Tudo Começou na Feira do Livro

Minto. Tudo começou enquanto eu pensava em ir à feira do livro. Havia combinado de me encontrar com minha amiga às 15h20min num lugar específico que ficava a 5min de casa, mas ela sempre se atrasa, então resolvi me atrasar também e saí de casa quando eram 15h20min. Desci do elevador com o celular no ouvido, era ela desesperada dizendo que uma coisa horrível tinha acontecido e perguntando onde eu estava. Desesperei-me e saí correndo pela rua para chegar até ela o mais rápido possível. Encontramo-nos e eu perguntei o que raios havia acontecido, então ela me contou que no sábado daquela semana (era uma quinta) havia ganhado um casaco que ela sonhara por muito tempo. Disse que era o casaco que ela mais quis na vida e que fez a família inteira passar uma manhã com ela procurando por ele. Foi o mais caro que ela ganhou, mas ela ficou tão feliz que tudo valeu apena. Decidiu então usar o casaco nesse dia, só que acabou esquentando e ela estava segurando-o na mão. Pegou o ônibus para ir ao meu encontro e então se tocou de que não estava mais com o casaco, porém não se lembrava de onde havia deixado ou da última vez em que havia visto. Ligou para o último lugar em que esteve e a moça disse que não havia nenhum casaco lá, mas que havia visto um casaco amarrado na mochila dela. Desesperada, ela me disse que estava pensando em fazer o caminho de volta para tentar encontrá-lo no chão da rua ou dentro do tubo do ônibus, quiçá dentro do próprio ônibus. Eu fui com ela, afinal, tinha programado passar a tarde com ela e atravessamos a cidade em um ônibus que não tinha um casaco perdido. E chegamos em um tubo sem casaco perdido. E andamos pela rua sem sinal algum de um casaco no chão. E procuramos nos rodapés e perguntamos para alguns lojistas e até para o guardador de carro e ninguém tinha visto o casaco. Pude ver no rosto dela uma frustração sem tamanho. Ao mesmo tempo em que ela afirmava estar assim somente por que “minha mãe vai me matar” eu sabia que na verdade era porque aquele era o casaco dela, que ela tinha lutado pra ganhar e perdera sem nenhuma explicação. Sem saber o que fazer, apenas repetia baixinho “Era só um casaco, você tem outros” e ela “mas não aquele!” ao que eu replicava “Mas você tem outros! Vai ver quem pegou não tinha nenhum! Era só um casaco!” e então eu percebi que não, não era só um casaco.

Meu filme e livro preferidos possui o mesmo título “Clube da Luta”. Muito mais do que a história de um louco que expelia sua indignação perante o mundo através de brigas clandestinas, para mim é a história de um novo estilo de vida, de uma nova sociedade, de um bando de macacos espaciais revolucionários, de um amor bizarro entre um cara que nem sabe quem é (não que algum de nós saiba), enfim, sob o meu ponto de vista, sir Chuck Palahniuk acabou criando uma filosofia de vida, ferrenhamente utópica, mas ainda assim uma filosofia. Muito provavelmente ele fez isso sem intenção e até deve ter estranhado os efeitos que tudo que escreveu naquelas páginas em branco foram capazes de causar na vida de tanta gente. Clube da Luta é, ou eu tento fazer com que seja, meu lema de vida. É um lema niilista em que posses não servem para nada, apenas para nos tornar um bando de bocós que esquece de pensar em toda a geopolítica e sociologia do mundo pois está encantado demais com o novo tênis da Nike de R$1959 que saiu na loja e ou você vai comprar a vista, ou parcelado, ou nunca vai ter (mas vai morrer de vontade mesmo assim). Tem uma frase que diz que só depois que perdemos tudo é estamos livres para sermos tudo e outra que diz que as coisas que a gente possui acabam nos possuindo. Meu coração borbulha vendo esse filme, lendo esse livro ou simplesmente ouvindo essas frases, pois além de poesia eu penso que é verdade. É a mais pura verdade. É uma triste verdade, daquelas que eu daria tudo para desvencilhar-me, mas que não consigo.

