BEDA #15 Diário de Classe

Relatei aqui, assim que comecei a faculdade e me deparei com uma greve imensa, sobre qual era o meu ideal universitário e como ele se diferia da realidade em que me encontrava. Com o passar do tempo e uma bagagem ainda maior de referenciais universitários norte-americanos, a apreciação pelo sistema daqui diminuiu ainda mais. Não tanto pelo método de entrada na universidade (embora não acredite ser o ideal), nem pelo fato de que o ambiente ainda é extremamente elitizado e dificultoso para pessoas de baixa renda e menor qualidade de educação básica. Porque agora não olho mais de fora, como uma estudante que tenta adentrar nesse meio. Olho como alguém de dentro. E, cá entre nós, me sinto mega sortuda por ter conseguido a chance de olhar de dentro. Se tem uma coisa que acredito desde sempre e que não me vejo desacreditando é no ideal iluminista de que a educação é a origem do progresso e por isso a verdadeira salvação do homem. Sou do time que acha que um país com boa educação é o ideal. E sei que o problema no nosso país é generalizado e atinge todos os âmbitos do sistema educacional, sendo por vezes desesperançoso. Mas hoje não fim falar sobre as minhas opiniões, reclamações e sugestões à respeito da educação. Vim falar sobre como é ser aluna.

Uma amiga começou medicina na faculdade particular no começo deste mês. A dinâmica de ser calouro, intensa como todos sabem, soma-se a uma imensa lista de coisas a serem compradas e todas as cosias sendo caríssimas. Como toda boa caloura, comprar tudo, não perder aulas e morrer estudando em casa para memorizar e aprender é a prioridade do momento. Creio ser assim com quase todos. Até que um momento de limbo se instaure, o que, no meu caso, ocorreu no ano passado. Por uma série de questões pessoais e psicológicas, tudo era mais interessante do que ir às aulas ou sentar para ler qualquer um dos textos. Sem lê-los, ir para as aulas era inútil e irrelevante. Tentei convencer minha mãe a trancar um semestre e não consegui e acabei passando em quase todas as matérias, mesmo que hoje não saiba quase nada sobre elas. E eu não acho isso legal. Mesmo porque, neste semestre tudo aquilo que eu não aprendi ou não soube lidar com, acaba aparecendo de algum modo e me falta a base. Eu me prejudiquei e ainda assim passei. O que, para mim, significa falha no sistema avaliacional pré-histórico chamado de “prova”.

Este ano, com a vida em outro contexto e uma consciência maior do quanto a experiência universitária poderia me agregar e do quanto era importante que eu me dedicasse a ela, resolvi abrir mão das minhas frescuras, manias e preconceitos. Comecei a acordar cedo e chegar no horário em todas as aulas, faltar o menos possível e ler o máximo que consegui. Foi rentável, tirei meu primeiro dez em uma disciplina que eu realmente aprendi algumas coisas, treinei bastante a minha escrita e leitura e consegui passar sem esforço, mas dessa vez com a convicção de que algo eu sabia. No semestre atual, decidi pegar a maior quantidade de matérias possível. O objetivo principal é me formar mais rápido, o secundário é melhorar minha disciplina e capacidade de compreensão e aprendizado, o que exige uma melhora na minha concentração. Estudar, portanto, além de exigir muito tempo, esforço e boa vontade, exige também uma melhoria (mesmo que involuntária) do seu eu interior. Ajuda a crescer, amadurecer e ter maior noção das responsabilidades que lhe são apresentadas. Mas o sistema continua a atrapalhar.

Com o tempo aprendi que é muito mais importante estudar em casa do que ir para a aula e que nada adianta acordar cedo e ouvir o professor falar se eu não fizer ideia de sobre o que ele está falando. Por outro lado, aprendi também que alguns professores não estão muito interessados nas nossas leituras sobre os textos e tão pouco no nosso entendimento a respeito deles, ou das conexões mentais que nos suscitaram. Mesmo que, tecnicamente, a universidade sirva para ensinar a gente a pensar, ampliar os nossos horizontes e formas de pensar e agregar informações novas ao nosso cotidiano, ela acaba por nos restringir e adestrar – tanto quanto a escola básica fez antes.

