Traíra

Quando se é criança é comum que seus colegas de classe achem uma palavra que rime com seu nome e te chamem dela. Nunca acharam uma palavra que rimasse com o meu. Nunca até a quinta série. Na quinta série eu enforquei a minha melhor amiga e comecei a falar mal dela pro mundo inteiro – porque ela realmente era uma falsa e eu odeio gente falsa, né. Então descobriram que meu nome rimava com uma palavra e desde então virei “Mayra Traíra”. Lógico que eu mudei de escola depois disso e tentei melhorar os meus nervos. Na sexta série bati em um menino porque ele era bobo e ficava puxando o meu cabelo e ai como eu me irrito com quem mexe no meu cabelo. Bem no estilo Blair Waldorf mesmo. Só namorados, mãe, pai, amigos e cabeleireiros podem encostar no meu cabelo. Isso sem contar que na segunda série eu fiz a sala inteira se reunir pra bater em um menino, porque ele dava flores pra minha amiga e ela gostava era do irmão dele. O sentido da história eu não sei, só lembro de estarmos na rua, ele no chão e a gente chutando o coitado. Então a diretora estava a caminho e todos foram embora, restando apenas eu e ele. Ajudei-o a levantar e disse que se ele contasse pra diretora apanharia mais. E ele nunca contou. E eu acho engraçado lembrar essas coisas porque não parecem ser o tipo de coisa que eu faria, mas, bem, eu fiz.

A Mayra Traíra evoluiu e não bate em alguém há um bom tempo, ela aprendeu que há outras maneiras de magoar as pessoas e virou mestre absoluta nelas. Mayra Traíra magoava as pessoas falando a verdade, sem medo, ou pelo menos o que ela achava que era verdade. A mágoa afastou muitas pessoas dela. Foi assim que Mayra Traíra traiu 90% de seus amigos, falando vedades deles para os outros e mentiras dos outros para eles, criando intrigas, fazendo drama – ah sim! Ela era a rainha do drama! – ficando “de mal” e afastando-se. Sempre com o lema de que é melhor estar só do que mal acompanhada. Um dia ela se apaixonou e até esse amor ela foi capaz de trair! Não com outro, com ela mesma. Porque no fim das contas, já deu pra entender que de normal essa pessoa não tem nada. Mayra traiu diversos movimentos aos quais disse um dia fazer parte. Diversos gostos. Noções e pensamentos.

Até que um dia resolveu-se adentrar em um universo que muito lhe apetecia. Ela gostava dele desde que tinha três anos de idade e tinha presenciado pela primeira vez. Nunca se imaginou no lugar, mas naquela altura do campeonato, resolveu arriscar. E ela amou. Ela brincou. Ela sorriu. Ela viveu e foi capaz de acreditar que nascera para aquilo, que sua vida deveria ser escrita com as linhas daquela história. E ela abandonava tudo para passar mais um tempo ali e esqueceu-se de estudar, desistiu de entender as matérias que não gostava, para ela tudo estava bem porque ela tinha aquele grande amor movendo-a, nada mais era necessário.

Hoje a Mayra Traíra cresceu. Ela ainda tem suas recaídas. Ainda faz alguns dramas, embora com menor intensidade e frequência. Magoa menos pessoas. Confia em menos pessoas. Ama menos pessoas. Acredita em menos pessoas e se esforça por menos pessoas. Hoje ela tenta pensar no hoje, nela, mais nela do que nos outros, por mais que isso a machuque. Hoje ela desistiu de fazer justiça com as próprias mãos e só se sente apta a bater em alguém em uma aula de boxe, e olhe lá. Hoje as armas dela são outras e em diversos casos nem existem. Hoje ela traiu o maior amor da sua vida e jurou para si mesma que seria a última vez. Acordou, não sentia mais nada e resolveu abandoná-lo. Porque ela é assim, sincera com seus sentimentos, quando eles somem, ela não vê razão para continuar ali. Ela é assim, ama alucinadamente em um dia e no outro acorda sem sentir nada. E não é anormal por isso, tendo em vista que muitas das pessoas que conhece afirma que é assim que o amor acaba mesmo. Você acorda e ele sumiu. Puft. Já era. Perdeu-se na infinitude do mundo.

Hoje Mayra não quer trair mais nada, nem ninguém. Tem certeza de que as pessoas que a cercam o fazem por boas razões e que em muitas delas ela pode confiar de olhos vendados. Ela não quer que seu nome rime com mais nada, porque ele é tão único quanto ela. Tão incomparável quanto. Ela sabe que tudo que fez quando era criança foi válido, pois construiu seu caráter e que é sempre bom jogar os nervos para fora, mas que a gente deve tomar cuidado com as pessoas que magoa. Ela aprendeu que não gosta de magoar pessoas, que não quer magoar pessoas. E que seu novo lema de vida é o amor.

Adeus Traíra, você me proporcionou altas aventuras, mas já deu o que tinha que dar.

0 thoughts on “Traíra

  1. May, seu nome não rima com nada! Maira é um nome difícil de se rimar BRIINKS!
    Adorei ler seu texto porque deu pra ver o quanto você cresceu e ajustou sua vida ao seu crescimento!
    Parabéns, minha linda!

    <3
    beijos

  2. muito fofo o texto! sem bem como é ter um apelido e ter que viver com ele por um longo período, mas graças a deus eu também cresci e sei o quanto é bom quando a gente cresce!!

    você passou por muita coisa, mas tenho certeza de que hoje, você vê que tudo que passou foi necessário para se tornar quem é hoje! nosso passado sempre nos ensinam algo 😀 ahuahua

    e somos quase charás ;x por causa de um Y e I ahuahuah, me chamo Maíra e você Mayra 😀 mas no final, a pronúncia é a mesma ahuahua

    adorei aqui! beijos :*

  3. May, você não é ariana, mas tinha tudo para ser!
    Porque eu sou e me identifiquei com muita coisa na tua maneira de agir e sentir…
    (Exceto na parte de juntar uma gangue para bater no menino que gostava da guria. Sei lá, é um direito dele tentar conquistar quem ele gosta, mas também precisaria ver o lado do irmão, né? enfim….)

  4. A mayra (que não é mais traíra) escreveu um texto tão lindo…me identifiquei tanto com ele. Hoje, May, tente ser fiel e leal somente a você mesma. Acho q essa é uma das maiores demonstrações de amor próprio que existe. Só quando a gente se ama e se respeita, é que somos capazes de fazer o mesmo por outras pessoas. Beijos!

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