Não.

Eu não quero falar com você agora. Não é nada contra a sua pessoa, é apenas uma característica minha. Eu não gosto de conversar com as pessoas quando eu sei que não teremos algo útil a falar sobre. Não gosto de conversas que terminam depois do “tudo bem?”. Eu odeio que me perguntem se está “tudo bem”. Nunca vou entender o que a pessoa que inventou esse bordão tinha na cabeça. Se as pessoas não se importam com como você de fato está, para quê perguntar? Para quê tornar fútil uma pergunta que deveria ser útil?

Não gosto dessa coisa de me sentir obrigada a conversar com fulano ou ciclano ou beotrano quando eu sei que não tenho sobre o que dizer, mas deveria porque supostamente somos amigos e deveríamos ter assunto. Não é assim que as coisas funcionam. Irrito-me quando sobe em meu facebook a janela de uma pessoa completamente aleatória, que nunca falou comigo antes e já vem querendo saber como eu estou. É falsidade demais para a minha cabeça e olha que minha cabeça sabe muito bem como ser falsa. Quando uma pessoa dessas vem falar comigo eu tenho que abusar do meu auto controle para não soltar um “fala logo o que você quer” ao invés do esperado “tudo sim, e você?”.

Eu não consigo fingir que está tudo bem quando simplesmente não está. Não me sinto confortável dizendo pra pessoa que estou “ótima” quando na verdade passei a tarde chorando por algum motivo grave. Sempre fui do tipo que deixa  a máscara da tristeza mais visível que a da felicidade, embora saiba valorizar muito bem as alegrias quando as mesmas aparecem.

Com o passar do tempo, porém, minha angústia inaugurou em mim uma nova maneira de enxergar as coisas e eu percebi que consigo fazer a conversa ficar interessante a partir do “tudo bem”, basta dar uma resposta inesperada. Há pessoas que vão querer parar para ler todas as desgraças da sua vida, há outras que vão mudar de assunto ou fingir que você respondeu que “tudo está bem” e há outras que vão tentar entender a razão pela qual você simplesmente respondeu “sobrevivendo” à pergunta de “como você está?” quando o esperado é “bem, e você?”. A resposta inesperada gera um diálogo muito mais farto do que a esperada, afinal raramente as pessoas sabem o que dizer após o tal “tudo bem”. A não ser que, de fato, haja um motivo real para a conversa, algo extremamente raro nos dias atuais.

Entendo perfeitamente que em diversos momentos a gente se sente só e tudo que quer é sentar e conversar, independente do assunto. Entendo que faz parte de um contrato social assinado imaginariamente e involuntariamente por nós várias dessas regras completamente bestas quando paramos para pensar sobre. Entendo que, de fato, é divertido ficar horas e horas falando sobre nada. O que eu não entendo, caros colegas, é porque diabos as pessoas insistem nessa pergunta idiota quando elas não estão interessadas em saber como você está. É injusto perguntar isso. Ainda mais para pessoas como eu, que tiveram um imenso trabalho cerebral para compreender que nem sempre o que se diz tem significado literal.

Eu queria que todo mundo entendesse o meu jeitinho aleatório de chegar com um link de algo que vi por aí e me remeteu à pessoa e a partir disso fazer um gancho para uma conversa e só perguntar se está tudo bem quando realmente for relevante e usar o velho “o que você almoçou hoje?” para casos de falta de assunto. Eu queria poder chegar na janela facebookiana de quem me desse vontade e dizer “oi gatinh@ quer tc?” e ver a pessoa rir e embarcar na brincadeira comigo. Eu queria poder chegar na janela de alguém muito importante e dizer “ei, faz tempo que a gente não conversa! Conte-me sobre a sua vida.” e poder passar horas  e horas apenas lendo sobre as desventuras alheias. Eu queria que as conversas internéticas fossem fluidas como um dia foram, que a gente tivesse a liberdade de outrora. Eu queria que houvessem gifs dos emotcons que usávamos há alguns anos, só pra gente ficar se enviando e rindo. Eu só queria um mundo mais leve, mais sincero e menos falso e repleto de frivolidades. Eu sei que talvez isso nunca exista e é por isso que reservo-me no direito de manter conversas diretas apenas com aqueles que já entendem o meu jeitinho. Eu juro que não é nada contra vocês, é contra o querido sistema mesmo.