Isso pode ser percebido por dois exemplos um tanto bobos. O primeiro diz respeito a um trabalho que meu irmão fez, para uma matéria de filosofia (curso dele na faculdade), à respeito de etnologia indígena, o que diz respeito à área de antropologia. Ao ler o trabalho, tive a impressão de ser completamente desconexo daquilo que entendo por uma análise de textos antropológicos e imaginei que a nota dele seria muito baixa, porque, para mim, aquela abordagem e apresentação da discussão estava errada. Só que ele tirou nove. Porque a leitura que a filosofia faz da antropologia é diferente daquela que a antropologia faz dela mesma. Ou seja, meu modo de pensar um texto e escrevê-lo tornou-se estritamente limitado aos modos presentes nos textos que estou sempre em contato com. Mesmo que eu tentasse inovar, não conseguiria fazer do mesmo modo que meu irmão o fez. E creio que se fosse o contrário, ou seja, eu escrevendo sobre filosofia, ele teria impressões semelhantes.

O segundo exemplo diz respeito à uma aula recente que participei, na qual era proposta a discussão de determinado texto, porém quando um aluno resolveu associar aquele texto com teorias de outras áreas, que ele havia tido contato anteriormente, seu pensamento foi, mesmo que a professora não tenha percebido, interrompido e olhado com certa pejoratividade. O menino, a quem passei a nutrir admiração, disse que achava que discussões se davam quando argumentos novos eram trazidos, pois discutir um texto por ele mesmo pouco acrescenta ao aluno. Por mais que a professora tenha demonstrado concordar, experiências prévias tanto com ela quanto com todos os outros professores da universidade, me provam que o garoto está absolutamente certo. Ao adentrar em seu objeto de estudo o professor fica tão delimitado que se esquece que há todo um universo logo a seu lado, pronto para lhe ajudar a construir argumentos ainda melhores. Por não conhecer esse universo, acaba barrando a exposição de alunos que tentam agregar com pensamentos mirabolantemente incríveis. Porque universidade e discussão de textos deveria servir para aumentar e reforçar novas conexões mentais e não ideias comuns e já discutidas e rediscutidas interminavelmente. O maior problema que esse silenciamento inicial causa é justamente o silenciamento contínuo. Grande parte desses alunos que tentam agregar e são barrados acabam desistindo e aula volta a ser desestimulante e apenas mais do mesmo. É a coerção do social, visando a garantia de maior coesão, agindo novamente sobre indivíduos que tentam escapar um pouco dos padrões de normalidade. E isso me irrita.

Relevo aqui duas professoras que estou tendo durante este semestre. Elas estimulam a participação dos alunos, a interdisciplinaridade e a formulação de novas conexões mentais, evitando reafirmar ideias que já fazem sentido para a gente e nos ajudando a entender novas e, quem sabe, criar algumas. Para mim, é exatamente esta a função de um professor universitário, principalmente na área de ciências humanas. Sempre questionam os índices de evasão e desperiodização, mas é impossível diminuir esses números sem que os alunos sejam de fato estimulados a agir pelas próprias pernas. Porque essa é uma corrente contrária àquela que lhes foi passada a vida inteira e, sem esse estímulo, ele simplesmente não vai. É muito fácil o aluno xerocar os textos, ter poucas avaliações realmente avaliativas, fazer uma prova que não prova nada, conseguir a nota e os créditos da matéria.

Mas, poxa, a universidade forma profissionais, que tipo de profissionais serão esses? Que tipo de alunos somos nós? Cumprimos nosso papel na transformação educacional necessária de existir? Ou simplesmente pensamos “já que sempre foi assim, que continue” e enchemos linguiça durante todo o tempo de universidade? Estamos, como Gandhi disse, sendo a mudança que queremos ver no mundo? Ou seremos nós mesmos apenas mais do mesmo? Se é isso que você quer ser, conscientemente, ok, vá em frente. Mas se não é, bom, sempre é tempo de mudar. Eu estou tentando. Gostaria de saber que mais pessoas também o fazem.

