The Fearless

Eu tenho medo do novo. Simples assim. Acredito ser por isso que eu nunca experimentei salsicha ou refrigerante, nunca tive coragem de beber ou de fumar ou qualquer coisa assim. Deve ser por isso também que eu reluto a ouvir músicas novas, gostar de artistas novos, adentrar no universo de novos seriados e todas as outras coisas que envolvem um universo de coisas desconhecidas. Não é que eu seja controladora, eu só gosto de saber o que esperar e o que vou encontrar por aí e quando eu não sei fico desesperada.

Todos os domingos pré-primeiro dia de aula resumem-se a revirar-se na cama por oito horas, enquanto escrevo textos aleatórios e completamente desesperados para as pessoas que costumavam compartilhar comigo os momentos letivos e por algum motivo não o fazem mais, para os que ainda fazem e para os que eu não conheço mas conhecerei, para os professores, planos e metas para como agir no novo ano e uma porção de listas que quando eu chego em casa na segunda-feira amasso e jogo fora por achar completamente desnecessárias.

Hoje (como ainda não dormi me refiro à segunda-feira 06/02) andando pela rua encontrei várias pessoas vestidas com meu antigo uniforme escolar. Hoje foi o primeiro dia de aula delas. Há um ano eu estava extremamente ansiosa porque estaria finalmente no terceiro ano e triste porque ia ter que parar de fazer teatro, ou seja, a única coisa que gosto de verdade na minha vida, para perder meu tempo estudando matérias que eu odeio para provar para o mundo que sou boa o suficiente para acertar uma quantidade x de questões numa prova tosca o que, supostamente, provaria que sou apta para entrar num nível avançado de estudo e futuramente no mercado de trabalho com habilidades suficientes para renderem uma remuneração suficiente para sustentar a mim e a minha dezena de filhos que virão um dia. Hoje andando na rua e vendo essas pessoas eu senti um frio terrível no estômago e não conseguia parar de pensar em “por que diabos eu faltei o primeiro dia de aula?” e quando me lembrava que aquilo não me pertencia meu estômago se revirava e eu ficava morrendo de vontade de correr atrás daqueles seres portadores de um uniforme preto mortífero para dizer que deveriam se acalmar e não mensurar suas vidas naquele ano que provavelmente seria inútil e lembrado como o pior de suas vidas. Porque muitas coisas boas aconteceram em 2011, mas nada fará com que ele deixe de ser o pior da minha vida. Senti pena daqueles seres, mas agora sou ciente de que vestibular é uma fase necessária para o crescimento e amadurecimento de todos nós, sobreviventes desse sistema insano. Depois que passa vira apenas um pequeno degrau em sua vida, torna-se praticamente nada. Ainda bem que passou.

O fato de ele ter passado, porém, significa que um universo IMENSO de coisas novas foi criado do nada ao meu redor. Eu nunca me imaginei estudando em uma universidade, ainda não consigo, mas estudarei. Estou muito longe de me sentir plenamente preparada para isso, a prova é que eu tenho chiliques monstros quando qualquer coisa a respeito está perto de acontecer. Quase não consegui sair de casa pra ver o resultado do vestibular, quase me matei na madrugada antes da matrícula e estou tentando não pensar ou prever como será a madrugada antes do meu primeiro dia. Só de pensar nele tenho calafrios. As vezes até penso que voltar para o terrível terceiro ano seria melhor do que ir para a faculdade, porque eu já domino o universo de fim de colegial, enquanto o de início de faculdade é completamente desconhecido para mim e eu não consigo continuar caminhando se não posso olhar para o caminho, vai que estou na beira de um penhasco e caio se der mais um micro-passo? Devia ter o direito de saber o que vai acontecer no dia seguinte antes de que amanheça.

Então 2012 mostra-se ainda mais surpreendente do que poderia ser. Além do resultado positivo no vestibular, o que significa 4 anos garantidos na minha vida, pude realizar um grande sonho de infância, fazer aula de francês! Só fui a uma por enquanto, mas está sendo maravilhoso e eu consegui sentir energias maravilhosas lá e o mais maravilhoso foi que pela primeira vez na minha vida eu estava tão empolgada com a novidade e com o fato de estar realizando um sonho que não pirei com o primeiro dia. Consegui agir naturalmente, comunicar-me com calma e cumprir todas as atividades propostas sem nenhum grande mico. Olhei nos olhos de todas as pessoas e não senti meu coração pertinho da minha boca pronto para sair galopando por aí. Fui tranquila e deu tudo certo. Fiquei orgulhosa de mim mesma. Fora o francês, também entrarei na aula de guitarra! A matrícula desta será feita nessa semana ainda, semana passada foi o teste de nivelamento e eu consegui fazê-lo sem sentir uma avalanche no estômago, sem ficar tonta, sem quase desmaiar, falando todas as palavras sem nada de errado no meio, consegui ser civilizada e não passar vergonha e acho até que conseguirei ir às aulas sem ter vergonha por estar lá. Magnífico! Mas o mais maravilhoso de tudo está ligado com nada mais nada menos do que o teatro.

