Algodões enrolados

Havia uma senhora na plateia da minha peça hoje. Ela lembra muito a minha avó paterna. A conhecia desde antes de ela vir a ser minha plateia, pois eu fui plateia de uma peça dela antes. Eu estava indo embora depois da apresentação e ela veio para me abraçar e dizer que tinha gostado muito da peça e já era a segunda vez em que assistia. Eu agradeci e desejei boa sorte, em linguagem teatral, para a peça dela, que iniciaria dali a algum tempo.

Desde esse segundo digno a imaginar minha querida avó assistindo à minha apresentação. Falo da avó paterna, não porque eu gosto mais dela, mas sim porque eu realmente não consigo imaginar a outra nesta situação, considerando que ela passou os últimos anos de sua vida sem sequer sair de casa por medo. Enquanto isso, a avó paterna, aquela que tem nome de flor, não perdia a chance de ir a alguma festa, missa, apresentação ou o que quer que fosse ainda mais quando tinha alguém da família envolvido.

Minha madrinha, que é minha prima mais velha, trabalha na televisão Canção Nova desde que a mesma foi criada, vovó era a principal espectadora de seus programas, mais tarde, quando eu entrei nessa vida, ela também não perdia a oportunidade de me ver. Lembro de uma vez em que tinha um grande evento na comunidade em que eu e minha madrinha participaríamos, tinha mais de 10 000 pessoas nos vendo e eu devia ter uns oito anos. Vovó era a primeira da fila, quase explodindo de felicidade ao ver sua neta mais velha ao lado da mais nova ali no palco. O abraço dela de depois dessa apresentação foi um dos melhores de todos os tempos.

Anita é a minha primeira peça fora de apresentações de fim de semestre, ela é uma coprodução, o que significa que eu receberei uma quantia de dinheiro ao final das apresentações, de acordo com o público pagante em cada uma delas, claro. Com essa experiência eu aprendi que realmente não é fácil ser ator, porque são raras as pessoas que pagam para ir ao teatro. Quando há mais de 10 pessoas na plateia é sinal de felicidade extrema e a gente fica pra lá de contente! Eu gosto muito da peça, trata de um assunto maravilhoso que é arte e é legal falar de arte fazendo arte. Gosto também por se tratar do Modernismo e da fabulosa década de vinte, a minha preferida dentre as estudadas. Sou ferrenhamente apaixonada pelo ambiente e pela personagem a qual represento, a precursora da Arte Moderna brasileira e entristeço-me profundamente ao ver que o teatro não enche. Deveria encher. É tudo tão maravilhoso e magnífico! Onde mais você poderia ver uma representação da Semana de Arte Moderna muito parecida com o que foi na realidade? Fico triste com essas coisas, muito.

Mas hoje a tristeza foi diminuída, porque minha avó assistiu à peça. Sei que não presencialmente, mas pude senti-la ali comigo, de uma maneira que não fazia há tempos. Enxerguei-a rindo, jogando batatas e aplaudindo de pé enquanto fazia todas as outras pessoas saberem que “aquela ali de chapéu bege” era a neta dela. Ela estava lá, com aqueles cachos brancos que mais pareciam rolos de algodão, sorrindo para mim e dizendo que não importa o quanto de dinheiro o teatro possa me fazer ganhar, eu fico muito bem ali naquele palco. Hoje eu abracei a minha vó e senti seu perfume em cada uma daquelas Margaridas brancas. Porque ela está presente em cada uma das margaridas brancas que existem no mundo.

Sabe vovó… Hoje você estaria cantando comigo a música de Nossa Senhora de Fátima e recontando a história de como ela apareceu para os três pastorinhos lá em Fátima, neste mesmo dia. Você teria se divertido horrores com a minha peça e ficado impressionada que aquelas coisas aconteceram enquanto você já estava viva. E principalmente, você estaria repleta de presentes, porque antes de ser minha avó você foi mãe, e não de uma ou duas pessoas, mas de doze. Doze seres abençoados que tiveram a maior sorte do mundo porque a senhora certamente foi a melhor mãe da época!