BEDA #11 Forty-Two: Don’t Panic.

11 de Agosto é dia do garçom. E também do advogado e, segundo uma fonte aleatória do google, isso desencadeou o fato de ser o dia do Estudante. Parece que é assim por causa da primeira faculdade de direito ter sido inaugurada no Brasil neste dia – e posteriormente a UNE e, claro, nosso querido vestibular. Ao invés de ser feriado ou de ganhar chocolate da escola (saudades do Bom Jesus), hoje foi dia de primeiro dia de aula. Do sexto período da universidade. Isso que eu ainda não consegui entender como foi que passei no vestibular, claro.

A diferença do sexto período é que só há duas matérias obrigatórias, além da monografia – que não é presencial. Isso faz com que a turma, que é dispersa desde sempre, seja ainda mais. Aumentando assim a possibilidade de fazer uma matéria com nenhum conhecido. Em outros tempos isso seria encarado como a sensação do momento, afinal, nada melhor para futuros antropólogos do que novos grupos com dinâmicas próprias de funcionamento prontos para serem infiltrados. Só que a paciência para pessoas, em específico as da faculdade e mais específico ainda os veteranos estilo “deveria estar no mestrado, mas na verdade estou no décimo quinto período de graduação” e os calouros do tipo “estrou no quarto período, mas sei tanto que já era pra ser doutor”. E, bem, isso é o que mais tem. Abstendo então a vontade de comunicação com estranhos e o fato de existirem no máximo seis pessoas do curso inteiro que tenho algum tipo de contato, mas sem fazer ideia da existência de alguma matéria em comum, fui.

A diferença do sexto período é que a ansiedade absurda que me abate em todos os inícios de aula se esvaiu. Acordei como se estivesse acordando naquele horário pelos últimos 20 anos (não que, de certo modo, eu não esteja) e caminhei como se tivesse absoluta certeza do porvir. Nem uma gota de agorafobia. Nada de ansiedade. Nenhuma angústia. Apenas rotina, apenas ir.

A sala da primeira aula, que tecnicamente seria com a minha turma, tinha três conhecidos. Vitória. O professor, que nunca tive aula com, parece fantástico e a ementa me deixou bastante, acreditem se quiser, empolgada. Radiante pra falar a verdade. A possibilidade de ler todas aquelas coisas das quais nunca ouvi falar me deixaram, por algum motivo inexplicável, contente. O preço das coisas da cantina subiu mais uma vez, como descobri na hora do intervalo. A diferença do sexto período, é que finalmente deixei de chamar de “recreio”, como de costume. O professor atrasado para a segunda aula, fez com que eu pudesse vencer mais um capítulo de Oblómov (agora em fase de leitura devagar, porque é divertido demais pra acabar em algum momento) e a turma lotada de calouros se fez presente. O professor, já conhecido por uma incrível capacidade de ser tão pastel quanto eu, motivado com um novo início apresentou ementa e método de avaliação surpreendentes. Que fizeram as faíscas de empolgação aumentarem e a vontade de voltar para casa para começar a organizar o que ler, quando ler e o que fazer com isso, aumentasse exponencialmente. Com o fim, a volta instantânea para casa se fez necessária. O resto do dia passou calmo, brando. Empolgantemente desafiador.

E depois eu descobri que era dia do Estudante. E que eu não tinha ganhado chocolates, como na época do Bom Jesus (sdds, apenas sdds), mas sim 42 novos textos com provável gama de conceitos e conhecimento muito maior do que isso para serem desbravados no período de três meses. 42, justo o número que é a resposta para todas as perguntas. Justo o número que nos diz para não ter pânico. Justo no dia que eu não tive.