Desde que eu faço teatro sempre encontro professores dóceis e fofos que não me dão grandes broncas e não exigem tanto de mim, fazendo com que eu não me esforce tanto e não seja muito boa atuando. Então esse semestre teremos teatro infantil, o monstro no universo teatral para mim, a pessoa que todos dizem para crescer e insiste em não querer crescer, mas no momento acha que está realmente na hora de crescer e está tentando se manter o mais afastada possível de infantilidades e afins. Mas eu resolvi encarar esse monstro. Ficar cara a cara com ele e mostrar que eu sou melhor. Que eu consigo fazer uma peça infantil sem ser completamente infantilizada. Porém, esperava que para me ajudar com isso surgisse um professor dócil e meigo como sempre, só que surgiu a professora que eu sempre tive medo naquela escola e que eu nunca quis ter aula com. Quando eu descobri que teria aula com ela, surtei. É completamente normal que eu surte por qualquer coisa, mas neste caso nem eu sabia porque eu estava surtando. Agora eu sei. Surtei porque não tinha medo dela por ela parecer ruim, pelo contrário. Tinha medo por ela parecer tão boa que exigiria demais de mim e eu acabaria decepcionando ela, meus pais e principalmente a mim mesma ao descobrir que não nasci para ser atriz. Porque, sinceramente, se eu não tiver nascido para ser atriz não faço ideia de para o que foi. Então hoje eu tive a primeira aula com ela e foi nada além do que magnífico. Uma experiência surpreendente e arrebatadora. Simplesmente pelo fato de ela ser intensa e com a intensidade dela nos transmitir intensidade. Ela é observadora e nos critica na lata mesmo, exatamente o que eu sempre precisei. Convenhamos que as mães cumprem bem o papel de nos elogiarem não importa o quão ruim a gente seja em tal quesito. Eu precisava de alguém que apontasse todos os meus erros, acertos e me ajudasse a crescer. Ela pediu para que eu me apresentasse e eu o fiz olhando para os olhos dela e falando tudo o que eu achava que deveria ser dito, sem medo de errar ou  de ser criticada, apenas falei. Porque eu tinha a absoluta certeza de que ela não se privaria em falar nada para mim. E sinceridade sempre foi o meu forte. Após eu expor todos os meus medos relevantes no momento e toda a minha existência teatral ali eu a ouvi dissertar a respeito de minha fala, vi os outros alunos rirem do meu modo de falar, ouvi atentamente e senti firmeza. Senti segurança. Fui capaz de acreditar que vamos crescer juntas. Que vou conseguir vencer meu monstro do infantil e que vou conseguir crescer como pessoa enquanto faço isso. O semestre nem começou e eu já aprendi muitas coisas com ela, sendo a principal algo clichê que eu sempre ouvi e nunca me dei tanta conta quanto hoje: temos que ser autênticos. Exatamente quem somos, sem nos importar quem se incomoda com isso porque nós somos artistas e artistas são assim, incomuns. Se fosse para eles serem comuns eles seriam médicos ou advogados, mas não. Eles são artistas. Nós somos artistas. E isso significa que podemos ser médicos, advogados, homens, mulheres, crianças ou idosos. Podemos ser absolutamente tudo o que quisermos ao mesmo tempo que somos nós mesmos. Difícil? Sim. Mas explica a razão por eu nunca ter decidido que profissão “comum” seguiria. Acho que a resposta ideal seria nenhuma e todas ao mesmo tempo. É isso que é ser artista. É o que é ser eu. E eu fiquei com uma imensa vontade de pular no pescoço da dita professora e agradecê-la de joelhos por finalmente ter me feito enxergar que eu ser diferente não é ruim, pelo contrário, é uma vantagem maravilhosa que eu devo aprender a explorar.

