo e ai como eu me irrito com quem mexe no meu cabelo. Bem no estilo Blair Waldorf mesmo. Só namorados, mãe, pai, amigos e cabeleireiros podem encostar no meu cabelo. Isso sem contar que na segunda série eu fiz a sala inteira se reunir pra bater em um menino, porque ele dava flores pra minha amiga e ela gostava era do irmão dele. O sentido da história eu não sei, só lembro de estarmos na rua, ele no chão e a gente chutando o coitado. Então a diretora estava a caminho e todos foram embora, restando apenas eu e ele. Ajudei-o a levantar e disse que se ele contasse pra diretora apanharia mais. E ele nunca contou. E eu acho engraçado lembrar essas coisas porque não parecem ser o tipo de coisa que eu faria, mas, bem, eu fiz.

A Mayra Traíra evoluiu e não bate em alguém há um bom tempo, ela aprendeu que há outras maneiras de magoar as pessoas e virou mestre absoluta nelas. Mayra Traíra magoava as pessoas falando a verdade, sem medo, ou pelo menos o que ela achava que era verdade. A mágoa afastou muitas pessoas dela. Foi assim que Mayra Traíra traiu 90% de seus amigos, falando vedades deles para os outros e mentiras dos outros para eles, criando intrigas, fazendo drama – ah sim! Ela era a rainha do drama! – ficando “de mal” e afastando-se. Sempre com o lema de que é melhor estar só do que mal acompanhada. Um dia ela se apaixonou e até esse amor ela foi capaz de trair! Não com outro, com ela mesma. Porque no fim das contas, já deu pra entender que de normal essa pessoa não tem nada. Mayra traiu diversos movimentos aos quais disse um dia fazer parte. Diversos gostos. Noções e pensamentos.

Até que um dia resolveu-se adentrar em um universo que muito lhe apetecia. Ela gostava dele desde que tinha três anos de idade e tinha presenciado pela primeira vez. Nunca se imaginou no lugar, mas naquela altura do campeonato, resolveu arriscar. E ela amou. Ela brincou. Ela sorriu. Ela viveu e foi capaz de acreditar que nascera para aquilo, que sua vida deveria ser escrita com as linhas daquela história. E ela abandonava tudo para passar mais um tempo ali e esqueceu-se de estudar, desistiu de entender as matérias que não gostava, para ela tudo estava bem porque ela tinha aquele grande amor movendo-a, nada mais era necessário.

Hoje a Mayra Traíra cresceu. Ela ainda tem suas recaídas. Ainda faz alguns dramas, embora com menor intensidade e frequência. Magoa menos pessoas. Confia em menos pessoas. Ama menos pessoas. Acredita em menos pessoas e se esforça por menos pessoas. Hoje ela tenta pensar no hoje, nela, mais nela do que nos outros, por mais que isso a machuque. Hoje ela desistiu de fazer justiça com as próprias mãos e só se sente apta a bater em alguém em uma aula de boxe, e olhe lá. Hoje as armas dela são outras e em diversos casos nem existem. Hoje ela traiu o maior amor da sua vida e jurou para si mesma que seria a última vez. Acordou, não sentia mais nada e resolveu abandoná-lo. Porque ela é assim, sincera com seus sentimentos, quando eles somem, ela não vê razão para continuar ali. Ela é assim, ama alucinadamente em um dia e no outro acorda sem sentir nada. E não é anormal por isso, tendo em vista que muitas das pessoas que conhece afirma que é assim que o amor acaba mesmo. Você acorda e ele sumiu. Puft. Já era. Perdeu-se na infinitude do mundo.

Hoje Mayra não quer trair mais nada, nem ninguém. Tem certeza de que as pessoas que a cercam o fazem por boas razões e que em muitas delas ela pode confiar de olhos vendados. Ela não quer que seu nome rime com mais nada, porque ele é tão único quanto ela. Tão incomparável quanto. Ela sabe que tudo que fez quando era criança foi válido, pois construiu seu caráter e que é sempre bom jogar os nervos para fora, mas que a gente deve tomar cuidado com as pessoas que magoa. Ela aprendeu que não gosta de magoar pessoas, que não quer magoar pessoas. E que seu novo lema de vida é o amor.