Freneticamente

Sempre fui ansiosa. Níveis extremos. Nunca consegui dormir na véspera do primeiro dia de aula, por exemplo. Minha mãe sempre achou uma tremenda frescura, mesmo quando era em escola nova. Ela vivia dizendo que eu sempre mudava de escolas mesmo e que eu que pedia, então não tinha porque ficar ansiosa. E quando era na mesma escola ela dizia que não fazia sentido, porque tudo ia continuar sendo igual. A questão é que nada nunca é igual, como em uma das primeiras frases de filosofia que eu ouvi falar na vida, a gente nunca entre no mesmo rio duas vezes, nem ele é o mesmo e nem nós. Eu tinha todo motivo do mundo pra ficar ansiosa.

A questão é que eu cultivo a minha ansiosidade. Chocolate, por exemplo, é a coisa que eu mais como, desde que me entendo por gente e é sempre por motivos de: ansiedade. Porque ele me ajuda a lidar com ela, a ficar mais e mais e mais ansiosa até explodir e ao mesmo tempo a acalmar quando a explosão ocorre.

Não durmo nas vésperas dos primeiros dias porque eles nunca são só “primeiros dias”, eles são começos. Na cabeça de ansiosos, começos nunca são só começos, eles sempre estão atrelados aos meios e aos fins. Logo, antes mesmo do primeiro dia de aula, eu já estou sofrendo por todas as finais que eu vou pegar, pelos dias que vou decidir que preciso dormir ou ir ao cinema, mesmo sabendo que tenho um trabalho/prova importantíssimo para o outro dia. Já sofro pela solidão eminente, porque em algum momento eu vou cansar das pessoas e desejá-las arduamente ao mesmo tempo. Sofro por cada centavo que será gasto na cantina, maioria das vezes na compra de mais chocolates. Sofro pensando em tudo que eu poderia e deveria aprender e não vou porque vou ficar com preguiça e o nervoso vai se proliferando e daqui a pouco estou sofrendo porque ouvi falar que o professor da matéria x é muito bom ou muito ruim e porque vou ter que estudar autor tal e ele parece insuportável e porque vai ter MAIS TEXTOS DE ÍNDIOS e mais uma matéria de arqueologia e mais tudo enquanto eu podia estar simplesmente dormindo e ai, por que que eu não durmo?

Neste ponto costumo levantar da cama, pegar meu diário e escrever o máximo de caraminholas que saírem da minha cabeça. Aí começo a escrever cartas que nunca serão enviadas e minhas pernas começam a ficar extremamente inquietas e nunca mais param de mexer e a agonia é tão grande e tão intensa que eu simplesmente surto, deito em posição fetal e choro visceralmente até finalmente cair no sono, o que geralmente ocorre meia hora antes da hora de acordar e quando essa hora chega e é percebido que o primeiro dia de aula está ali para ser enfrentado e que todo o sofrimento noturno está prestes a ser real, finalmente fico em paz.

No estágio de paz, que fique claro, todas as preocupações, problemas inventados e os “socorro eu preciso ler MIL PÁGINAS até segunda feira!!!” se transformam em “dane-se, vou dormir” e tudo é uma constante bola de neve.

Outro dia estávamos na frente da casa de uma amiga e tínhamos que tocar a campainha para entrar, eu disse “toca você, eu tenho pânico de inícios” e minha amiga não entendeu. Eu inventei o nome, não sei se isso existe, mas eu devo ter algo do tipo. Toda essa epopeia da noite pré-primeiro-dia-de-aula acontece em graus menores a cada vez que tenho que dar o pontapé inicial em alguma coisa. Eu odeio rotinas, porque gosto de me surpreender, acho que vida sem adrenalina e motivos para ansiedade é super sem graça. Quando a vida está chata eu como muito chocolate só pra ter overdose de açúcar e poder deixar minhas pernas tremerem em paz, enquanto a cabeça funciona freneticamente. E toda vez que eu tenho que dar oi para uma pessoa nova, assistir alguém que eu gosto muito apresentando algo muito importante, toda vez que eu tenho que apresentar coisas, que eu tenho provas emblemáticas e que eu me enfio em situações passíveis de serem destrinchadas de mil e uma maneiras diferentes, o emaranhado de pensamentos não-cíclicos retorna e lá estou eu, um dia antes da coisa chegar (às vezes acontece em doses menores, na hora mesmo) sofrendo, tremendo, querendo fazer passar e ao mesmo tempo amando tudo e achando o máximo.