Por fim, eu devo dizer que venho lido muitos textos a respeito de listas a serem seguidas ao longo do ano, como as 366 fotos, os 366 days of grateful etc. Não aderi a nenhum e estou mais para o projeto 21 da Ana Char, que resolveu tornar 2012 um ano para vencer desafios próprios. Sei que já estamos no segundo mês do ano e estou meio atrasada para as provisões a serem tomadas nesse espaço de tempo, no entanto, só cheguei a essa conclusão no momento. Nesse ano eu vou crescer. Não que eu vá virar uma adulta boba que pensa em ganhar trilhões, ter uma casa com quintal grande e um par de filhos. Vou crescer no sentido íntimo da palavra. Vou me conhecer melhor, explorar minhas dificuldades, vencer meus medos, ser o mais fearless possível. Esforçarei-me para isso. Vou encarar cada desafio sem preconceitos e sem julgamentos e fazer o que considero sensato em todas as situações, sendo exatamente quem eu sou, ao invés de ficar me modelando pelos outros. Vai ser difícil, eu sei. Posso decepcionar muita gente, eu sei. Mas hoje eu descobri que de nada adianta estar rodeada por um milhão de pessoas super felizes por quem você é se ser você não lhe agrada e eu resolvi ser uma Mayra que me agrade porque está passando da hora.

Então, que venha a faculdade, o francês, a guitarra, o infantil, o canto e a dança no futuro, um estágio talvez, os amigos universitários, os amigos músicos os poliglotas e os artistas. Venha quem tiver que vir. Estou preparando minhas armaduras e os encararei de frente. Espero ser tão forte quanto imagino.

Porque se o mundo realmente acabar esse ano, terá sido o melhor ano da minha vida.

0 thoughts on “The Fearless

  1. Você é a Mayra, do jeitinho que eu conheci e amo, dançando loucamente na primeira aula da improvisação quando ainda tava todo mundo tímido. Você é a Mayra que tem medo, mas os encara, e nunca, NUNCA, foge, e eu estou com muito orgulho de você ter erguido a cabeça e encarado essa aula. Depois desse relato fiquei ansiosíssima para ter aula com a Janja. Como tenho uma severa impressão de que isso acontecerá no contemporâneo, estou feliz! Sempre me encanto com esses professores que dão um soco no nosso estômago mostrando que sabem mais de nós que nós mesmos. Me apaixonei pela Airen, e ela vai ser pra sempre a minha número 1, mas acredito que ter aulas com a Janja devem ser um ensinamento e tanto!! Aliás, com todos. Com a Gabi eu entendi o que era parceria, amizade verdadeira, sinceridade. Com a Airen eu aprendi.. ah não, se eu for falar da Airen esse comentário seria infinito. Com a Livien eu aprendi que a gente não pode se cercar de barreiras, e certamente vamos aprender muito agora com a Liz e com os outros 2 (DOIS, SÓ?) que viram! Ah, cena Hum. Cena Humana. Nosso paraíso na Terra!

  2. Lindo, lindo, lindo, Maymay <3
    Me identifiquei muito com seu texto, porque eu também não gosto de mudanças. Elas me assustam. Uma coisa engraçada é que no final do ano passado, a única coisa que eu queria era mudança. Tava cansada das mesmas pessoas, das mesmas conversas, da mesma rotina. Queria coisas diferentes. E esse ano tenho uma bandeja de nuncas para experimentar, como eu pedi. Mas de repente bateu um medo enorme de existir. De não saber encarar esse outro novo mundo tão maior que eu, já que, por maior que sejam as escolas, a gente não deixa de estar protegida e acolhida ali. Na faculdade, a impressão que tenho é que nos chutam pra fora dizendo: VÃO ANDAR QUE O MUNDO É GRANDE!
    Mas olha, pra você as coisas já estão acontecendo, você tá feliz e isso é muito bom. Não tenho dúvidas de que se você seguir com essa determinação, o mesmo vai acontecer com a faculdade. Para nós duas.
    Um beijo enorme, e boa sorte, querida.

  3. Ter medo significa que vc é humana, Mayra. Pessoas corajosas são chatas, sabe?Gente que tá preparado p/ tudo, q sabe tudo, q não tem medo do novo, do desconhecido…o futuro parece um monstro prestes a nos engolir mas vai chegar um momento q vc vai ver q vc é muito maior do que esse monstro. Levante a cabeça e vai fundo. Tenha medo, mas continue sempre caminhando.
    Beijos!

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