Minha experiência com Pokemón

      Nascida em 1994, tinha apenas dois anos quando o desenho animado de Pokemón foi ao ar. Assisti a poucos episódios e meu acesso à franquia se encerrou no ano de 2000. Meu irmão, cinco anos mais velho do que eu, pôde aproveitar mais as “outra realidades” do desenho, que nunca se contentou com apenas passar na televisão. Logo de início, Pokemón tinha tazos, jogos de carta, bichos de pelúcia, diversos outros tipos de brinquedo, em 2000 foi lançado o primeiro filme da franquia e a coisa foi crescendo. Foram jogos de videogame, computador, gameboy e demais videogames portáteis. Novas temporadas, novas gerações. Quadrinhos, novos filmes, novos Pokemóns e a franquia nunca deixou de se expandir, explorando as mais diversas mídias.

      Durante a adolescência voltei a assistir os primeiros episódios do desenho animado. Ele me trazia grandes recordações sobre a infância. Ver Ash com seu Pikachu, sempre fugindo da Equipe Rocket e tentando ganhar várias batalhas eram coisas que moveram meus dias na infância e, entrar em contato novamente durante a adolescência, foi bem bacana. Mas não me identifiquei com as outras gerações e, para mim, o desenho é apenas a parte do Ash, Misty, Pikachu, Jesse, James e Miau. Quando entram outros treinadores para substituir o Ash eu já não consigo prosseguir na história.

      Não lembro exatamente as razões, mas consegui acompanhar Digimon por mais tempo durante a infância. Esse desenho eu consegui ver até o final da segunda geração. Talvez fosse alguma coisa na própria narrativa, que me chamava mais atenção do que a do Pokemón. O fato é que, enquanto ainda me lembro o nome de vários Pokemóns e de várias coisas que vivi por causa deles, não me recordo com exatidão sobre os Digimons. Exceto a música inicial, nada passa pela minha cabeça.

      Eu nem lembrava que Pokemón ia completar vinte anos esse ano. Nem imaginava que surgiria algo para reviver a série e repopularizá-la. Os últimos desenhos animados que tentei acompanhar não me agradaram – com exceção de Phineas e Ferb. Aparentemente as coisas que chamam atenção da geração atual são muito diferentes das que chamavam atenção na minha época. Não consigo entender como alguns dos desenhos atuais fazem sucesso e isso acaba gerando um extenso saudosismo em minha pessoa.

Qual minha reação ao saber sobre Pokemón GO

       Ao saber da existência de Pokemón GO, fiquei imediatamente empolgada. Porém, não imaginei que chegaria ao Brasil tão cedo. É claro que o mês de ansiedade, ao vermos que o jogo já estava disponível em outros locais e aqui ainda não, fez com que eu tivesse uma fagulha de esperança. Acredito que as Olimpíadas tenham sido uma grande razão para que o jogo tenha chegado aqui já e fiquei bastante contente com o fato.

Porque gostei do jogo:

     Ao contrário das pessoas que acreditam que os games são antissociais, eles geram inúmeras amizades e relações. Um jogo como Pokemón GO, porém, leva tudo para um novo nível. A “antissocialidade” dos videogames era justificada pelo fato de que os jogadores passavam muito tempo em suas próprias casas, parados. Além de antissociais, videogames eram sinônimos de sedentarismo. Isso começou a mudar um pouco com o Nintendo WII e o X-Box 360, que só eram possíveis de ser jogados com movimentação do corpo. Mas eles não eram tão acessíveis. Consoles caros, com jogos igualmente caros e que demandavam um preparo para instalação e foco exclusivo. 

      Os consoles portáteis não são novidades. Tivemos o famoso GameBoy e também o DS, 3DS e o PSP. As pessoas estão acostumadas a andar por aí jogando. Mas a interatividade com os jogos portáteis era menor do que aquela exercida em consoles como o WII. A existência do Smarphone ampliou os horizontes do universo de games. As pessoas deixaram de “utilizar” a tecnologia e passaram a conviver e compartilhar sua existência com ela. Se antes existia um ritual para conectar-se à internet discada e era necessário ficar parado, em frente a um computador fixo, por um determinado número de horas, para realizar as atividades online, atualmente as pessoas podem dormir e acordar conectadas em seus celulares. Podem utilizar a internet em qualquer local, a qualquer momento e sem precisar se preocupar com a linha de telefone, que antes ficava ocupada. A internet passou a ser um “sexto sentido” e a conectividade instantânea deixou de ser um sonho distante, de forma que alguns aparelhos eletrônicos se tornaram extensões de nós mesmos.

      Pokemón GO veio no momento certo. Capaz de explorar todas as potencialidades desse momento de extrema conectividade e necessidade de compartilhamento, o jogo proporciona que as pessoas saiam de casa, se exercitem e interajam com outras pessoas a fim de realizar as atividades pertinentes. Em poucos dias no Brasil, já houveram inúmeros relatos de pessoas depressivas e com fobia social que saíram de suas casas após meses para procurar Pokemóns. Outras pessoas, que precisavam de uma motivação para se exercitar, acreditam que o jogo lhes proporciona isso. Para aqueles que gostam de viajar, o jogo é a desculpa perfeita – afinal, é uma nova forma de encontrar Pokemóns e participar de batalhas. Para as pessoas que gostam de ficar em casa, ele também funciona. Há maneiras de encontrar Pokemóns em sua própria casa, seja ela próxima a uma Pokestóp, ou ainda utilizando de um artifício do próprio jogo, chamado “incenso” e que serve como chamariz para os Pokemóns da proximidade.