É por isso que eu odeio fim de semestre (ao mesmo tempo em que acho genial não precisar de café pra ficar elétrica). A inquietude toma conta, a protelação domina e a vontade de preencher o tempo fazendo qualquer outra coisa que não o necessário é eminente. De repente estou ouvindo a discografia inteira do Charlie Brown Jr e contabilizando quantas letras eu sabia, estou categorizando pastas do computador ou procurando um livro que cure minha ressaca literária. De repente estou com a disritmia atacada e auto boicotando minha ingestão de chocolates para preservação da própria vida. De repente estamos em Dezembro e cada dia do mês já foi passado e repassado tantas vezes, já me fez sofrer e tremer tanto e criar tantas expectativas e decepções por coisas que jamais serão vividas, que me vejo planejando meu Carnaval. Sem sequer saber se estarei viva lá. Sem sequer gostar de carnaval.

Os dias andam frenéticos. O ritmo está cada vez acelerado. Enquanto o coração tenta se acostumar e dar conta, a cabeça só consegue sofrer antecipadamente de saudades, enquanto o lado racional roga para que a centralidade retorne e eu consiga terminar meus trabalhos e provas em paz. Não há abraços, chocolates ou noites bem dormidas que possam passar a aflição que só o tempo, maldito, pode vir a fazer passar. O frenesi é constante.

Angústia

Eu entendo as razões para a existência do feminismo. Entendo que as mulheres são tratadas como inferiores em quesitos que realmente não são e que por causa de tamanha desvalorização elas acabam objetificadas e tratadas como nada. Eu entendo que por causa dessa cultura massificada que ensina os homens desde sempre que mulheres possuem ótimos buracos e que peitos são a oitava maravilha do mundo, muitas mulheres sejam estupradas, abusadas, violentadas de maneiras absurdas e mortas todos os dias. E entendo que muitas delas não tenham coragem de contar nada disso, por medo da revolta do agressor. Por medo de sofrer mais pelo simples fato de ser mulher. Eu entendo tudo isso. E acho uma palhaçada. Assim como acho uma palhaçada que todas essas coisas aconteçam com negros, indígenas, mendigos, homossexuais e quaisquer outra subdivisão considerada inferior e mais fraca por algum modo. E é por isso que defendo o direito de todas essas pessoas a irem à luta, por igualdade e por respeito. Coisas que deveriam nos ser garantidas, tendo em vista que fazem parte da “Declaração Universal dos Direitos Humanos”, mais precisamente do artigo II que diz “Toda pessoa tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidas nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento ou qualquer outra condição”.

A questão é que a Declaração de Direitos Humanos é só uma proposta de acordo de paz, como muitos outros, que servem como aparatos para algumas coisas, mas não como bases reais de fundamentos para atitudes humanas. A maioria das pessoas nunca leu essa Declaração e, convenhamos, ninguém nunca foi perguntado se concordava com ela ou não. A gente simplesmente nasceu. Aqui, num universo repleto de regras e convenções às quais tivemos que aprender a lidar, até que isso nos sufocasse o suficiente para que, os que não aprenderam a lidar, se revoltassem e começassem suas revoluções em prol das minorias.