Eu comprei um porta-cartão de MacBeth, no Globe Theatre em Londres. Ele era lindo, tinha desenho de sangue e uma frase do texto – que infelizmente, não me recordo. Eu sempre quis ter um porta-cartão legal e eu comprei o meu, o mais legal de todos. Então eu fui ao cinema com o meu pai pela primeira vez na vida e fiquei tão empolgada com a situação que não sei onde o deixei. Com isso perdi a carteirinha de estudante que estava dentro e assim sendo, quando voltei ao cinema fui até o guichê e disse que tinha perdido minha carteirinha ali. Achei a carteirinha, mas ninguém sabia do meu porta-cartão. Naquele momento aquilo não era somente um porta-cartão, era o MEU porta-cartão. Porque quando a gente decide que possui as coisas, nossa relação com elas e com o mundo ao redor muda por completo.

Minha amiga disse “Você não tem nenhuma roupa que ficaria triste por perder?” e eu respondi que somente meu poncho azul. Ledo engano.

Outro dia, por exemplo, estava eu dentro do ônibus e sinto uma mão dentro da minha bolsa, olho para trás e um cara havia acabado de tirar minha carteira dali. Eu virei com cara de brava, apontei o dedo nas fuças dele e disse ”Você pegou minha carteira!”, ele negou e eu disse que eu havia visto que ele tinha pegado e então o empurrei e a carteira caiu no chão do ônibus, bem na hora em que o mesmo havia chegado em seu próximo ponto deixando a porta aberta livre para o fedelho fugir, enquanto eu pegava a carteira do chão, escondia ela embaixo de tudo na bolsa e mudava de porta. Naquele momento não havia nada mais importante para mim além de salvar a minha carteira. Porque não era só uma carteira, era a minha carteira, com as minhas coisas dentro.

Tenho pensado muito sobre os ensinamentos de Tyler Durden e talvez eles sejam realmente apenas ficcionais, quero dizer, nem meu irmão, que gosta e acredita nisso mais do que eu foi capaz de segui-los, pelo contrário, ele faz tudo o que Tyler diria para jamais ser feito! Talvez seja apenas ficção. Mas gente, é bom e verdadeiro demais para ser apenas isso! E se alguém um dia decidisse que a bíblia é só ficção, as pessoas deixariam de tentar segui-la? Duvido muito. As vezes eu sinto que a doutrina de Tyler é a doutrina da minha vida, a que deve guiar a minha vida. Não inteiramente, não sem exceções, não sem mudanças ou interpretações minhas, afinal, é a minha vida e não é um livro qualquer que me vai dizer como devo vivê-la, mas, mesmo assim, algo me diz que devo basear nem que seja uma pequena parte da minha existência para seguir os seus preceitos, porque, caros amigos, são preceitos mais do que verdadeiros.

As coisas que eu possuo já me possuíram. Eu deixei que isso acontecesse. Apeguei-me a elas. Tenho pensado no que eu faria caso de repente minha casa pegasse fogo, muito provavelmente eu choraria e entraria em crise existencial e só me consideraria apta a viver novamente após ter recuperado pelo menos grande parte das coisas, principalmente os livros. Com as roupas eu realmente não tenho muito apego, tendo em vista que grande parte delas são heranças de parentes que não querem mais usá-las e me dão. Mas os meus livros, bem, eu morreria por dentro caso tivesse que abster-me deles e creio que o mesmo aconteceria caso minhas barbies ou meu poncho azul desaparecessem, porque eu não possuo mais essas coisas, elas me possuem. Elas mandam em mim mesmo sendo meros objetos inanimados. Elas de certa maneira regem meu modo de vida e tornaram-se parte absoluta de minha pessoa. O que seria de mim sem a Mandy ou meus esmaltes, maquiagens e a bolsa do Jack Skeleton? A gente desde sempre aprende a fixar nossa existência na existência de outras pessoas e necessitamos de tanta autoafirmação que pessoas tornam-se pouco e precisamos de mais, cada vez mais e então surge nossa obcessão por coisas. Ter coisas simplesmente pelo ato de tê-las. Possuí-las. Porque é muito mais legal dizer que você TEM o livro tal do que você dizer que pegou ele emprestado na Biblioteca Pública. Porque é sensacional ter aquela Barbie que todos queriam, mas só você tem. Porque a gente gosta de ter coisas. Ao mesmo tempo, o que há de errado nisso, são apenas um bando de coisas, certo? Sim, mas a partir do momento que elas se tornam mais importantes para a gente do que outras pessoas, do que estudar, do que pensar, do que ser e do que viver, elas deixam de ser apenas coisas e passam a nos possuir. O computador me possui. Infelizmente. Eu não sou livre para ser ou fazer o que eu quiser porque estou aqui, cercada de grilhões perante… Perante meras coisas. Coisas que ninguém se importa e talvez ladrão algum pensasse em roubar, mas que para mim são muito mais do que isso. E se eu, que nem sou uma garota tão fútil, sou assim, imagino como devem ser aquelas garotas que nada sabem, nada fazem, nada sentem e nada são, mas tudo têm. A que bases uma pessoa assim se sustenta? Que tipo de vida uma pessoa dessas é capaz de levar?