Feliz dia das mães meu amor, jamais me esquecerei de ti.

Para alguém MUITO especial!

Sei que já mandei carta, sms, recado no Facebook e Twitter, passei uma era fazendo o presente dela, enchi-a de abraços e morri de peso na consciência por não poder participar de nenhuma de suas festas e sei que o aniversário foi ontem, mas eu acho chato que aniversários durem apenas 24 horas. São dias tão legais, que deveriam ser eternos! E para tentar aumentar um pouco esse dia e fazer um texto inteiro para aquela que, sem dúvidas, é uma das pessoas mais especiais da minha vida, venho aqui dizer que hoje é a terceira parte do #analuday!

Lembro perfeitamente de quando a vi pela primeira vez. Estava sentada no sofá do Cena Hum, ansiosa porque começaria aula numa nova turma e de repente ela entra, com uma blusa de lã vermelha e a cara mais fofa do mundo e eu, imediatamente penso “não sou a única novinha da turma!”. Entramos na sala e na hora da apresentação descubro que ela é dois anos mais velha que eu. Triste, mas nem tanto, porque isso não impediu que nossos santos se cruzassem e iniciássemos uma doce amizade. Ela escreveu um texto sobre a gente em seu blog, intitulado “Owwn” – nossa palavra – e foi assim que vi a vida dela do jeito que é pela primeira vez na vida. Disse que tinha um blog também, que ninguém o visitava e tal e ela virou minha principal leitora. Comentava em basicamente todos os textos, mesmo nos loucos e deprimidos. Sempre me apoiando, dizendo coisas fofas e fazendo com que eu sentisse coisas fantásticas por ela.

Vivemos um semestre maravilhoso, mas eu tive que parar o teatro e ela teve que mudar de turma. Nem assim nos afastamos. Todos os dias conversávamos no MSN, ela dizendo que a peça dela seria fantástica e que a tia Airen – sua ídola – era a melhor professora do mundo. Morro de vontade de ter aula com a Airen por causa dela. Ela veio aqui em casa pra gravar uma entrevista pra faculdade, fui no Cena incontáveis vezes por causa dela. Para abraçá-la e amassá-la. Então o segundo semestre chegou e eu voltaria ao teatro. Minha família estava receosa por eu estudar de noite e foi só eu dizer que a Ana estaria lá que minha mãe perdeu os receios. No primeiro dia, minha mãe foi junto e disse pra Analu cuidar de mim e me disse para sempre ir pra perto dela quando precisasse de algo. Ela nem teria precisado dizer. Já éramos assim. Unimo-nos tão rapidamente que em seu aniversário do ano passado lembro-me de estar no Cena Hum cantando parabéns pra ela todas as vezes que alguém aparecia, enquanto fazíamos com que todos a parabenizassem. Ela estava vermelha, contorcida no sofá, querendo nos bater enquanto morria de vergonha. E quando a peça dela com a tia Airen estreiou, eu fui assistir três vezes e ainda fiquei triste por não ter ido à quarta. Quando começamos a estudar no mesmo horário e na sala vizinha uma a outra, com duas matérias em comum, tudo foi maravilhoso. E até hoje quando penso em não ir ao Cena, logo desisto da ideia, porque é fantástico poder chegar lá e receber o abraço mais gostoso, recheado de um carinho esplêndido e que sempre me deixa com gosto de “quero mais”. Quando ela criou a Máfia e me colocou lá eu nem sabia como me portar, porque nunca me considerei digna daquilo tudo, sempre achei meu blog inferior a todos os outros, mas ela não. Ela sempre me apoiou o tempo todo. Em tudo que eu ia fazer. E ela me apresentou pessoas maravilhosas, do Brasil inteiro, que fazem com que a minha vida seja ainda mais completa! E quando meu professor de matemática ano passado nos fez pensar em pessoas que continuariam ao nosso lado não importa o que acontecesse, a primeira a vir em minha mente foi, obviamente, a loirinha ávida chamada Ana Luisa. Sempre tive certeza absoluta que poderia contar com ela e assim sendo disponho-me sempre que possível a fazer tudo que consigo para fazê-la ainda mais feliz, porque ela merece toda a felicidade do universo.

