VMA 2016 – A Consagração de Beyoncé

      VMA é a sigla de Video Music Awards, evento anual realizado pela emissora de televisão estados-unidense MTV. O intuito da premiação é celebrar, principalmente, a música pop dos EUA. O palco do evento é alvo de performances incríveis ano após ano, que insistem em se reinventar. Os artistas, cada vez melhores, encantam o público e o evento acaba se tornando mais popular pelas apresentações do que pelos prêmios propriamente ditos.

      Isso não significa que os prêmios são menos importantes, pelo contrário. Ganhar troféus no VMA traz bastante prestígio para os artistas. Madonna, considerada a rainha do  pop, havia ganhado a maior quantidade de prêmios, totalizando vinte estatuetas. A cantora ainda é mundialmente conhecida, mesmo tendo 58 anos de idade, segue encantando gerações com sua música e capacidade performática. Ela revolucionou a indústria musical de sua época e inaugurou o pop da forma como conhecemos hoje. 

     Porém, os anos 2000 trouxeram uma nova rainha para o gênero musical. De 1998 a 2001 estimava-se que quem viria a ocupar o mesmo espaço que Madonna, no futuro, seria Britney Spears, que foi, então, apelidada como princesa do pop. No entanto, a cantora acabou passando por momentos turbulentos em sua vida pessoal, que a fizeram se afastar da música por um longo período. Entre vais e vems, Britney Spears acabou perdendo a capacidade de se reinventar, ou simplesmente o “andar da carruagem”, como diria o dito popular.

       Em 2016 ela lançou seu nono álbum, chamado Glory. As músicas e os videoclipes, assim como as apresentações ao vivo, seguem o mesmo padrão das que ela apresentava no auge de sua carreira, quando tinha cerca de dezessete anos. Para o público é maravilhoso ver que a Britney está de volta na indústria da música, que está se sentindo bem e segura de si e disposta a retomar a carreira, no entanto, acostumados com grandes performances, à lá Lady Gaga, Katy Perry, Rihanna e Beyoncé, o público acaba achando um tanto estranho ver que Britney ainda se arrasta no chão semi-nua, exatamente como no clipe de Toxic. Nosso coração segue junto com ela, torcendo para que ela fique bem e continue produzindo músicas dançantes, mas já não é possível compará-la com as outras grandes artistas do pop atual. Infelizmente.

       Quem não cansa de se sobressair, é Beyoncé. Essa sim, chegando ao nível de Madonna. Em 2016, Beyoncé lançou seu primeiro vídeo-álbum, chamado Lemonade. Intenso, magistral e muito bem performado, o vídeo conta a história da traição sofrida por Beyoncé, por parte de seu marido, também músico, Jay-Z. O ditado popular diz para que a gente faça uma limonada dos limões que a vida nos dá, Beyoncé foi lá e fez.

        Ela transformou um momento pessoal possivelmente tenebroso, tortuoso e depressivo em uma obra de arte fenomenal, reinventando o gênero pop e tirando aquela imagem de que música pop é fútil. Beyoncé fez um álbum sobre empoderamento feminino. Depois de já ter emplacado músicas incríveis sobre o assunto, como Flawless, e de ter iniciado sua apresentação no VMA de 2014 recitando um discurso da Chimamanda Ngozi Adichie, sobre como todos deveríamos ser feministas, ela foi lá e mostrou para o mundo inteiro que é possível sentir um baque na vida pessoal e transformar em arte.

       As performances de Lemonade não são incríveis apenas no vídeo álbum oficial, Beyoncé não tem decepcionado nas apresentações ao vivo que faz com as músicas do álbum. Uma prova disso foi sua apresentação de 15 minutos no VMA, que ocorreu ontem. De forma excepcionalmente densa, tanto na coreografia, quanto na qualidade vocal e de performance, Beyoncé mostrou para o mundo que uma traição não necessariamente derruba você. Ela mostrou, principalmente, para o Jay-Z, que ele não tem poder para parar ou acabar com ela, pelo contrário. Ela transformou um momento tenebroso na vida dela em arte libertadora. E ela foi lindamente recompensada por isso, ultrapassando Madonna na quantidade de estatuetas que levou para casa. Agora, Beyoncé já tem 24. 

          Toda vez que vejo alguma performance relacionada a Lemonade, imagino como é que ela se sente. Como é ver o mundo inteiro cantando e ovacionando um álbum que provavelmente foi o mais difícil da carreira dela. Como é ver que todo mundo sabe que ela é a rainha da música pop e que ninguém consegue entender como é que Jay-Z pôde traí-la. Eu queria saber como é para ela reviver cada uma daquelas músicas, embebidas com os sentimentos angustiantes, de revolta e de nascente paz. Queria saber como é que ela consegue cantar tudo aquilo e depois voltar para casa com o marido e levar a vida normalmente. 

           Por outro lado, queria saber como é para o Jay-Z ver que ter traído a esposa não virou apenas manchete em revista de fofoca, não se voltou favorável a ele, mas, pelo contrário, alavancou a carreira dela e gerou o álbum mais bonito já feito. Queria saber como ele se sente, vendo tudo que ela pensou e sentiu por ele, estampado naquelas músicas que agora todo mundo sabe cantar. Como é para ele, dormir com ela depois de uma performance em que é nítido que todo mundo está bravo por ele tê-la traído e, ao mesmo tempo, feliz, pelo fruto que gerou? 

          E a Blue Ivy? Como será que ela processará tudo isso quando for um pouco maior? “Meu pai traiu a minha mãe e ao invés de ela se separar, fez um álbum fenomenal, revolucionou a indústria da música, inspirou milhões de mulheres pelo mundo e mostrou que não necessariamente elas precisam ser oprimidas, e continuou com o meu pai, depois de colocá-lo no devido lugar“? Sério, essa família pós Lemonade deve estar passando por momentos bizarros, tendo que se redescobrir o tempo todo e com os sentimentos postos à prova direto.

          Beyoncé mais uma vez arrasou em uma premiação. Saiu não apenas com estatuetas, mas com a melhor performance da noite e com milhões de fãs no mundo inteiro se sentindo representados. Ela foi lá e fez uma limonada com todos os limões que as mulheres tiveram que engolir. Ela esfregou na cara da sociedade norte-americana o racismo que ela sofreu, mostrou que uma negra pode sim chegar no topo do mundo, pode sim reverter o padrão de opressão estabelecido, pode sim reinar sozinha. Beyoncé honra o termo que ela criou, quando diz “I slay“, porque, sim, colega. Sim. Quando você fala, quando você reina, quando você brilha, a gente só sabe ficar parado e aplaudir. Muito obrigada.

Beyoncé no VMA, acompanhada por mães de jovens negros que foram brutalizados pela polícia dos EUA.
Beyoncé no VMA, acompanhada por mães de jovens negros que foram brutalizados pela polícia dos EUA.