The Hateful Eight – Quentin Tarantino

            Tarantino é um dos meus diretores/roteiristas de cinema preferidos de todos os tempos. Claro que não o conheci em seu início de carreira, mas assim que tive a chance, assisti a todos os seus filmes vezes o suficiente para decorar os meus preferidos: Pulp Fiction e Kill Bill. Os filmes dele são tão importantes pra mim que meu primeiro artigo científico foi justamente sobre um deles: Django Unchained. Para este, inclusive, tive o orgulho de ver Tarantino ganhar um Oscar como melhor roteiro adaptado, o que, é claro, tiete como sou, achei mais do que merecido.

            The Hateful Eight (Os oito odiados) tem esse nome por ser, justamente, o oitavo filme escrito e dirigido por Tarantino. Além disso, o nome é devido ao fato de o filme ser sobre oito personagens presos em uma cabana em um dia de nevasca muito intensa. Até o momento, o filme ganhou um Globo de Ouro por melhor música original, esta produzida por Ennio Morricone, famoso compositor italiano que faz muitas músicas eruditas. Para este filme, Morricone produziu cerca de cinquenta minutos inéditos em música, o que o fez, claramente, merecer o prêmio recebido.

            Infelizmente, porém, no discurso de recebimento, ele não pôde comparecer, sendo Tarantino o responsável pelo discurso. Porém, ele foi bastante infeliz em sua fala, dando o entender que a música de Morricone era “música de verdade” e colocando-a em oposição à “música do gueto“. A forma como a frase foi colocada foi bastante pejorativa e causou desgosto nos atores negros que compareceram ao evento. O mais curioso da situação é que o filme em questão é o segundo produzido por Tarantino e protagonizado por negros. Particularmente, acredito que tenha sido apenas um deslize de expressão, causado por um racismo enrustido e inconsciente que aparece em situações como esta, onde a cultura negra ainda tende a ser considerada “inferior” à branca e “erudita” o que, para quem conhece minimamente sobre a cultura africana, sabe que é balela. Porém, saber disso conscientemente e reproduzir até em atos inconscientes é complicado. Ou seja, é muito provável que Tarantino tenha apenas cometido o que a psicanálise chama de “ato falho“, mas não cabe a nós discutir a índole dele no que diz respeito ao seu comprometimento – ou não – perante a inclusão racial em seu país. Porém, o fato de ele trazer protagonistas negros para seus filmes é um sinal bom o suficiente para não ser ignorado.

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            O protagonista negro em questão, é o Major Marquis Warren, interpretado por Samuel L. Jackson (que já trabalhou com Tarantino em Pulp Fiction, Jackie Brown, Kill Bill, Bastardos Inglórios e Django Livre). Warren é um caçador de recompensas que perde seu cavalo em meio a uma nevasca, pois ele morre de frio. O caçador carregava três corpos que valeriam uma recompensa de $8mil e estava à procura de uma carona até a cidade mais próxima, para poder receber o dinheiro. Porém ele é negro e isso faz com que não seja fácil conseguir carona, ainda mais quando se carrega três corpos mortos. Por sorte, ele encontra com John Ruth, interpretado por Kurt Russel (que nunca tinha trabalhado com Tarantino) e que também é um caçador de recompensas. Ruth estava levando para a cidade mais próxima uma prisioneira chamada Daisy, porém, ele não levava prisioneiros mortos, pois gostava de vê-los sendo enforcados. Dessa forma, Daisy viajava algemada a ele.

            Ruth topa dar carona a Warren, pois o reconhece de um jantar em comum e também pela fama de Warren, por ter sido um negro que se tornou Major após uma série de lutas contra os brancos na Guerra Civil americana (que também é palco narrativo para Django Livre). Daisy Domergue é interpretada por Jennifer Jason Leigh (também trabalhando com Tarantino pela primeira vez) e é a antagonista do filme, sendo uma personagem forte, complexa e importante. Não se sabe porque há uma recompensa para sua cabeça, porém, ela vale $10mil. Ainda no decorrer do caminho, os três se encontram com mais um passante, que também perdeu seu cavalo para a nevasca e estava por busca de carona. Este porém, é o rapaz que está prestes a se tornar xerife na cidade próxima à região. Logo, para que os caçadores de recompensa recebam seu dinheiro, ele precisa estar na cidade. Com isso, ele consegue convencer Ruth a lhe dar uma carona. Porém, para Chris Mannis, interpretado por Walton Goggins, não é confortável viajar ao lado de um negro, o que gera desavenças.

            O destino inicial é um armarinho da região, gerido por Minnie e Sweet Dave, que recebem pessoas em situações tensas, como a nevasca em questão. Como nos próximos dois dias seria difícil viajar, eles pensam em se hospedar por lá e então seguirem para a cidade destino. E é aí que a história do filme começa para valer e se desenrola de um jeito hilário e trágico, que só Tarantino sabe fazer.

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            O filme é classificação 18 anos, o que pode ser explicado pela quantidade de sangue e também por uma cena de nudez explícita, vulgo, uma das mais engraçadas do filme. O filme é tão inusitado que é impossível não rir e o tradicional banho de sangue (marca registrada de Tarantino) não deixa a desejar, muito pelo contrário.

            Quem conhece e acompanha Tarantino, sabe que seus filmes são sempre divididos em capítulos, são repletos de sangue, muito violentos e irreais. E é exatamente esse o espírito da coisa: pegar histórias sérias e mostrar que o exagero cinematográfico pode torná-las engraçadas. As trilhas sonoras e os elencos selecionados são um show à parte. De John Travolta à Leonardo DiCaprio, vi atores muito diversos fazendo coisas incríveis e bem diferentes com o que usualmente faziam. Além de tudo, seus filmes tentam trazer à tona questões um tanto apagadas pela sociedade norte-americana e reacender feridas que os mais conservadores da região vivem tentando esconder. Há ainda uma grande participação de atores negros em papéis importantes, além de mulheres protagonistas (Kill Bill é praticamente inteiro sobre mulheres fortes).

          Resumindo: apesar de ele ter diversas falhas, é inegável que seus filmes são bons e incomodam Hollywood. A ponto de o título de “Os Oito Odiados” ser uma referência direta aos oito filmes de Tarantino: frequentemente odiados pelos críticos. Eu, que adoro polêmicas, não podia ficar de fora desta.

            Segue o trailer:

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