No fim das contas, nem consigo descrever exatamente quem essa pessoa é para mim, o quanto ela representa para mim. É tanta coisa que nem o dicionário inteiro consegiuria decifrar! Na peça que fizemos juntas, inclusive, um dos meus papéis foi ela mesma! Rio ao lembrar-me e rever o vídeo daquela peça, mas ao mesmo tempo fico feliz e estonteante, porque eu pude um dia ser uma das pessoas que mais admiro.

Ana Luisa, a doce garota loira de olhos azuis e capaz de ser linda inteiramente por dentro e por fora, a que saltita, pula, amassa, aperta, chama de “bebê”, adora um sorvete, tem um mar de amigos e a certeza de tê-los sempre ao seu lado, que morou em três cidades diferentes, que tem uma família gigante, as priminhas mais fofas do mundo e que canta e atua com uma clareza, naturalidade e profundidade incomparáveis, que lê livros fantásticos e escreve textos maravi-lindos, que é ótima amiga e eficaz em tudo que se dispõe a fazer. Ana Luisa o meu exemplo de vida, a que me chama de filhinha e cuida de mim sempre que pode, a que é ciumenta e dócil ao mesmo tempo e que nunca desiste dos sonhos, a que é a Alice + Dee Dee em forma de gente e que sempre me faz sorrir, mesmo quando não está fazendo nada… É para você todo esse texto, grande parte do meu amor e do mérito por eu ainda ter um blog e por ser quem sou atualmente. Eu te amo muito e você sabe disso, sei que sabe. E agora você tem 20 anos, está quase com carteira de motorista na mão e se forma ano que vem já! A vida vai de vento em popa! Não tinha como não ir, tendo uma protagonista como você… Saiba que eu tenho um orgulho imensurável por ser sua amiga e que estarei aqui para sempre disposta a te ouvir e ajudar no que for necessário. Você merece todos os abraços, auras e auroras do universo.

Obrigada por tudo!

Festival de TEATRO!

(11/17)

Começo isso aqui dizendo que não estou no clima para escrever e que quebrei minha meta de 17 posts em 17 dias porque não postei aqui hoje, MAS tive uma boa razão para isso, que não vale apena ser comentada.

Como tentativa de melhorar meu dia, que foi um fiasco, fui a dois musicais que a minha escola de teatro está encenando no festival da cidade e foi fantástico!

O primeiro, confesso, não gostei muito. Tratava-se de um grupo de adolescentes que viviam e cantavam na garagem. Não gostei dos atores e nem do texto em si, não acrescentou nada para a minha vida e a única coisa que salvou foi eles cantarem Legião Urbana em coro, alto e bom tom.

A segunda peça, porém, foi MARAVILHOSA! Contava a história de Chiquinha Gonzaga, personagem importante para a música brasileira, da qual já havia ouvido E muito falar, mas nunca tinha ouvido DE FATO falar sobre. A peça foi magnífica! Com músicas e atuações fantásticas e um quê de calientura (?) pelo fato de os atores aparecerem semi-nus em vários momentos. Enfim, foi uma hora muito bem gasta de minha vida e que valeu o preço do ingresso, recomendo!

No fim das contas, só queria dizer que o festival de teatro de Curitiba é um dos melhores eventos que temos aqui, em que peças de todos os cantos do Brasil – e alguns outros lugares do mundo – se apresentam a preços acessíveis, com conteúdos para todos os gostos e em todo o tipo de lugar, inclusive na rua. Há também fantásticos espetáculos circenses e alguns Stand Up Comedies também! Por fim, se você reside nessa cidade cinzenta e não aproveita essa chance de adentrar no mundo dos espetáculos, és tolo.