No fim é isso que acontece com quase todos nós, quase sempre.

Não é o que Parece

Eu não gosto mais de você. Não fico mais pensando a seu respeito e me culpando pelo passado. Acredito agora que tudo acontece porque deve acontecer e por isso não há razões para o arrependimento. Eu não me arrependo. Mas não dá pra seguir em frente. Eu não sei o que tudo isso parece, só sei que você sempre foge de mim, mesmo sem eu ter feito nada. Não é o que parece porque eu juro que eu não quero te agarrar, casar e ter filhos. Não mais. Sinto sua falta, sim, claro, óbvio, mas sinto falta das conversas inusitadas, da convivência – mesmo que na maioria das vezes virtual – da companhia para almoços e filmes. Fico mal quando descubro que você não foi a algum lugar porque soube que lá eu estaria, eu não iria conversar com você, nada ficaria esquisito. Você pode ir aonde quiser, eu não tenho nada a ver com isso. Eu me cansei. Cansei de esperar, cansei de sonhar e de me culpar pela sua completa infelicidade. Cansei de me sentir mal em cada vez que saio à noite, lembrando de tudo que conversávamos a respeito disso quando tínhamos quinze anos. Provavelmente você não se lembra de nenhuma das nossas conversas, se enquanto nos falávamos você raramente lembrava, imagino agora.

Você entrou na minha vida, mudou tudo e foi embora, deixando-me sem nenhum manual de instruções que explicava como seguir adiante sem a sua companhia. Como disse muito bem o meu amado Caetano, “você não me ensinou a te esquecer”, mas a verdade é que depois de todo este tempo eu acabei por aprender sozinha. Chego a passar meses sem lembrar de seu rosto, mas há pequenas coisas no cotidiano que automaticamente me fazem pensar no quão legal seria comentar com você. E daí eu volto a sonhar. E fico brava. E recomeço a esquecer. Acho que eu nunca vou conseguir, acho que em minha mente sempre brilharão essas intermináveis lembranças, afinal, elas são grande parte do que fez de mim o que sou agora. Eu gosto das minhas lembranças. Só não gosto do fato de elas serem com você. Veja bem, não é que eu te odeie, eu sou incapaz disso. Tenho constantemente tentado atingir a indiferença, esta sim parece o essencial. Mas eu não consigo. Eu me preocupo quando sei que você está sozinho, ou triste ou algo de ruim aconteceu. E eu fico brava porque não posso fazer nada, nem comentar a respeito, nem dar conselhos ou palavras consoladoras. É isso que me irrita e me faz querer esquecer de tudo isso.

Só que não dá. Porque toda vez que eu ouvir ou ler o seu nome em algum lugar, seu sorriso invadirá a minha mente e eu automaticamente passarei um dia triste e frustrada pela falta de contato. Não dá porque toda vez que eu lembro da sua existência lembro de tudo que ela agrega ao mundo e de tudo que agregou ao meu mundo um dia. Não dá porque você é “impossível de esquecer, mas difícil de lembrar”, igual a Claire de “Elizabethtown” e eu odeio muito tudo isso.

Não. Não é o que parece. Seja lá o que isso parecer.

Só espero que você seja muito feliz. Mesmo longe. Porque tudo acontece como deve acontecer.

P.S.: Este texto faz parte de um meme mafioso, o título me foi dado pela Deyse do Verdade Mal Contada

Coração Apertado.