Problemas que encontrei no jogo:

      É claro que a intuição não é tudo e, apesar de o jogo ser fácil de entender, temos algumas considerações a fazer, em se tratando do cenário brasileiro. Em primeiro lugar, é um jogo que demanda o uso de internet. Apesar de vivermos conectados, não moramos em um país que provê internet gratuita nas ruas e a velocidade da internet de alguns locais não é adequada. Além disso, não são todas as regiões do país que têm a mesma facilidade de conexão. A internet fornecida pelas operadores de celular não são lá essas maravilhas. Há vários “pontos cegos” de conectividade pelo país, há diversos fatores que enfraquecem o sinal e há o fato de essa ser uma internet cara, dificultando o acesso. Outro fator dificultador do acesso é que para o jogo ser instalado é necessário uma configuração específica do telefone. Não sei se é o mesmo para quem utiliza IOS, mas há vários celulares Android e Windows Phone que não são compatíveis com o jogo. Considerando que os aparelhos celulares têm um custo bastante elevado no Brasil, é de se esperar que a grande parte dos usuários de smartphone não possua telefones compatíveis com o jogo. O terceiro fator complicador é o fato de que a interface do jogo ainda é disponível apenas em língua inglesa. 

      Dessa forma, para que a pessoa more no Brasil e seja bem colocada no jogo, necessita ter conexão boa, acessível e ilimitada à internet, precisa ter um celular dos modelos mais recentes (e caros) e ainda precisa entender inglês. Segundo diversos dados estatísticos, sabemos que mais de metade da população brasileira não cumpre esses três requisitos. Então, a diversão acaba restrita a determinadas classes sociais e os espaços que elas ocupam – apesar do jogo mapear e utilizar todo o espaço urbano.

        Enquanto os desenhos de Pokemón passavam na TV aberta, sua história era acessível a todas as crianças daquela geração. Quando os produtos começaram a ser comercializados, a quantidade de pessoas capaz de adquirir e se manter no hype foi diminuindo. Em 2016, acredito que grande parte das atuais crianças e adolescentes não tenham tanto contato assim com a franquia e muito provavelmente o jogo é um fator nostálgico para as crianças dos anos 90/2000, mais do que um fator de apreciação das novas crianças e jovens. Por outro lado, a geração atual nasceu na era de conectividade e vai se dar muito bem com o jogo. Como ele teve um lançamento popular e apareceu em praticamente todos os meios de notícias que existem, os mais novos também irão se interessar por ele. Mas, de novo, não é todo mundo que vai ter acesso – apesar de ser um jogo gratuito.

      Além dos fatores básicos de dificuldade de acesso ao jogo, temos outros pontos contextuais brasileiros, como o fato de ser bastante perigoso andar nas ruas com um celular de primeira linha nas mãos. A coisa piora quando para pegar Pokemóns você precisa se expor em locais as vezes desertos e mal frequentados. Especialmente as meninas, que andam na rua com medo todas as vezes que saem sozinhas de casa, já estão tentando criar formas alternativas de jogar, optando por marcar encontros com outros jogadores, a fim de caçarem coletivamente. É necessário ficar atento aos locais que o jogo leva e, pelo fato de demandar andar pelas ruas, não é recomendável que seja um jogo para crianças desacompanhadas.

Veredito do momento:

        Desde o lançamento, há várias polêmicas em torno de Pokemón GO, devido a acidentes, roubos e outras atividades ilícitas relacionadas com o jogo. Há também o fato de que ele utiliza GPS e câmera, de forma que alguém com acesso às informações do seu celular consegue outros níveis de rastreamento.

       Eu, que não tenho coragem de sair de casa com o celular na mão e nem dinheiro para utilizar a internet da operadora, limitar-me-ei a jogar em locais com WiFi, mas com bastante cuidado e atenção. Inclusive, atenção é uma das coisas que precisa existir, pois é a única coisa capaz de evitar acidentes possivelmente graves. É um jogo muito legal, muito novo, muito diverso e bastante inovador, diferente de todos os jogos que já existiram e um pontapé bem real para a futura experiência de games de realidade virtual. Mas é necessário ter cuidado e consciência de que, apesar de disponível em quase todo o mundo e gratuito, não é um jogo para todos. E excluir as pessoas que não têm acesso ou interesse é a pior coisa que pode acontecer no momento. Assim como achar que, por ter acesso, você é melhor que alguém.

      Acredito ser bastante necessário prestar atenção nas crianças e adolescentes com a chegada desse jogo. Ele pode trazer problemas, por causa do espaço, do dinheiro que eventualmente seja gastado e, principalmente, problemas de convivência. Crianças e adolescentes podem ser excluídas de seus grupos sociais por não gostarem ou terem acesso ao jogo e isso tem que ser revertido, exemplo: se eu filho tem acesso e gosta do jogo, mas conhece alguém que não, ensine-o a compartilhar o jogo com o coleguinha (desde que seja alguém de confiança). Ou seja, apareceu o Pokemón, cada um tenta x vezes acertar a pokebola ou então fazem um revezamento, primeiro Pokemón fulano pega, o segundo é do ciclano. Outra opção, caso a pessoa não tenha interesse/goste do jogo é ensinar as crianças e adolescentes a não excluí-la ou diminuí-la por isso, é uma boa oportunidade de ensinar respeito, por exemplo.

           Por fim, a todos que estão jogando e se divertindo: que assim seja! Deixo vocês com um pouco de nostalgia.

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