E se a Chiquinha dizia que se tivesse de escolher entre qualquer coisa e a música, sempre ficaria com a música, eu digo que sempre ficaria com o teatro. Sempre.

Boa noite!

A Grande Descoberta!

(9/17)

Descobri o que estava errado comigo! Sei que não é interessante para ninguém essas filosofias e conclusões, mas estou em uma fase da vida em que preciso escrever tudo para ter real consciência das coisas, é como se eu realmente as compreendesse quando escrevo sobre.

O conflito que estava vivendo entre o teatro e eu mesma – ênfase no estava, pois a grandes chances de eu estar melhorando já – residia no fato de eu passar o dia inteiro pensando, entendendo teorias e tentando mensurá-las na realidade, encontrando um modo de talvez torná-las reais. Essa coisa de viver pensando, com a mente cozinhando o dia inteiro, enquanto o rosto transparecia calma, como se nada estivesse acontecendo. Estava cansada justamente de tanto pensar. Eu só pensava. O dia inteiro. Percebi que fazia isso há algum tempo já, desde quando deixei de imaginar. Eu parei de imaginar coisas fantasiosas porque perdia muito tempo imaginando aplicações para as teorias e planejando detalhadamente o que faria no dia seguinte. Sei que isso não era correto, mas nunca havia percebido que estava realmente nesse estado de vida. Agora que eu percebi, resta-me melhorar a situação. E eu sei que vou conseguir. Porque o primeiro passo para transformar algo que não está correto é perceber que não está correto. Os fumantes não param de fumar enquanto continuam pensando que aquilo é legal e não é um vício, quando eles admitem que realmente ficarão doentes e não conseguem mais sobreviver sem a droga, tendem a parar, ou pelo menos sentem-se mal enquanto tragam a nicotina. Esse é o espírito da coisa. Perceber – sentir mal – tentar mudar. Assim que as coisas fluem.

O negócio é que enquanto na faculdade, em casa, na internet e em todos os lugares que eu normalmente frequento, o grande segredo para dar certo é raciocinar, seguir uma lógica, fazer suposições e tentar prová-las, depois de ter pensado MUITO sobre as coisas, no teatro o segredo é justamente não pensar. Meu professor de literatura sempre falava sobre essa coisa de “as melhores artes ocorrem ao acaso” e o fato de tudo que é genial ter surgido do nada e isso é realmente muito lindo de ser ouvido, mas vai tentar passar um minuto sem pensar em nada pra ver o que acontece! É super complicado! Mas é isso que o teatro requer o não comum, o complicado. Aquele estado em que nada faz sentido e por isso é genial, é explorar o novo, deixar as coisas simplesmente acontecerem, mesmo que não façam sentido. Porque nem tudo precisa fazer sentido. Coisas sem sentido são muito mais legais na verdade. E eu super concordo com isso. Adoro coisas geniais e impensadas, que acontecem do nada, mas quando eu é que tenho que ficar sem pensar, gente, é um esforço ENFADONHO. É terrível. Terrível. Pensar em um personagem, com história, corpo, voz, mundo, tudo e ao mesmo tempo fazê-lo sem ficar repassando isso na mente, com naturalidade, fluido, sem nada de você nele… É muito complicado! Muito! Muito! Mas acho que um dia eu consigo!

Hoje eu fiz um queijo. Foi a experiência mais repleta de descobertas da minha vida. Percebi que me escondo atrás de um discurso e se eu tivesse que fazer algo mudo ia ser terrivelmente complicado. Porque por mais que eu admire horrores essa exploração de novos ambientes, sou completamente presa à minha zona de conforto e isso é TERRÍVEL. Percebi tantas coisas erradas em meu comportamento, modo de ser, agir e pensar que nem consigo mensurá-las corretamente no momento, só senti que precisava expressá-las. Gravar em algum lugar que eu percebi que não ajo de uma maneira agradável. Já estou me sentindo mal com a situação e pensando em maneiras de melhorá-la. Espero conseguir. Espero ser menos racional e mais impulsiva, sentimental, instintiva, mesmo sabendo que instinto não existe. Espero conseguir quebrar todas as minhas barreiras, mesmo sabendo que elas foram socialmente construídas e fazem parte de mim e da minha cultura. Não é porque estão intrínsecas a mim que são boas, úteis, agradáveis ou meramente suficientes. Não vou precisar fazer todos os absurdos que a Nina fez para descobrir o lado negro dela, será natural. Puramente simples. Porque as coisas são simples, nossa mente as torna complicadas e se eu conseguir desvencilhar cada micro detalhe ao meu pensamento paranoico, provavelmente evoluirei um bocado!