Tenho andado com o coração pra lá de apertado. Não. Não tem nada a ver com o “dia dos mortos”. Eu não acredito nessas coisas. Acho que é esse o problema, eu não acredito mais em nada. Parece que a cada texto que eu leio, a cada aula que assisto, ao invés de clarear as coisas em minha mente elas ficam cada vez mais turvas e eu cada vez entendo menos sobre o mundo ao meu redor, ao mesmo tempo que o entendo infinitamente. A cada dia que passa eu descubro centenas de novas coisas e de razões para que as coisas atuais sejam da maneira que são e ao invés de pensar em algo para melhorá-las eu simplesmente fico com o coração apertado, como chocolates, muitos chocolates e tenho vontade de abster-me da humanidade, de fugir pra minha natureza selvagem logo. Eu ando cansada. Cansada de toda essa humanidade. De ter que sorrir por aí como se tudo estivesse perfeitamente nos conformes, de ter que conversar com pessoas que eu não gostaria e de não poder conversar com as que eu gostaria. Estou cansada de todo esse encargo cultural que a sociedade nos impõe, de todos esses impedimentos, essas barreiras, de todos os muros que construímos ao redor de nós mesmos e que acabam por nos sufocar. E no meio de tudo isso questiono a mim mesma, as minhas escolhas e atitudes. Questiono sobre tudo que eu fui o que sou e o que pretendo ser. E decepciono-me ao ver que a cada passo que eu dou decepciono mais pessoas, cada vez mais.

Porque eu não quero vencer na vida. Eu não quero ser alguém. Eu não quero ser milionária. E nem é porque eu não queira, se eu fosse milionária certamente não reclamaria, mas eu sei que não quero tentar ser uma. Não quero condenar-me a trabalhar horas a fio como uma otária, aguentando todo tipo de imbecilidade para acumular bens materiais. Eu morreria de preguiça muito antes de conseguir. Sim, eu sou muito preguiçosa. Talvez a pessoa mais preguiçosa que já pisou nessas terras. Na verdade, acredito que se existe um Deus que cria as pessoas, quando ele foi me criar pensou em uma pessoa que acumulasse todos os defeitos que ninguém quer ter e todas as qualidades que ninguém quer ter e daí nasceu eu. Eu. A pessoa que sempre foi “a esquisita” não importa onde ela estivesse, mesmo que fosse um lugar esquisito. Porque consegue ser mais esquisita que os lugares esquisitos. Eu sempre fui aquela que as pessoas gostam de conversar sobre assuntos polêmicos só para argumentar e que gostam de conversar sobre coisas fúteis só para rirem da minha risada. Nunca fui a pessoa que as pessoas conversam quando simplesmente precisam conversar com alguém. E, ao contrário, eu não costumo puxar assuntos polêmicos ou fúteis, eu geralmente inicio conversas para saber essencialmente sobre o outro e para ter uma oportunidade de falar sobre mim. Eu gosto de falar sobre mim porque tenho esperança de que fazendo isso acabarei por lembrar-me mais sobre mim e tenho esperança de um dia descobrir da onde eu vim e porque estou aqui. A verdade é que mesmo dizendo que não, eu sempre quis ser aceita. Todos querem. Eu sempre quis sentir que pertencia a algum lugar e eu fui capaz de sentir isso várias vezes, mas sempre dura pouco. Pouco demais. Tão pouco que nem vale apena. Eu sempre quis mais do que eu tive. Não no quesito material, na intensidade mesmo. Sempre quis coisas mais intensas. Que eu pudesse por à prova  e ter certeza de que sempre continuariam ali. Mas nada sempre continua ali, só meus pais mesmo e eu nunca entendi o que acontece com os pais para que suportem tantas barbaridades feitas por seus filhos. Sei que escrevendo assim pareço uma rebelde revoltada que daria tudo para sair em um ônibus esquisito, com roupas rasgadas e delineador tocando guitarra e cantando músicas revolucionárias, mas, bem, essa não sou eu. Eu não sei quem eu sou, mas certamente não sou essa. Estou muito mais para a garota que passa os dias com o coração espremido dentro de si, morrendo de vontade de viver tudo intensamente, mas que se sente incapaz de fazer toda e qualquer coisa. Estou mais praquela que queria ser capaz de ler tudo que a universidade manda, mas que não há santo que a faça conseguir. Que gostaria de ver todos os filmes de sua lista, mas que dorme no meio deles e que só consegue embarcar em livros quando os percebe muito distantes de sua realidade. Estou mais pra garota esquisita, que sempre será a garota esquisita, não importa onde esteja, por razões diferentes, claro, mas sempre a garota esquisita. Eu devia simplesmente acostumar-me com isso, mas é difícil. Às vezes eu queria ser mais normal, queria conseguir ir bem em matemática pra fazer engenharia e não precisar pensar sobre nada, apenas agir mecanicamente. Queria ter vontade de vencer na vida, casar de branco em uma Igreja e fazer um chá de bebê convencional. Queria ter coragem de fazer uma tatuagem num lugar super visível, olhar pra ela a vida inteira e nunca enjoar. Só queria aceitar coisas não efêmeras, mas me parece absolutamente impossível. Tudo me parece impossível, inclusive viver. A verdade é que eu sempre chorei quando meus pais vieram me contar que a gente ia se mudar, mas faz dois anos que peço quase todo dia para eles para a gente ir embora daqui, porque eu não aguento mais. Porque estou aqui há tempo demais. Porque não me identifico mais. Porque eu quero nascer de novo, outra vez. Porque eu as vezes tenho a vontade insana de deletar todas as minhas fontes de comunicação internetescas e desaparecer por décadas, para quando reaparecer só as pessoas realmente importantes ainda lembrarem-se de mim. Porque eu tenho mania de viver testando as pessoas e pior, viver testando a mim mesma. De viver analisando a todos, observando de longe, sem conseguir participar, por mais que eu morra de vontade de participar. Não aguento mais essa imprecisão, não sei como lidar com ela. E a cada dia eu entendo mais as razões pelas quais Peter Pan escolheu nunca crescer. Tudo que eu queria era ir à Terra do Nunca. Para nunca perder a capacidade de sonhar sempre e de acreditar que todos os meus sonhos são passiveis de ser real algum dia, desde que eu me esforce para isso. Sou apenas um emaranhado de palavras de apoio moral muito bonitas que não se encaixam para ninguém, nem para mim mesma.