Descobri-me uma pessoa revoltada para com o feminismo. Eu sempre achei que gostava dele, porque eu concordo com vários de seus preceitos e porque adoro o fato de eu poder ter voz e poder tomar decisões sobre a minha vida, coisas que jamais teriam acontecido sem ele. Só que uma das linhas do feminismo é a da “teoria queer”, que pretende uma igualdade social total entre os gêneros e isso me incomoda de um tanto que nem consigo expressar. Não a teoria em si, se ela se tornasse realidade ok, eu até conseguiria me acostumar, eu acho, a questão é que vejo essa e algumas outras linhas do feminismo tão utópicas quanto o lindo comunismo marxista. E isso me irrita. Porque é impossível que a classe oprimida se reconheça como oprimida e se una em prol de uma revolta de paradigmas. A gente nunca vai conseguir uma revolta comunista, porque ao mesmo tempo que detestamos a desigualdade social e todo o mal que ela trás para a humanidade, adoramos o fato de podermos comprar o celular que a gente quer e todos os outros privilégios de “classe média” e, ok,  a ideia não é empobrecer as pessoas, é tornar todo mundo igual em um patamar econômico mediano, suficiente para todos serem felizes com seu dinheirinho e tal, mas eu não consigo ver uma aplicação prática disso. Não consigo imaginar um mundo sem desigualdade e se eu conseguisse, não sei se ia querer viver nele. Pode parecer ridículo e talvez seja, mas é a verdade. O mesmo acontece com o feminismo. A intenção não é tornar o mundo uma enorme supremacia feminina, é apenas promover a igualdade entre os sexos/gêneros, visando o respeito. Tecnicamente é uma coisa bem simples, o problema é que até as pessoas que lutam por isso foram criadas sob preceitos machistas e até elas vão reproduzir o machismo em algum momento, não é como se fôssemos capaz de extirpar uma cultura da gente, só porque de repente a vemos como errada.  Por mais feministas que sejam, as mulheres vão continuar em busca de um parceirx para a vida. Vão continuar sabendo menos sobre fios elétricos e mais sobre pregar botões e para mudar isso teriam que mudar toda a mentalidade de uma geração que está sendo formada, mas como mudar essa mentalidade, se os próprios formadores de opinião não sabem direito o que expressar?

Vivo em um mundo muito ativo politicamente, vivo rodeada de militantes das mais diversas coisas e, ao mesmo tempo, vivo em uma família ultra-conservadora que odeia tudo isso. Para ser diferente da minha família, forcei-me a acreditar cegamente em todos os padrões militantes sem nem pensar sobre eles, porque eram diferentes dos da minha família, então deviam ser bons. Só que eu me sinto tão oprimida pelas pessoas que pregam o libertarismo, o feminismo e a igualdade, quanto pelos que pregam a opressão, o conservadorismo e a supremacia. Consigo verificar pontos negativos e positivos das duas posições e me é impossível decidir de qual lado eu quero ficar. Sou uma completa indecisa e em cima do muro, em todos os quesitos, porque eu nunca vou conseguir discordar completamente de alguém e, ao mesmo tempo que isso me irrita, eu acho fantástico. Porque eu realmente me acharia uma babaca se estivesse comendo kinder bueno enquanto saía gritando por uma igualdade econômica ou se tivesse indo gritar pela liberdade feminina após ter pedido permissão para o meu pai para isso.

Meu pai nunca se importou com o que eu faço ou deixo de fazer, então eu simplesmente faço. Mas eu sei que isso decepciona tanto a ele quanto à minha mãe. Saber que eu tento pensar e que não quis ser um robô programado para seguir preceitos da moral cristã os assusta, tendo em vista que foi para isso que eles me criaram e eu acho divertido esse embate familiar que tenho que lidar todos os dias, acho que é um ponto forte do feminismo existente em mim. Isso e o fato de eu ser uma maluca por quebrar convenções sociais que impõem que eu tenha um cabelo comportado, use roupas bonitinhas, coma salada e tenha planos para casar. Mas acho que é só isso. Eu prezo muito pela liberdade perante o meu próprio corpo e pelo direito de poder estudar e trabalhar e receber a mesma remuneração que um homem no mesmo cargo. Eu detesto as cantadas dos pedreiros que sou obrigada a ouvir todos os dias e me enojo ao ver as crianças brincando de ser mães, porque elas poderiam estar brincando de uma série de outras coisas, mas não pelo fato de “estarem treinando para ser mães”. Acho legal a noção de que uma mulher não PRECISA ser mãe, mas ao mesmo tempo, acho legal quem respeita aquelas que querem. Aquelas que acreditam no casamento, numa vida comportada e conservadora.

