The Day of The Doctá

Eu nunca tinha ido ao cinema sozinha. Sempre achei um ato absurdo o de ir ao cinema sozinha. Ninguém é tão sozinho a ponto de não achar um coleguinha sequer que esteja apto a suprir sua necessidade de cinema. Ninguém é sozinho ao ponto de ter muita vontade de ver um filme e não conhecer ninguém que compartilhe de tal vontade. Ir ao cinema sozinho sempre me pareceu o cúmulo da solidão, o enterrar-se no fundo de seu próprio poço. E todas vezes que minha vontade bate eu saio chamando cada uma das pessoas que se dizem minhas amigas até que alguma aceite minha proposta e nós, saltitantes, aproveitemos as maravilhosidades cinematográficas. Não que hajam tantas. Neste ano, aliás, creio ter visto apenas um ou dois filmes que realmente compensaram o ingresso, o resto é puro prazer banal de uma viciada em salas escuras repletas de gente, pipocas gigantes e amanteigadas e pessoas do seu lado pra você apertar no momentos de tensão e sorrir olhando nos olhos e chorar enquanto fala “eu não estou chorando, é só um cisco”. Nunca precisei recorrer à solidão em tal momento da vida. Sempre pensei que em meio a tanta solidão, o ritual cinematográfico deveria estar sempre bem acompanhado. E foi assim que eu vi filmes que nem lembro o nome ou o motivo para estar lá, foi assim que convenci minhas amigas a irem em cinemas obscuros só pra satisfazer aquela vontade mordaz. Foi assim que gastei rios de dinheiro super-faturado naquela pipoca absurdamente cara, mas essencial e foi assim que atrapalhei absolutamente todas as salas de cinema em que pisei com minha risadas histéricas, meus gritos aleatórios e meus comentários em momentos impróprios, que juro que eram pra ser cochichos, mas eu falo alto e, ai, as pessoas escutam. E ficam bravas. E chutam minha cadeira e falam “shiu” e isso me faz rir mais ainda, porque o mundo pode estar terrível, um caos, absurdamente péssimo. Mas o cinema salva.

Em meio à nostalgia causada no momento em que sentei naquela sala escura e meus olhos marejaram de emoção, lembrei-me da primeira vez que fui ao cinema. Tarzan. Eu tinha quatro anos e consigo lembrar exatamente de eu sentada na poltrona vendo a mãe dele olhar na minha cara, aquilo foi mágico. Mamãe insiste em dizer que já havia me levado para ver outros filmes antes deste, mas Tarzan é o primeiro que eu lembro. Depois dele vieram vários outros, “As Meninas Super-Poderosas”, que foi o primeiro filme que vi com meu pai e ele saiu da sala em 10min de história para ir fumar e nunca mais voltou e foi bem traumático, porque eu era criança e estava numa cidade desconhecida e não tinha ninguém pra rir das piadas comigo. “Procurando Nemo” e sua história interessantíssima pois mamãe entendeu que o nome do filme era “Procurando Demo” e só aceitou ver comigo depois de um longo papo persuasivo com a vendedora de ingressos. Pulando um bom espaço de tempo, vamos para a estreia de “Harry Potter e o Enigma do Príncipe” que eu nunca tinha visto nenhum filme da saga e comecei a chorar desesperadamente porque o Gandalf tinha morrido e AI DE QUEM tentasse me convencer de que não era a mesma pessoa. Velhinhos barbudos morrendo sempre serão o Gandalf e isso sempre será desesperador (Desculpa J.K, você sabe que depois desse fato eu passei a apreciar a sua obra, mas que meu coração sempre será Tolkienano). Então vieram as pré-estreias da saga “Crepúsculo” que eu devo confessar, li os livros em uma semana, achei o máximo, mas nunca vi filmes tão entediantes quanto aqueles. É claro que as amigas persuasivas e a falta do que fazer me fizeram comprar ingressos muito antecipadamente e passar horas e horas na fila, lembro-me que para esperar por “Lua Nova” foram DOZE horas, sentada no chão do shopping, conversando com desconhecidos e comprando ingressos de quem não queria mais pelo preço normal para depois revender um pouco mais caro e conseguir pipoca grátis. Bons tempos. Então vieram os filmes finais de Harry Potter e as pré estreias deles, que também foram absurdamente geniais, com camisetas temáticas e mil e um cosplayers na fila, o que fizeram meu coração morrer de emoção.