“Quantas chances desperdicei quando o que eu mais queria era provar pra todo mundo que eu não precisava provar nada pra ninguém? Me fiz em mil pedaços, só pra você juntar.” Quase Sem Querer – Legião Urbana

Tudo Começou na Feira do Livro

Minto. Tudo começou enquanto eu pensava em ir à feira do livro. Havia combinado de me encontrar com minha amiga às 15h20min num lugar específico que ficava a 5min de casa, mas ela sempre se atrasa, então resolvi me atrasar também e saí de casa quando eram 15h20min. Desci do elevador com o celular no ouvido, era ela desesperada dizendo que uma coisa horrível tinha acontecido e perguntando onde eu estava. Desesperei-me e saí correndo pela rua para chegar até ela o mais rápido possível. Encontramo-nos e eu perguntei o que raios havia acontecido, então ela me contou que no sábado daquela semana (era uma quinta) havia ganhado um casaco que ela sonhara por muito tempo. Disse que era o casaco que ela mais quis na vida e que fez a família inteira passar uma manhã com ela procurando por ele. Foi o mais caro que ela ganhou, mas ela ficou tão feliz que tudo valeu apena. Decidiu então usar o casaco nesse dia, só que acabou esquentando e ela estava segurando-o na mão. Pegou o ônibus para ir ao meu encontro e então se tocou de que não estava mais com o casaco, porém não se lembrava de onde havia deixado ou da última vez em que havia visto. Ligou para o último lugar em que esteve e a moça disse que não havia nenhum casaco lá, mas que havia visto um casaco amarrado na mochila dela. Desesperada, ela me disse que estava pensando em fazer o caminho de volta para tentar encontrá-lo no chão da rua ou dentro do tubo do ônibus, quiçá dentro do próprio ônibus. Eu fui com ela, afinal, tinha programado passar a tarde com ela e atravessamos a cidade em um ônibus que não tinha um casaco perdido. E chegamos em um tubo sem casaco perdido. E andamos pela rua sem sinal algum de um casaco no chão. E procuramos nos rodapés e perguntamos para alguns lojistas e até para o guardador de carro e ninguém tinha visto o casaco. Pude ver no rosto dela uma frustração sem tamanho. Ao mesmo tempo em que ela afirmava estar assim somente por que “minha mãe vai me matar” eu sabia que na verdade era porque aquele era o casaco dela, que ela tinha lutado pra ganhar e perdera sem nenhuma explicação. Sem saber o que fazer, apenas repetia baixinho “Era só um casaco, você tem outros” e ela “mas não aquele!” ao que eu replicava “Mas você tem outros! Vai ver quem pegou não tinha nenhum! Era só um casaco!” e então eu percebi que não, não era só um casaco.

