Todo Mundo É Culto.

Cresci ouvindo dizer que era culta porque gostava de ler. Nem sabia o que era “ser culta”, mas me metidava horrores por isso. Falavam que arte era cultura e que eu tinha muita cultura porque minha mãe era artesã e eu gostava de cinema, teatro, literatura e música. Eu não fazia ideia do que era ter cultura. Cresci um pouco mais e até ano passado tinha na cabeça que cultura era uma coisa que uns têm e outros não, afinal, ouvir Luan Santana não é cultura, ouvir Chopim é que é. Passear no shopping muito menos, mas passear no shopping para ir ao cinema pode. Eu via aquelas pessoas com livros do Nietzsche e do Dostoiévski nas mãos e os achava fantásticos, porque aqueles livros eram difíceis de ser compreendidos e significavam que as pessoas eram inteligentíssimas, mesmo que nunca provassem de fato a inteligência e nunca falassem nada coerente. Por fim, eu achava que eu tinha cultura, porque estudava num colégio particular e sabia o que Sartre disse, enquanto que quem estudava no colégio público e ensaiava a dança do creu no recreio era idiota. Mesmo eu tendo estudado cinco anos em escola pública me considerava superior aos demais. Jamais passou pela minha cabeça que a idiota era eu, simples e exclusivamente eu, por pensar assim.

Tenho uma matéria chamada “Antropologia e as Dinâmicas da Cultura” na universidade e por mais que eu não faça a menor ideia das escolas culturais ou do que Mauss disse (acabei descobrindo sobre todos, mas esse aí eu ainda não faço ideia), aprendi o que de fato é cultura e descobri que não tinha absolutamente NADA a ver com o que eu tinha pensado. Nada a ver MESMO. Porque agora eu sei que na verdade todos nós temos cultura, tendo em vista que ela não tem nada a ver com expressões artístico-culturais, nada mais é do que a nossa história e de todos os nossos costumes. Todos têm cultura porque cada um faz as coisas de maneira diferente, de acordo com o que aprendeu com sua família ou quem quer que tenha sido o agente influenciador de sua criação. E ao mesmo tempo em que a nossa cultura é semelhante por sermos todos ocidentais e brasileiros, a de cada um se difere de algum modo. No entanto, não te faz mais culto ouvir Chopin, simplesmente porque não há uma métrica que dimensione a quantidade de cultura que você agrega. Ninguém tem mais cultura do que ninguém, assim como nenhuma cultura é melhor do que a de ninguém, somos todos iguais e ao mesmo tempo diferentes! Vai dizer que isso não é fantástico? Porque no fim das contas, cultura é apenas uma forma diferente de analisar aquilo que é passível de acontecer com todos! É por isso que os antropólogos estudam a fundo os grupos indígenas, pois eles habitam basicamente no mesmo ambiente que a gente, embora tudo que façam seja completamente diferente do que nós fazemos. Porque cultura é uma lente que nos faz ver diferentemente as coisas, uma moldura com a qual nascemos e desenvolvemos enquanto crescemos. E talvez essa moldura seja maleável e se quebre em alguns pontos, graças aos intercâmbios com outros grupos de pessoas, mas nós jamais deixaremos de ter a nossa cultura, mesmo que nos mudemos para o Japão hoje e vivamos lá até morrermos. Ficaremos sim parecidos com eles e agiremos semelhante a seu modo, mas sempre seremos brasileiros, não só de nome, mas também nos costumes, nem que seja no tomar banho todos os dias. Porque não há como mudar o que já nasceu sendo.

(Daqui)

Há algum tempo estava tentando entender porque raios dizem que teatro é cultura, enquanto que uma roda de samba é palhaçada. Hoje a aula confirmou meu pensamento. É que o teatro antigamente só era passível de acesso às pessoas com posses, tendo em vista que o ingresso era caro, o ambiente era refinado e as peças apresentadas não eram de fácil compreensão, sendo inteligíveis somente para os que já tinham estudado pelo menos um pouco. Enquanto que a roda de samba e as outras coisas mais populares, aconteciam em qualquer lugar, inclusive no meio da rua, sem preferência para vestimenta e sem a necessidade de algum conhecimento prévio para entender e gostar. Resumindo, o teatro era de rico e a roda de samba de pobre. Como desde sempre o rico foi mais bem visto e o sonho de todo pobre era ser parecido com ele, os pobres começaram a tentar parecer com o rico, nem que fosse na vestimenta e no fato de entender teatro, simplesmente para dizerem que agora eram cultos, tendo em vista que ambos participavam dos mesmos movimentos. Como se a diferença fosse um crime e devesse ser exterminada, enquanto que na verdade, tanto a roda de samba quanto o teatro eram fortíssimos elementos culturais. Um rico adoraria sambar um pouco, da mesma maneira que um pobre amaria o teatro. Mas com todo o recalque que a vida em sociedade impunha, havia essa separação. O problema é que isso não acabou e até hoje há essa triste noção de que tudo o que necessita de um alto conhecimento científico e uma emoção melhor controlada para ser compreendido é superior do que aquilo que é fácil. Porque até hoje é muito melhor vista uma música que fala “fui traída e estou na fossa” atrás de zilhões de metáforas do que uma que fale isso diretamente. É melhor que você pense para entender do que entenda sem nem ter pensado. Cá entre nós, isso é ridículo.