Por fim, estou precisando ir a um grupo de apoio para uma doença que não possuo a fim de, tomara, encontrar o meu Tyler, que me guiará através das entranhas do universo e fará com que eu finalmente compreenda como é possível viver sem se deixar ser possuída por um emaranhado de objetos inanimados. Por muito tempo busquei o sentido da minha vida, a razão para ela existir e o que eu deveria fazer com ela, mas eu nunca tinha parado para pensar que essa decisão talvez não seja só minha, não caiba somente a mim, mas sim, também e inclusive a todas as coisas que eu tenho e que me detêm. Agora eu entendo os motivos para que uma grande pessoa que eu conheci me proibisse expressamente de chamá-la de “minha” qualquer coisa, ela não queria ser possuída pela minha pessoa, da mesma maneira que eu não quero – e me sinto deveras incomodada com quem acha o contrário. Porque a posse não é maléfica somente quando ocorre com objetos inanimados, pelo contrário, com os animados ela pode tornar-se ainda pior – ou melhor, depende do contexto. Tudo que sei é que meu contexto no planeta Terra, minha missão perante a humanidade é a mais simples de todas: esforçar-me ao máximo para ser livre a ponto de fazer com que as decisões a serem tomadas na minha vida sejam apenas minhas. Minhas e de mais ninguém. Pode parecer egoísta, mas a verdade é que quando eu estiver me acabando de chorar depois de finalmente ter coragem de doar minhas Barbies, quem estará chorando não serão todas as pessoas que conheço e digo amar, quem estará chorando e sofrendo será única e exclusivamente a minha pessoa. Porque há ocasiões em que ser egoísta é a única coisa que nos resta e, bem, torna-se correta. Afinal, tudo que é errado em determinadas ocasiões torna-se correto.

* Caso vocês queiram saber, quando minha amiga chegou em casa descobriu seu casaco em cima de sua cama. Ela havia esquecido-o em casa quando saiu e não perdido em qualquer lugar que fosse.

 

 

 

0 thoughts on “Tudo Começou na Feira do Livro

  1. Eu sou totalmente apegada. Às pessoas e aos objetos. Adoro ter as coisas, adoro chamar as pessoas de ‘minhas’. Tudo errado, eu sei, mas eu sou feliz assim. Feliz e ciumenta.. HAHAHA

  2. Ah Mayroca, desculpe te decepcionar, mas eu estou longe dessa iluminação durdeniana. Eu gosto muito do “grosso” da ideia dele, sabe, que é aquilo de você não se deixar possuir por aquilo que você tem e deixar que isso te defina, mas eu tenho lá meus muitos e sérios apegos. Sinceramente, não acho que isso de não se deixar possuir seja tão radical assim, ao menos eu não entendo dessa forma, e acho que é simplesmente uma questão de você buscar ser sempre maior do que as coisas que você tem. A coisa mais importante da sua vida não deve ser sua casa própria, mas não acho de todo mal que você se apegue ao lugar que mora, que venha a chorar caso um dia isso pegue fogo.
    O mesmo pras pessoas. Na minha cabeça, a maior liberdade do mundo é você conseguir se dar pra alguém, se jogar mesmo, entrar na gaiola sorrindo. Não do ponto de vista possessivo, de se deixar definir por aquelas pessoas, de parar de viver por causa delas, mas sim de conseguir deixar um pedaço seu na mão delas e pegar um pedacinho delas também. Pra mim, isso não faz de você menos você.

    Concordando com tudo ou não, amo você e acho o máximo você sonhar em ser inflamável e radical como o Tuler <3

  3. Ainda bem que sua amiga achou o casaco. Tava com agonia de ela o ter perdido até, nossa…
    Mas enfim, o que eu realmente lamentaria caso algo acontecesse aqui em casa seriam meus livros. Sou muito apegada a eles mesmo.
    Agora, nunca havia parado pra pensar nessa possessividade de chamar as pessoas de “meu/minha”. Quer dizer, eu gosto de chamar as pessoas de “meu bem”, mas não me considero possessiva com elas, pelo contrário. Apenas acho bonitinho fazer isso. Me sinto bem.
    Mas olha, do desapego literário eu passo longe. Mas concordo contigo.

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