Meu filme e livro preferidos possui o mesmo título “Clube da Luta”. Muito mais do que a história de um louco que expelia sua indignação perante o mundo através de brigas clandestinas, para mim é a história de um novo estilo de vida, de uma nova sociedade, de um bando de macacos espaciais revolucionários, de um amor bizarro entre um cara que nem sabe quem é (não que algum de nós saiba), enfim, sob o meu ponto de vista, sir Chuck Palahniuk acabou criando uma filosofia de vida, ferrenhamente utópica, mas ainda assim uma filosofia. Muito provavelmente ele fez isso sem intenção e até deve ter estranhado os efeitos que tudo que escreveu naquelas páginas em branco foram capazes de causar na vida de tanta gente. Clube da Luta é, ou eu tento fazer com que seja, meu lema de vida. É um lema niilista em que posses não servem para nada, apenas para nos tornar um bando de bocós que esquece de pensar em toda a geopolítica e sociologia do mundo pois está encantado demais com o novo tênis da Nike de R$1959 que saiu na loja e ou você vai comprar a vista, ou parcelado, ou nunca vai ter (mas vai morrer de vontade mesmo assim). Tem uma frase que diz que só depois que perdemos tudo é estamos livres para sermos tudo e outra que diz que as coisas que a gente possui acabam nos possuindo. Meu coração borbulha vendo esse filme, lendo esse livro ou simplesmente ouvindo essas frases, pois além de poesia eu penso que é verdade. É a mais pura verdade. É uma triste verdade, daquelas que eu daria tudo para desvencilhar-me, mas que não consigo.

Eu comprei um porta-cartão de MacBeth, no Globe Theatre em Londres. Ele era lindo, tinha desenho de sangue e uma frase do texto – que infelizmente, não me recordo. Eu sempre quis ter um porta-cartão legal e eu comprei o meu, o mais legal de todos. Então eu fui ao cinema com o meu pai pela primeira vez na vida e fiquei tão empolgada com a situação que não sei onde o deixei. Com isso perdi a carteirinha de estudante que estava dentro e assim sendo, quando voltei ao cinema fui até o guichê e disse que tinha perdido minha carteirinha ali. Achei a carteirinha, mas ninguém sabia do meu porta-cartão. Naquele momento aquilo não era somente um porta-cartão, era o MEU porta-cartão. Porque quando a gente decide que possui as coisas, nossa relação com elas e com o mundo ao redor muda por completo.

Minha amiga disse “Você não tem nenhuma roupa que ficaria triste por perder?” e eu respondi que somente meu poncho azul. Ledo engano.

Outro dia, por exemplo, estava eu dentro do ônibus e sinto uma mão dentro da minha bolsa, olho para trás e um cara havia acabado de tirar minha carteira dali. Eu virei com cara de brava, apontei o dedo nas fuças dele e disse ”Você pegou minha carteira!”, ele negou e eu disse que eu havia visto que ele tinha pegado e então o empurrei e a carteira caiu no chão do ônibus, bem na hora em que o mesmo havia chegado em seu próximo ponto deixando a porta aberta livre para o fedelho fugir, enquanto eu pegava a carteira do chão, escondia ela embaixo de tudo na bolsa e mudava de porta. Naquele momento não havia nada mais importante para mim além de salvar a minha carteira. Porque não era só uma carteira, era a minha carteira, com as minhas coisas dentro.