(Daqui)

Não há o menor problema em ser fã de Malhação, Restart, futebol. Não é sinal de pobreza e nem de riqueza, é apenas um gosto pessoal acerca de algo! Da mesma maneira, não há problema algum em ler Machado de Assis, ouvir Beethoven e não assistir televisão porque é desperdício de tempo! Gostos individuais nada têm a ver com cultura, renda, classe social ou qualquer coisa do tipo, são apenas gostos! Daqui a pouco inventam que comer banana é “Cult” enquanto comer chocolate é tosco. Qual o sentido? Nenhum. A mesma coisa que o café! Ninguém fica mais legal porque toma café e tomar café não tem nada a ver com você ser culto, porque todos nós somos cultos! Nascemos assim e não há como mudar! O conhecimento científico existe sim e ele é importante para a sociedade em que vivemos, mas não significa que é melhor que o resto. Porque para cada médico trilionário que existe, há a empregada doméstica que limpa a sua casa. Qual deles é mais importante? Os dois, ora bolas! E seria mais importante ainda, se a empregada doméstica tivesse noção de que não é inferior ao médico só porque não tem um diploma universitário, tendo em vista que o tal diploma não o torna hábil a lavar seu banheiro e passar suas roupas. Não é porque há diferenças que há uma escala de evolução e enquanto a sociedade Ocidental continuar a pensar que tudo vem do evolucionismo, o preconceito continuará a existir. Tanto em relação aos negros, quanto aos índios, pobres, gays e todas as outras coisas que ferirem o ego dos brancos héteros ricos e estudados que se dignam superiores e mandam o resto se danar.

(Daqui)

E é baseando-me em toda essa linha de raciocínio que eu afirmo que morro de pena dos tais pseudo-cults. Porque acho triste que uma pessoa precise fingir ser quem não é achando que isso a fará ser mais aceita pela sociedade. Acho triste que uma pessoa finja ler coisas difíceis e passe a ouvir Mozart e odiar televisão apenas porque disseram para ela que isso a faria mais legal. É triste. É muito triste essa coisa de pseudo-cultismo e isso está tão disseminado na sociedade vigente que só faz com que a minha pena aumente ainda mais. Essas pessoas acabam sendo insuportáveis de tanto tentarem não ser. De tanto tentarem ser legais. Ninguém nunca as disse que se elas fossem simplesmente elas seriam muito mais felizes? Sustentar máscaras por muito tempo cansa. Demais.

É possível aglomerar cultura, quando você aprende mais sobre a sua ou quando conhece novas culturas, no entanto, ainda não vejo sentido para existir um “Ministério da Cultura”, uma “Tv Cultura”, um dos logotipos da globo ser “cultura, a gente vê por aqui” não que eu veja sentido em algum dos logotipos da globo  e vejo menos sentido ainda na chamada “virada cultural”, principalmente quando ela envolve jazz, blues e outras coisas não brasileiras, com artistas não brasileiros. Já não faz muito sentido, mas se for pro povo aprender mais sobre sua cultura, favor não misturá-la com a alheia. Enfim, essas coisas quando eu entender venho aqui contar. Até o momento meu relato resume-se a este que lhes foi feito.

Eu não gosto de pagode e sertanejo universitário. Não gosto de futebol, nem de reality shows e é muito difícil me apaixonar por uma novela. Quase não leio Best Sellers simplesmente por não os ter, não que os abomine. A diferença é que eu não gosto dessas coisas simplesmente porque eu não gosto, mas não deixo de amar pessoas que gostam, não deixo de respeitá-las. Isso não leva a nada. Nossa cultura é a mesma, as diferenças são apenas gostuais e quer saber? É maravilhoso que haja essa diferença.

Esse foi o post mais difícil de encontrar imagens, pois a maioria era exatamente tudo que eu criticava no texto.

0 thoughts on “Todo Mundo É Culto.

  1. sabia que eu tinha a mesmíssima linha de pensamento que voce?
    e que muitos dos meus parametros cairam por terra quando eu viajei e hoje sou infinitamente grata a isso, porque como voce disse sem esses preconceitos bobos eu me divirto muito mais porque posso ir pro samba na sexta feira a noite e no domingo pela tarde ir ao cinema com meus pais e continuar sendo eu mesma por isso e é ótimo,de verdade!

    E sei lá… eu gosto da virada cultural exatamente por misturar essas tantas culturas que mesmo não sendo nossas a gente acaba adotando por osmose ou mesmo a interferencia do mundo exterior, sei lá eu gosto… acho que quanto mais diferentes culturas a gente conhecer mais cultos somos, porque… AH,sei lá porque. hHAHAHAHAHAHAAHA

    amo seus textos Mayzinha ^^

    beijo

  2. É por essas outras que eu nunca me canso de dizer que eu morro de orgulho de você, menininha! Pseudo cults me dão ânsia de vômito. Argh! Seu post está tão o máximo, que eu não tenho nada de útil e vou parar esse comentário por aqui. Te amo.

  3. existem pessoas que tem acesso às coisas e existem pessoas que não tem. esse é um ponto.
    o segundo ponto é que existem coisas boas e coisas ruins. musicalmente boas, cinematograficamente boas, literariamente boas. como existe lixo musical, cinematográfico e literário.
    lembro na faculdade, numa aula de roteiro, quando um professor disse que ‘tal filme era muito ruim’. um aluno perguntou ‘mas professor, como você sabe se um filme é ruim?’. ‘simples: pega uma melancia e faz um suco. como você sabe se ele é bom ou ruim?’.
    é mais ou menos isso. pode ter gente que goste do suco com sal, mas porque provavelmente eles nunca tiveram acesso a outras opções.

  4. Muito bom o que você falou, May. É absurdo que alguém se ache superior aos outros de qualquer forma, mas é pior ainda quando baseado em uma coisa tão pessoal quanto gostos. Cada um tem o direito e deveria ter a liberdade de gostar e deixar de gostar do que quiser. Essa história de que alguns têm cultura e outros não é tão absurda que dá até vontade de rir!

    Beijos

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