Hoje, pois, sozinha. Depois de três dias tenebrosos em que uma dor violenta surgiu porque não sei sentar e eu acabei não conseguindo me sentar, tendo que ficar deitada na mesma posição na cama eternamente. E ia passar “The Day of The Doctor” no cinema há duas quadras da minha casa. E eu simplesmente ia surtar se não conseguisse ir. Há uns três meses Milena me falou deste episódio comemorativo lá no facebook e a gente gritou histéricamente chateadas porque nosso sonho de viajar para Londres para ver juntas não se tornaria realidade, mas queria que ela fosse em SP, porque lá passaria o filme, aqui não tinha nada dizendo sobre no site, para minha enorme frustração. Eis que, no meu e-mail semanal de programação de cinema vem escrito que haverá uma sessão sábado e outra domingo e eu simplesmente tinha que ir. Não que eu seja Whovian, porque a série tem 50 anos e eu só vi três temporadas e meia, mas foram três temporadas e meia de algo tão essencialmente marcante e fantástico que me fizeram amar pakas mesmo mal conhecendo. Fora isso, há as influências de amigos chatos que só falam disso o dia inteiro, e, de repente, em todos os lugares que vou há alguém mencionando algo relacionado à Doctor Who. Era impossível eu não querer saber o que era isso. E eu quis. E fui enfeitiçada.

É claro que eu poderia ter persuadido algum dos meus incríveis amigos a ir comigo nesta empreitada de vida, mas eu sequer sabia se conseguiria ir, dado meu estado físico e o psicológico, completamente instável por causa dos remédios que venho tomando. O plano era ficar tonta, desmaiar e chorar copiosamente, até me convencer a baixar o episódio e assistir na pacata tela do meu computador. Só que não. Sexta feira consegui 30 minutos de estabilidade e fui em busca do meu precioso ingresso, custou VINTE REAIS a meia entrada, o que achei um tremendo absurdo, mas não tinha como recusar, porque era Doctor Who. Era em 3D. Era a duas quadras da minha casa. É claro que não tinha mais ingresso pra sessão oficial, mas empresas de cinema são espertas e fizeram uma sessão extra, então eu consegui meu bilhete dourado, que na verdade era branco, e que me daria passagem ao melhor universo paralelo do mundo.

Após um sábado agonizador no qual passei a questionar toda a minha existência e tinha me resolvido de que passaria o domingo dormindo, senhor Horóscopo (que meu pai nunca saiba que acredito nele, por favor) me diz que domingo seria um ótimo dia para mergulhar em mim mesma, fazendo coisas como ir ao cinema sozinha. Confesso: eu tenho medo de ir ao cinema sozinha. Não tem a menor graça ver o filme da sua vida sem alguém muito querido do seu lado pra você apertar e gritar “AAAAAAH”, mas ok . Após ouvir que o episódio era realmente bom e épico, não pude deixar de tomar todos os remédios possíveis e passar todas as pomadas possíveis e dormir no melhor colchão na casa, estática, a fim de acordar com as costas fortes o suficiente para serem capazes de me manter em pé. E eu consegui. Acordei às nove horas em pleno domingo, algo que jamais faria, passei mais pomada, tomei mais remédio, fiz alongamentos, comi e fui.

A sessão começaria às onze horas e eu tinha a mais absoluta certeza de que haveria uma fila descomunal à espera de deixarem entrar na sala. Mentira. A fila descomunal era fora do shopping, porque ele ainda estava fechado! Entrei no meu lugar e quando o shopping abriu tirei forças sei lá da onde e saí ultrapassando todas as pessoas lerdas, as que não sabiam qual era a escada rolante que subia e as que cometiam outros erros do tipo. Por favor, vou nesse shopping pelo menos uma vez por semana a vida inteira, eu sei ele de cor, me deixem passar. E eu passei e ultrapassei mocinhos e velhinhos que comentavam toda a história de Doctor Who e consegui chegar na fila, que já estava grande (imagina se eu tivesse ficado pra trás, humpf). A espera para entrar foi ínfima. Recebi meus óculos 3D e como não tinha comprado pipoca, era mais fácil ainda de ultrapassar pessoas. Ultrapassei, ultrapassei e ultrapassei. E consegui um lugar no meio da penúltima fila, exatamente do jeito que eu gosto. É claro que não poderia sentar bizarramente como sempre faço, porque minhas costas não deixariam, mas ali, sentadas, elas se sentiram confortáveis e até pararam de reclamar de meus maus tratos para com as mesmas.