Tenho pensado muito sobre os ensinamentos de Tyler Durden e talvez eles sejam realmente apenas ficcionais, quero dizer, nem meu irmão, que gosta e acredita nisso mais do que eu foi capaz de segui-los, pelo contrário, ele faz tudo o que Tyler diria para jamais ser feito! Talvez seja apenas ficção. Mas gente, é bom e verdadeiro demais para ser apenas isso! E se alguém um dia decidisse que a bíblia é só ficção, as pessoas deixariam de tentar segui-la? Duvido muito. As vezes eu sinto que a doutrina de Tyler é a doutrina da minha vida, a que deve guiar a minha vida. Não inteiramente, não sem exceções, não sem mudanças ou interpretações minhas, afinal, é a minha vida e não é um livro qualquer que me vai dizer como devo vivê-la, mas, mesmo assim, algo me diz que devo basear nem que seja uma pequena parte da minha existência para seguir os seus preceitos, porque, caros amigos, são preceitos mais do que verdadeiros.

As coisas que eu possuo já me possuíram. Eu deixei que isso acontecesse. Apeguei-me a elas. Tenho pensado no que eu faria caso de repente minha casa pegasse fogo, muito provavelmente eu choraria e entraria em crise existencial e só me consideraria apta a viver novamente após ter recuperado pelo menos grande parte das coisas, principalmente os livros. Com as roupas eu realmente não tenho muito apego, tendo em vista que grande parte delas são heranças de parentes que não querem mais usá-las e me dão. Mas os meus livros, bem, eu morreria por dentro caso tivesse que abster-me deles e creio que o mesmo aconteceria caso minhas barbies ou meu poncho azul desaparecessem, porque eu não possuo mais essas coisas, elas me possuem. Elas mandam em mim mesmo sendo meros objetos inanimados. Elas de certa maneira regem meu modo de vida e tornaram-se parte absoluta de minha pessoa. O que seria de mim sem a Mandy ou meus esmaltes, maquiagens e a bolsa do Jack Skeleton? A gente desde sempre aprende a fixar nossa existência na existência de outras pessoas e necessitamos de tanta autoafirmação que pessoas tornam-se pouco e precisamos de mais, cada vez mais e então surge nossa obcessão por coisas. Ter coisas simplesmente pelo ato de tê-las. Possuí-las. Porque é muito mais legal dizer que você TEM o livro tal do que você dizer que pegou ele emprestado na Biblioteca Pública. Porque é sensacional ter aquela Barbie que todos queriam, mas só você tem. Porque a gente gosta de ter coisas. Ao mesmo tempo, o que há de errado nisso, são apenas um bando de coisas, certo? Sim, mas a partir do momento que elas se tornam mais importantes para a gente do que outras pessoas, do que estudar, do que pensar, do que ser e do que viver, elas deixam de ser apenas coisas e passam a nos possuir. O computador me possui. Infelizmente. Eu não sou livre para ser ou fazer o que eu quiser porque estou aqui, cercada de grilhões perante… Perante meras coisas. Coisas que ninguém se importa e talvez ladrão algum pensasse em roubar, mas que para mim são muito mais do que isso. E se eu, que nem sou uma garota tão fútil, sou assim, imagino como devem ser aquelas garotas que nada sabem, nada fazem, nada sentem e nada são, mas tudo têm. A que bases uma pessoa assim se sustenta? Que tipo de vida uma pessoa dessas é capaz de levar?

Por fim, estou precisando ir a um grupo de apoio para uma doença que não possuo a fim de, tomara, encontrar o meu Tyler, que me guiará através das entranhas do universo e fará com que eu finalmente compreenda como é possível viver sem se deixar ser possuída por um emaranhado de objetos inanimados. Por muito tempo busquei o sentido da minha vida, a razão para ela existir e o que eu deveria fazer com ela, mas eu nunca tinha parado para pensar que essa decisão talvez não seja só minha, não caiba somente a mim, mas sim, também e inclusive a todas as coisas que eu tenho e que me detêm. Agora eu entendo os motivos para que uma grande pessoa que eu conheci me proibisse expressamente de chamá-la de “minha” qualquer coisa, ela não queria ser possuída pela minha pessoa, da mesma maneira que eu não quero – e me sinto deveras incomodada com quem acha o contrário. Porque a posse não é maléfica somente quando ocorre com objetos inanimados, pelo contrário, com os animados ela pode tornar-se ainda pior – ou melhor, depende do contexto. Tudo que sei é que meu contexto no planeta Terra, minha missão perante a humanidade é a mais simples de todas: esforçar-me ao máximo para ser livre a ponto de fazer com que as decisões a serem tomadas na minha vida sejam apenas minhas. Minhas e de mais ninguém. Pode parecer egoísta, mas a verdade é que quando eu estiver me acabando de chorar depois de finalmente ter coragem de doar minhas Barbies, quem estará chorando não serão todas as pessoas que conheço e digo amar, quem estará chorando e sofrendo será única e exclusivamente a minha pessoa. Porque há ocasiões em que ser egoísta é a única coisa que nos resta e, bem, torna-se correta. Afinal, tudo que é errado em determinadas ocasiões torna-se correto.