Adeus Traíra, você me proporcionou altas aventuras, mas já deu o que tinha que dar.

Absurdamente Extraordinário

É incrível como só o tempo é capaz de nos moldar e preparar para o que está por vir. Há quatro meses eu era um neném chorão que não fazia ideia de como chegaria onde estou hoje. Não posso rasgar seda e dizer que tudo foi maravilhoso porque não foi, porque no período que se decorreu eu tive que me desmontar e remontar tantas vezes que nem sou capaz de tentar contá-las. Eu cresci. É como se algo tivesse saltado aqui dentro, mudado, despertado para uma coisa tão nova, tão maravilhosa e que esteve aqui por tanto tempo, que esteve aqui desde sempre e eu só não tive discernimento para percebê-la. Desde o nosso nascimento construímos nossa jornada, estamos fazendo tudo desde que nascemos, desde sempre.

Não consigo lembrar-me da minha pessoa antes de imaginar ser uma atriz esplêndida que na celebração de recebimento do Oscar diria simplesmente “gostaria de agradecer à minha mãe, minha avó e a todos os meus professores e colegas de aula de teatro”, sabe, daquele tipo que ama fazer cinema, mas tem um infarto ao pensar que pisará em um palco. Não há nada mais esplendoroso que isso. Nem a celebração do Oscar. Porém eu tremia ao ouvir dizer que teria que fazer uma peça infantil. Minhas pernas bambeavam com a simples ideia. Hoje posso dizer que não passava de uma tremenda besteira mascarada por um receio de decepcionar as pessoas que mais venero desde que me entendo por gente. É que eu amo crianças, eu sonho em ter doze filhos, meus priminhos me idolatram e eu brinco de cabana, Barbie, esconde-esconde e o que mais quiserem brincar até hoje sem a menor vergonha disso. Eu sou fã nata do Peter Pan queria ir para Neverland e ser criança para sempre. Eu abomino a ideia de estar crescendo, de ter que encarar meu adulto interior, gosto da criança, não quero que ela morra, só que todos dizem que ela já morreu, que eu sou mais adulta do que pareço, mais madura que muitos na minha idade e isso sempre me magoou muito porque eu não quero ser adulta, nem madura, nem nada, eu quero ter sempre a liberdade de fazer o que quiser e dar uma desculpa esfarrapada para a possível bronca recebida depois. Não que eu queira ser irresponsável, irresponsabilidade e pensamento de criança são coisas completamente diferentes. Para piorar a situação justamente no semestre mais temido pela minha pessoa, pego a professora mais mistificada do colégio. Não que ela seja um monstro, pelo contrário, ela é doce, gentil, sorridente e amorosa a questão é que ela fala o que a gente precisa ouvir, como o oráculo de Matrix. Coisas que a gente precisa ouvir, mas não sabia, que realmente nos transformam e que batem tão fundo em nosso ser que são capazes de nos desmontar, nos fazer chorar por noites a fio repensando todo o fato de nossa existência. A questão, caros leitores, é que isso é bom, é enfadonhamente bom. Redescobrir-se é fantástico. Ouvir o que você sempre precisou, mas ninguém nunca teve coragem de dizer é mais fantástico ainda! Desde a primeira aula anoto mentalmente cada passo da filosofia da dita professora, faço tudo que ela pede e me esforço com o fundo do coração para conseguir fazer algo decente, mas talvez a criança já tenha ido embora ou talvez ela esteja tão abafada pelo meu medo incontrolável que não se sentiu livre o suficiente para bailar por aí. E em meio aos trancos e barrancos, às quedas e reerguidas eu cheguei onde deveria. No dia vinte e três de Junho, o primeiro da nossa jornada.