Se Doctor Who aparecesse na minha vida hoje e me perguntasse em qual época e lugar eu gostaria de ser largada, pediria para estar na Inglaterra do século XVIII, para ter a chance de viver um dos romances da Jane Austen. Porque eles são lindos, eles são românticos, mas são a representação perfeita de como uma sociedade machista funciona e de como uma mulher acaba por se render a ela quando encontra o amor, porque só o amor salva. Eu nem sei se ainda acredito no amor, mas queria ter a chance de viver naquela época, porque lá eu acreditaria, lá eu não precisaria pensar, lá eu não teria que viver essa eterna angústia de pessoa insatisfeita com a própria insatisfação. Lá eu poderia apenas reproduzir o que minha mãe me ensinaria, poderia bordar em paz (como eu tenho saudades de ter tempo para bordar!) e poderia criar um monte de pirralhos, do jeito que eu sempre quis.

No mundo atual eu me vejo cada vez mais obrigada a aperfeiçoar o meu intelecto, a conviver com pessoas que acreditam em coisas que acho duvidosas, a olhar para as crianças às quais dou aula com pena, porque sei que um dia elas vão ter que encarar o mundo e vão se decepcionar. Mas não consigo deixar de ter um pingo de esperança e fico com vontade de mudar a vida deles de algum modo, de fazer eles pensarem, talvez se todo mundo tiver senso crítico as utopias se tornem reais. Talvez o que falte seja a gente acreditar. O Chapeleiro Maluco de Once Upon a Time disse que o problema dos humanos é que eles querem sempre uma solução mágica, mas não acreditam nela. Eu realmente não acredito. As vezes eu acho que não acredito em nada. Se não consigo acreditar nem em mim, como serei capaz de acreditar em qualquer uma dessas milhares de teorias fenomenais com as quais vivo entrando em contato? Como serei capaz de achar que um dia seremos iguais, mas ainda assim haverá um jeito do romantismo existir? A visão que eu tenho é a de que o romantismo é tão antiquado e dominativo, que em uma sociedade igualitária simplesmente desapareceria e a gente ia se relacionar com as pessoas só para suprir a ânsia de não sermos sozinhos. E eu já cansei disso, de tentar tampar o Sol com uma peneira e continuar queimada pelos raios UV que passam por cada buraquinho. Eu já cansei de me ver obrigada a sorrir e concordar com as coisas só para não parecer uma conservadora-reprodutora-de-senso-comum mesmo estudando antropologia. Porque tem uma assim no meu curso e ela é deplorável e eu não quero ser ela e eu não acho que eu seja. Mas também não sou aquela que vai sair por aí gritando que quer que o mundo seja perfeito, porque eu odeio coisas perfeitas, porque eu preciso dos meus problemas imaginários e dos motivos para passar o dia inteiro angustiada e sofrendo e comendo mil e um doces e ficando com peso na consciência porque vou sair do padrão de beleza implantado na minha mente!

Eu jamais lutaria contra o padrão de beleza, inclusive, porque eu adoro ele. Por mais opressivo e exclusivo que seja, eu gosto da ideia de que as pessoas tem que se depilar, ter dentes brancos e não tortos, cabelos ajeitados, unhas bonitas, roupas não grotescas e um peso que condiga com sua estrutura óssea. Acho triste as pessoas que se submetem a mil plásticas porque querem ser a barbie, mas nisso eu enxergo apenas um exagero e não uma razão para acabarem com as barbies, mesmo porque, elas são bonecas simples, que proporcionam que as crianças continuem criativas e continuem a inventar histórias e qual é graça de ser criança se você não pode inventar histórias? Se você não pode achar que um dia vai ser uma princesa, como as da Disney, ou até mesmo como a Mia Thermopolis? Eu odeio a robotização infantil que vem sendo pregada constantemente, se elas não puderem inventar histórias, não vão conseguir desenvolver seu raciocínio a ponto de se tornarem bons pensadores e sem bons pensadores a humanidade acaba. As indagações acabam, a arte acaba, a literatura, música, cinema… tudo vira reprodução do que já foi, repetição do que já foi dito. E é isso que me incomoda. E não o fato de uma mulher pedir para um homem trocar uma lâmpada ou fazer a bateria do carro funcionar, não são coisas que interessam muitas delas. Assim como pregar botões e fazer cachecóis não interessa muitos dos homens. E eu não sei qual é o problema disso. Não sei qual é o problema em cumprirmos alguns papéis diferentes. Não sei qual é o problema em sermos diferentes e ao mesmo tempo tão intensamente dependentes uns dos outros.