Desde já gostaria de dizer que vocês devem ir a minha peça do meio do ano, só para analisarem se eu realmente evoluí e me contarem depois, porque garanto que estou me esforçando e quando resolvo me esforçar realmente o faço.

Enfim, tenham uma boa noite e um bom final de semana!

E não vou pedir desculpas pelo texto sem sentido e de última hora, porque coisas não planejadas tendem a ter um gosto melhor.

Viva a espontaneidade!

O Lado Negro

(3/17)

(Daqui)

O mundo é dos ousados, para ser alguém, e não apenas mais um, você precisa fazer a diferença. Tento fazer isso com a minha aparência, mas aparência é o que menos importa e por isso falho. Para fazer a diferença você precisa tentar ser o que ninguém é, ir além, mergulhar a fundo nas coisas e fazer tudo valer apena, sendo único e mágico. Você precisa de sensualidade, jogo de cintura e uma cabeça super aberta. Aceitar propostas e ser capaz de fazer as suas também. Ser criativo e nunca desistir, não importa o quanto queiram que você o faça. É isso que acontece em “Cisne Negro”. Natalie Portman representa uma bailarina esforçadíssima que está há tempos na academia e ninguém dá bola, até que resolvem readaptar o clássico “Lago dos Cisnes” e ela coloca na cabeça que precisa ser a personagem principal. Para isso Nina ensaia dia e noite o máximo que pode e consegue o papel, mas o diretor a considera crua demais para tal, perfeita para fazer o “Cisne Branco”, mas como o intuito da readaptação é fazer com que uma única bailarina seja os dois personagens principais, explorando ao máximo suas qualidades, ela não é suficiente. Ao saber disso Nina batalha ainda mais, treina ainda mais e consegue atingir uma precisão invejável em seus movimentos, mas dança não é apenas movimento e sim sentimento e é isso que lhe falta. Ela precisa transmitir paixão, acreditar em cada um dos passos e não apenas fazê-los roboticamente. Ela precisa ser atriz também, representar um papel. Então ela tenta. Ele manda ela se masturbar, ela o faz, ela sai a noite, faz tudo o que jamais se imaginou fazendo para tentar atingir o nível do papel. Ela não tem mais vida, a vida dela se torna sua apresentação e isso toma conta dela, o personagem toma conta dela e ela acaba tendo o mesmo fim que ele. Esse filme não foi mais um, ele fez a diferença. Foi ousado. Ousadíssimo eu diria. É o meu favorito de 2011 e me transmite uma carga emocional incontável, porque eu tento ser artista e tenho os mesmos defeitos que a Nina. Nunca sou suficiente, nunca consigo me entregar às coisas e muito menos envolver-me por inteiro. É tudo superficial, falta um mergulho submarinesco ali. Quando eu digo que tudo é superficial realmente quero dizer tudo. Desde relacionamentos até minhas produções escritas. Nunca consigo atingir o íntimo das pessoas, acho que nunca consegui atingir sequer o meu íntimo. Mas eu tento. Tento meio que sabendo que fracassarei, mas tento. Só que chega uma hora que eu surto, a ponto de sequer querer pensar na coisa de novo. Estou assim com o teatro nesse momento, é difícil de admitir isso porque eu amo profundamente tudo aquilo, mas é necessário que eu admita para que possa tentar melhorar a situação. O fato é que eu tenho medo de ir lá e fazer tudo errado, de ser a pior da turma e estragar a peça de todos, de reprovar ou de simplesmente perceber que não sou boa o suficiente, que não nasci para aquilo. Se eu não tiver nascido praquilo, não faço a menor ideia de para o que foi então. O fato é que tenho um psicológico e autoestima muito frágeis e me abalo com qualquer coisa e a partir do momento que percebo que meus