Nossa peça é diferente de todos os infantis que eu já tinha visto na vida, morro de vontade de assisti-la, mas não posso porque tenho que atuar. Eu não estou satisfeita com meu rendimento e aproveitamento, mas tenho a mais absoluta certeza que estou dando o máximo de mim, o máximo do que eu posso. Quando paro para pensar no “eu” de quatro meses atrás e comparo-o com o de agora mal posso crer na quantidade de mudanças que ocorreram. Sinceramente eu não sei como foi que consegui manter-me em pé. Tantas coisas aconteceram. Tantas. Em todos os âmbitos que vocês possam imaginar eu mudei, eu mudei interna e talvez externamente, me doei, sangrei, sofri. Mas estou aqui. E sei que isso é repetitivo, mas vocês jamais conseguirão imaginar a felicidade que se encontra na minha pessoa neste momento. Felicidade que não está contida no peito de maneira nenhuma está saltitando pelas teclas do Jackie, correndo para contar a vocês ansiosamente que eu sobrevivi, eu consegui, eu não errei, eu gostei do que eu fiz.  É tudo tão grande, tão maior, mas ao mesmo tempo tão certo e tão pequenino. Escrevemos essa peça desde que nascemos. Escrevemos para que pudéssemos colocá-la em prática algum dia e hoje foi esse dia.

A Maravilhosa História dos Seres Extraordinários e sua Jornada ao Magnífico País dos Avessos” estreou nesta manhã, estávamos completamente inseguros porque nosso ensaio no teatro havia sido desastroso e não fazíamos ideia do espaço que deveríamos ocupar, de como a coisa prosseguiria e tomaria forma, de quantas pessoas iriam nos ver, se alguma criança iria nos ver, se conseguiríamos, se o som e a luz funcionariam ao mesmo tempo em que as nossas vozes e todas as outras coisas que você possa imaginar. Chegamos duas horas e meia antes e ainda tivemos a capacidade de atrasar o espetáculo por dez minutos tamanha a nossa ansiedade e felicidade porque hoje era o nosso dia. Eu nunca tinha ficado tão feliz em ver crianças. Nunca tinha ficado tão feliz em ver meus colegas de turma. Nunca tinha me divertido tanto estando em cena. Nunca tinha aproveitado cada segundo e ao mesmo tempo morrido de vontade de abraçar a todos e de sofrimento antecipado porque faltam apenas mais três apresentações. Nunca os sentimentos haviam sido tão misturados, tão intensos e tão juntos. Nunca. Foi intenso, foi lindo, foi mágico! Obviamente não foi perfeito, mas com certeza vivemos cada segundo como se fosse nosso último e fizemos tudo da maneira mais precisa que conseguimos, pensando somente no aqui e agora, porque naquele momento nada mais importava. Como poderia importar? Naqueles minutos todo o nosso trabalho semestral, todo o nosso sofrimento e as nossas alegrias, todos os Gurdjieffs e os exercícios, tudo que ouvimos, vivemos e passamos tudo aquilo era possível de ser visto de fora, era a prova de que realmente aconteceu. Nossa prova final. O último teste. Eu jamais imaginaria dizer isso algum dia, mas ontem enquanto cada um expunha um pouco do que sentiu durante nosso tempo juntos tive a coragem de dizer que eu não gostaria de estar em nenhum outro lugar do mundo que não aquele com aquelas pessoas, naquele momento, fazendo aquela peça. Porque é a melhor peça do mundo. A melhor do que qualquer outra seria. É a NOSSA peça. Construída com NOSSAS personagens, NOSSAS improvisações, coletivamente pensada em cada milésimo de segundo única e exclusivamente para nós pessoas e nós atores. Era nosso momento de fazer tudo valer a pena e olha, eu acho que a gente conseguiu. Não efusivamente, mas iniciamos o processo. Nosso neném nasceu. Agora é só criá-lo com sapiência o suficiente. O palco é onde somos capazes de perceber que todas as indagações ocorridas durante o processo a respeito da nossa capacidade e de termos ou não nascido para fazer aquilo morrem e percebemos que não existiríamos sem aquele singelo momento. Como um certo amigo engenheiro disse uma vez, você pode conhecer todas as formas de energia do mundo, mas a que mora no teatro é inexplicável. Só estando lá para senti-la.

Eu realmente não sei como fui capaz de chegar até aqui, mas agora de onde estou sou capaz de dizer que esse lugar é maravilhoso e que gostaria de viver aqui o máximo possível. Com a mais absoluta certeza de que nada teria sido possível sem as pessoas que me acompanham no palco, a loirinha linda que me acompanha fora dele e a sábia e com o melhor colo do mundo mamãe.

Está valendo apena.