* Caso vocês queiram saber, quando minha amiga chegou em casa descobriu seu casaco em cima de sua cama. Ela havia esquecido-o em casa quando saiu e não perdido em qualquer lugar que fosse.

 

 

 

Brilho Eterno de uma Mente com Lembranças

Just because I don’t say anything doesn’t mean I don’t like you
I open my mouth and I try and I try, but no words come out.
Nothing Came Out – The Moldy Peaches

Eu sei que você me apagaria se pudesse. Sei que o fato de agir bobamente comigo está intimamente relacionado com isso. A verdade é que por mais que você diga e queira crer que gosta de mim, daria tudo para poder me apagar de sua mente. Isso é até engraçado pois eu sempre achei que seria eu quem iria implorar por uma lobotomia, mas no fim acabou sendo você. A razão eu realmente não compreendo, errei sim, todos erram e eu faço parte desse imenso hall de “todos”. Impossível seria não errar, tendo em vista que até você erra. Todos erram. A questão é que as pessoas costumam entender os erros alheios, ou pelo menos fingem. Tentam seguir em frente e fingir que nada aconteceu para que assim possam seguir alegres e saltitantes por aí, mas você não. Você é sincero e por mais que eu tenha admirado este fato por tanto tempo, nunca abominei-o tanto quanto agora. Queria que você soubesse mentir.

Eu não sou perfeita, mas você também não é. Eu me lembro de todos os meus erros e de todos os meus acertos. Eu me lembro de tudo. Dos seus também. E não tenho vontade de apagá-los. Achava que teria, mas não tenho. Tenho orgulho do meu passado e de cada passo que eu tomei em minha vida, pois foi por fazer exatamente o que eu fiz que parei aqui onde estou hoje e eu adoro o lugar em que me encontro hoje, adoro a pessoa que me tornei. Mas não gosto da que você se tornou. Talvez nossa convivência realmente tenha acabado com a tua vida e isso é terrível porque em nenhum momento foi o que eu quis, eu só queria que você fosse feliz. E assim sendo sinto-me na obrigação de lembrar que te fiz feliz, muitas vezes, incontáveis vezes, pelas mais diversas razões e motivos.

Você fez com que eu me sentisse assim e eu fiz com que você se sentisse assim também. Fui sua Clementine mesmo tendo o cabelo castanho. Mesmo sendo sem graça. Só que você criou a absurda e enfadonha capacidade de me apagar da sua vida, mesmo em um mundo em que lobotomia não é acessível. Provavelmente você se cansou de mim, da mesma maneira que eu me cansei de você tantas vezes por tantos momentos antes, a questão é que mesmo cansada eu continuava ali, com meu sorriso armado escutando pacientemente você me dizer tudo que tinha vontade. É claro que as vezes eu explodia, claro que as vezes tinha crises de honestidade e desabava a falar tudo que sentia vontade, claro que nesses momentos você estava ali, talvez fingindo-se de presente, talvez realmente estando, o fato é que estava e que isso me fazia bem. Fez-me bem por tanto tempo que nem consigo contar.