esforços estão sendo em vão e que continuo não sendo boa o suficiente, não adianta, eu surto. Mas eu não posso surtar. Não quero surtar. Bem, esse texto não está sendo escrito com o intuito de ser um texto reclamão e chato, pelo contrário. É pra ser um texto avassalador, reestruturador e eu vou encaminhá-lo para isso em breve. Começarei dizendo que sou como a Nina no início do filme, pura, inocente, superprotegida, mas que ama todas essas carcterísticas. Abomino a ideia de beber, fumar e de ver um casal se beijando com língua fico com um nojo tremendo. Não gosto de pensar nessas coisas que dão prazer, acho que prazer na maioria das vezes é um sentimento errado e vão que não deve ser o foco de nossas vidas. Por isso sempre abominei as piadas sexuais dos professores de terceiro ano e nunca entendi os meninos que perdem as madrugadas vendo filmes pornôs porque eu simplesmente não vejo razões para isso. Sou poética, do tipo que acredita em amor verdadeiro e não consegue aceitar a ideia de sair beijando desconhecidos só porque sente carência. Não consigo entender pessoas que se relacionam amorosamente sem estarem apaixonadas e muito menos as que agem como se fossem simples animais sexuais. É legal ser assim as vezes, embora muitos digam que é careta. No entanto, as vezes é exagerado e se torna um estado ilusório, porque o mundo não é esse conto de fadas todo e ficar procurando um amor verdadeiro talvez não leve em nada, além de uma casa cheia de gatos aos 60 anos. Explorar-me pode ser bom. Só não é preciso atingir o outro extremo, como a Nina no final do filme. Afinal tem coisas que não precisam ser empíricas para serem reais, basta que a gente use bons princípios lógicos e exploremos bem a nossa imaginação, como os filósofos que raramente testaram suas teorias e mesmo assim elas se provaram corretas em diversas ocasiões. O segredo é tentar, é se doar ao invés de se prender. Outro dia ouvi que sou muito contida e por isso não consigo fazer as coisas passionalmente e isso é uma tremenda verdade. Passo muito tempo pensando nas coisas que eu não posso ou devo sentir, retendo-as dentro de mim e talvez seja essa a razão para toda essa ingenuidade idiota. A questão é que os meus dezoito anos estão chegando e a hora de crescer, no sentido “maturidade” da palavra, chegou e eu não posso deixá-la passar. Há noções que precisam de uma vez entrar em minha cabeça, resoluções que precisam ser examinadas e realizadas. Está na hora de mais ação e menos teorias. Está na hora de me jogar e encontrar o meu lado negro. Porque todos têm que ter um lado negro, nem que seja por um pequeno momento. Tenho tentado vorazmente atingir esse feito e as vezes avanço bastante, mas em seguida minha mente começa a trabalhar para a regressão e eu volto a achar tudo errado e a querer ser certinha de novo. É que ser certinha é legal, mas não proporciona uma visão completa da vida e eu quero ter uma visão completa das coisas. Então eu preciso deixar esses meus conceitos do século XIX pra lá e ingressar de fato no mundo do século XXI, será que eu consigo? Será que eu consigo extinguir tudo que sempre fui, em prol de uma nova experiência de vida? Será que é realmente isso que eu quero ou só passei a achar que era de tanto ouvir falar? Questionamentos retóricos que só servem para me confundir ainda mais. No fim, acordarei intrinsecamente a mesma de hoje, até o fim dos dias. Porque no fundo esse tipo de mudança simplesmente me atormenta. Seria bom se tudo fosse fácil e menos incerto, mas como não é continuo aqui, sendo um alien. Espero que alguém me aceite um dia.

(daqui)