Traillers e mais traillers, nenhum que eu não tenha visto. Aí aparece o primeiro alien, só que não, o filme não tinha começado. As instruções de segurança e o falatório sobre não desligar o celular foi genialmente dito por personagens do próprio Doctor Who, incluindo dois Doctors. E naquele momento, ah… Naquele momento eu não conseguia mais pensar em nada. Os olhos marejavam, eu não acreditava que tinha conseguido vencer minha própria epopeia, que estava no cinema sozinha ao lado de duas amigas surtando juntas e pensando que eu não teria ninguém pra surtar comigo. Naquele momento minha pena pelos casais que não conseguiram lugar juntos foi embora, minha dor nas costas nem pareceu existir e eu estava ali. Infinitamente ali. Completamente focada ali. Naquele momento. Que jamais voltará. Que foi único. E que foi meu.

Nem preciso comentar que o filme foi absurdamente maravilhoso, que Billie Piper diva salvou o universo e que eu chorei como se fosse fã convicta há cinquenta anos. Nem preciso comentar que fiquei eternamente chateada porque queria MUITO poder rever o filme no cinema, mas não vai mais passar e eu nunca mais vou ver pinturas em 3D. Nem preciso comentar que o episódio está sendo baixado no meu computador neste momento porque eu simplesmente preciso rever. Porque o plot foi incrível. Porque os atores são incríveis. Porque a Inglaterra é maravilhosa. Porque TARDIS é a melhor invenção da humanidade e porque eu insisto em suspirar ridiculamente a cada vez que lembro do que acabei de viver.

O filme terminou. A música que eu nem sei se tem nome, mas pra mim é a música do Doctor, começou a tocar. As luzes da sala se acenderam. A tela ficou preta. E ninguém conseguiu se levantar da poltrona. Cada um ali, preso em seu universo particular atrelado a tantos outros universos. Todos ali, vivendo solitariamente sua gigante efusão. E eu morrendo de fome, sem conseguir raciocinar pensando mil vezes antes de levantar da cadeira para não levar um tombo e obtendo êxito em minha empreitada. Saímos da sala, todos nós. E eu fui ao cinema sozinha pela primeira vez na vida. E eu não morri. E eu vi o que pra mim foi o melhor filme visto no cinema este ano.

E é claro que quando saí da sala mandei mensagens de voz histéricas pras pessoas, porque fazer tudo e não compartilhar com ninguém era ser algo muito diferente de eu mesma.

Toda vez que isso for mencionado, será lembrado como um sonho. Um sonho vivido e realizado.

2 thoughts on “The Day of The Doctá

  1. Só posso dizer que: AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHH
    E claro que você é uma Whovian. Fandoms podem ser cruéis e exigirem conhecer o nome do papagaio do avô do ator que fez uma participação especial em 1987, mas isso pe besteira. Acho que um fandom só é válido enquanto for uma comunidade verdadeira, e não só uma carteirinha de fã clube. E DW é muito sobre comunidade, sobre compartilhar sensações e reflexões sobre os episódios.
    E cara, o que foi aquilo? Sério, dá pra fazer tcc sobre The Day of the Doctor. Quero teorizar com você sobre isso. Sdds vida em que víamos juntas no cinema.
    <3

  2. Sabe que depois de tanto ouvir falar desse assunto e me sentir uma alienada completa, quando vi o título do seu post abri o netflix e pensei que precisava ver. Mas aí você citou ALIENS. E a Mi e a Tatá já tinham falado que eu não ia gostar disso, e gente, aliens. Demais pra mim. Não consigo levar a sério nada que tenha alienígenas no contexto. Mas amei seu post, apesar de ficar preocupadíssima, e to indo já te caçar pra saber o que está acontecendo com suas costas! 🙁

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