E quando eu já não podia lembrar da minha vida sem a sua ao meu lado, quando já não conseguia passar um dia inteiro sem pensar em você, algo aconteceu. Algo que até hoje não sei o que foi mas foi fatídico e nos fez viver separadamente por tanto tempo e até hoje, porque a gente conversava tanto e o tempo todo, mas mesmo assim tínhamos uma capacidade incrível de sermos completos desconhecidos um para o outro, como se em meio a tantas palavras, nenhum conteúdo fosse realmente emanado.

Talvez você tenha percebido isso, ou talvez tenha sido eu. Talvez tenhamos sido nós. O fato é que a percepção não agregou uma conversa realmente conversada e sim um afastamento terrível que me martirizou por muito tempo e com certeza te martirizou também.

Em muitos momentos eu cheguei a pensar isso e eu realmente conheci uma pessoa nova, mas nem ela em sua exuberância estupenda foi capaz de me fazer esquecer da sua existência prévia. Hoje começo a pensar que talvez ninguém nunca o faça e eu esteja condenada a viver sob sua sombra para sempre, como se todos os futuros seres que possam despertar em mim algum tipo de sentimento fossem na hora encobertos pela sombra da sua perfeição. Sei muito bem que você dizia que a perfeita era eu, mas a verdade é que sempre foi o contrário e eu em meio a todo meu amor por mim mesma não fui capaz de perceber.

Não sei se é por conta do cabelo de Clementine ou pela idade avançada chegando, o fato é que estou cansada de toda essa coisa de destino. De toda essa coisa que sempre insiste em acontecer com a minha pessoa. Será que as coisas não poderiam dar certo uma vez pelo menos? Será que eu não poderia ser feliz pelo menos por uma semana inteira? Eu queria ter nascido desprovida da capacidade de pensar, assim muito sofrimento seria evitado pela minha parte. Queria ter nascido desprovida da capacidade de sentir, como Effy que precisa parar no meio de uma rua e gritar para ser atropelada porque quer sentir algo, eu queria ter nascido simplesmente com algum mecanismo que justificasse o fato de eu ser capaz de estragar todos os momentos, até os que eram para ser bons! É como se o Deus da Carnificina não parasse de rondar a minha pessoa nunca e quer saber? Isso cansa. Cansa demais.

Queria ter coragem e meio de fazer com que você não me apagasse da sua mente. Lembrasse de mim para sempre. Não que eu queira continuar de onde paramos, não que eu queira algo relacionado à sua pessoa. Não que eu não queira também. Minha vontade é unicamente de fazer com que você lembre-se de mim da mesma maneira que eu insisto em lembrar da sua pessoa. Que você sinta por mim a mesma coisa que eu sinto por você. A mesma vontade tremenda de fazer uma lobotomia ao mesmo tempo que prefere uma penseira e ao mesmo tempo que prefere nada, apenas a liberdade para poder continuar pensando no que quiser quando quiser, sabendo do que aconteceu e porque aconteceu. Hoje eu queria ter razões para acreditar no amor novamente. Porque eu acredito, com todas as minhas forças, em todos os momentos, mas hoje, particularmente hoje, está difícil. Hoje eu sonhei com você. Hoje eu reli nossas conversas. Hoje eu assisti a um dos meus filmes preferidos debulhando-me em lágrimas. Hoje eu soube que um dos amores que jurei serem eternos acabou. Hoje quis com todas as minhas forças incorporar a Clementine, entrar na sua cabeça e implorar para que continue a lembrar de tudo para sempre, como eu. Para que tenhamos pelo menos isso em comum. Creio que é só o que nos resta. Lembranças. Pode parecer ruim, mas não é. Não é a melhor coisa do mundo, isso é fato, mas também não é a pior. Seria pior se as lembranças não existissem, por isso a urgência em fazer com que você as mantenha vivas. Mesmo hoje eu ainda quero que você fique bem, que você esteja bem e que você seja absurdamente feliz. Enquanto rogo aos céus, ao destino e a sorte para que eu também siga pelo caminho da luz e possa sair emanando sorrisos belos mundo a fora.

É tudo que eu peço.

Seja meu Joel para que eu possa de fato ser sua Clementine. Quem quer que seja você.

P.S.: Esse texto faz parte de um meme em que eu deveria reciclar o título de outra blogueira. Quem será ela?