As vezes eu acho que todos esses movimentos sociais apenas ampliam o individualismo e o enfraquecimento de laços sociais, enquanto acreditam estar fazendo o exato contrário. E isso me irrita, me incomoda, me deixa enfurecida. Porque eu odeio ser sozinha, porque eu sou uma pessoa absurdamente dependente. Porque um dia minha mãe vai morrer e eu vou precisar de alguém que me dê liberdade o suficiente para eu chorar no colo, dormir abraçada e pedir para pentear meu cabelo nos dias que meu braço resolve não funcionar. E eu não me vejo conseguindo nada disso em um universo em que as pessoas vivem pregando que não precisam umas das outras, exceto no momento da revolução. Porque eu odeio as pessoas, mas eu preciso delas. O tempo inteiro.

Encruzilhadas

Criar raízes é uma completa novidade para a minha pessoa. Nunca tive que fazer isso, sempre me aproximei dos outros com o botão “delete” já armado na mente para usar assim que a pessoa me irritasse. Eu não sei manter relacionamentos, não sei permanecer nos lugares por muito tempo, não sei terminar o que começo e sei muito menos contentar-me com o sedentarismo – no seu sentido literal.

Só que meus pais me obrigaram a fazer uma faculdade. Tentei encontrar um curso de dois anos que me agradasse, tentei escolher uma em outra cidade, um curso aleatório, algo que garantisse um intercâmbio no meio do caminho, ou uma faculdade gigante para eu poder mudar de sala o tempo inteiro. E quando vi que teria que estudar em Curitiba E na ufpr, tentei convencê-los a mudar de casa e não deu certo, porque já moro perto o suficiente do campus universitário em questão.

Redescobri que eu sofro. Não consigo me imaginar indo ao mesmo lugar por tanto tempo, encarando as mesmas pessoas, tendo as mesmas conversas, comendo as mesmas coisas na cantina, ouvindo as mesmas histórias, lendo textos que me fazem sempre concluir coisas muito semelhantes e voltar pra casa maravilhada com um universo sensacional, mas incapaz de imaginar uma maneira de colocá-lo em prática e ficar frustrada e ir dormir chateada porque a vida é chata e eu não tenho com quem compartilhar os brilhantismos que concluí, porque não há ninguém interessado na minha pessoa, porque como eu fico com a ideia fixa de que não consigo manter contato com os outros por muito tempo e com muita intensidade, acabo afastando-me involuntariamente e ninguém tem paciência de tentar me pescar de novo e eu me sinto cada vez mais sozinha e largada e acabo escrevendo em um dos meus mil cadernos e durmo sonhando com o dia em que a vida vai mudar e eu vou conseguir me sentir satisfeita e feliz.

Só que não importa o quanto eu resita, continuarei tendo que ir todos os dias pela manhã para aquele ambiente que me atormenta mentalmente por mais três anos. Terei que continuar vendo as mesmas pessoas, ouvindo as mesmas histórias, conversando sobre os mesmos assuntos e comendo os mesmos salgados sem graça da cantina. Vou continuar me sentindo sufocada, entediada e insatisfeita com o simples fato de existir. Mas vou continuar ali. Em um único lugar. E pela primeira vez na vida vou ter que aprender na marra como é que se relaciona com gente, como é que se mantêm legal e com assunto por tanto tempo. Como é que se estreita laços afetivos e os cria. Como é que se vive em sociedade no mundo real e não no ideal ou no virtual. Pela primeira vez na vida, estou condenada a uma realidade palpável, sólida, danificada, sem graça e sem perspectivas de mudanças ou melhorias. Sem hakuna matata. Com preocupações.