Tudo Culpa Sua!

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Afinal, foi você quem sempre quis ter uma menina. Você que me salvou de uma possível sequestradora quando eu tinha poucos meses de vida. Você que penteava os meus cabelos enormes com a maior paciência do mundo, na verdade, você amava fazer aquilo. Foi você que me ensinou desde que aprendi a falar o que a frase “eu te amo” significava, isso porque não parava de repeti-la para mim, todos os dias, a ponto de eu ficar realmente brava com o fato e implorar pra você parar de fazer isso, mas você nunca parou. Foi você que agachou-se no chão enquanto eu saía correndo para voar em seus braços, rumo ao melhor e mais protetor abraço do mundo, aquele que me rodopiaria no ar e em seguida me encheria de carinho. Você que me chamava de “princesinha do papai” e que devido a isso fez com que eu atendesse ao telefone repetindo “Princesinha do papai, boa noite!” durante vários anos da minha infância.

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Por você eu fiz o meu primeiro book, no dia dos pais em meus singelos cinco anos. Você ganhou um chaveiro com a minha foto e ele foi o chaveiro da sua chave até alguns anos atrás, quando a foto finalmente apagou-se. Eu fiquei doente e você estava ao meu lado, tentando me fazer entender que todos aqueles remédios ruins serviriam para algo bom. Tentando me fazer aprender a comer melhor e em maior quantidade, mas eu sempre fui teimosa… Foi você que descobriu a banana que eu  enterrei no quintal de casa após ter fingido para a mamãe que havia comido e me fez comer uma inteirinha na frente dela. Foi você também que sempre esteve ao meu lado em meus momentos de sofrimento, fazendo os curativos que menos doíam, tirando os dentes com o menor sofrimento possível, apertando a minha mão durante as terríveis infiltrações e punções. Foi você que acertou uma bola na minha cara enquanto eu narrava um jogo de futebol entre você e meu irmão, tenho medo de bola até hoje, mas aquele curativo foi o mais bem feito da minha vida!

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Não vou mentir. Foi você que me fez chorar diversas vezes, por decepção, medo, sofrimento, traumas e diversos outros fatores, mas a verdade é que nenhum dos choros ruins jamais será capaz de apagar todos os bons choros, os bons momentos, as alegrias marcantes.

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Fui eu quem te contou que sua mãe havia ido para o hospital as pressas e foi você que me contou, minutos depois, que ela havia falecido. E foi você que me abraçou e nós choramos juntos. Você que dirigiu super rápido a minha vida inteira rumo à casa da minha avó e a todas as nossas outras viagens malucas, sem nunca sofrer sequer um arranhão em nosso querido carro. Foi você também que me fez escutar Raul Seixas tantas vezes que acabei gostando e foi você que me ensinou a escalação completa da seleção brasileira em todas as copas do mundo que vi, além de me ensinar desde sempre que eu torço para o Santos e me fazer saber grande parte da história do time, além de conhecer o estádio e ter uma camisa oficial. Foi você que me ensinou tudo sobre política, desde antes de eu sequer saber o que raios era política. Você que me contou a história da sua vida detalhadamente enquanto caminhávamos rumo ao teatro. Você que foi a todas as minhas peças de teatro, na estreia, e sempre me aplaudiu, mesmo que não concordasse ou que nada daquilo te apetecesse. Foi você também que me levou ao cinema para assistir ao filme das “Meninas Superpoderosas”, tudo bem que você saiu na metade para fumar e nunca mais voltou, mas você me levou lá. Porque você nunca deixou de fazer o que pode para me ver feliz.

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pai4Você me levou em todas as festas, trabalhos e casas de amiga que eu pedi e fez questão de saber os endereços e as localizações de cor. Você que é facilmente encontrado graças ao incomparável assobio já clássico. Você me fez entrar na auto escola para aprender a dirigir por mim mesma quando tive idade, mesmo que eu tenha te dito incontáveis vezes que preferia te contratar como meu eterno motorista particular. Você que deixou que eu cortasse seu cabelo, só porque eu sempre quis cortar o cabelo de alguém e não mudou o corte por um bom tempo, mesmo tendo ficado terrível. Você que pintou meu quarto de rosa porque era o meu sonho e anos depois o pintou de branco porque eu não aguentava mais o rosa. E me deu a minha casinha de bonecas de madeira que eu tanto desejei. Você que sempre se dispôs a comprar a briga que fosse, com quem fosse que estivesse a me incomodar, porque eu não merecia ser incomodada. Você que me fez acreditar que um dia teria uma ferrari conversível vermelha e uma televisão de plasma no quarto. Você que brigou comigo, pela única vez na vida, quando eu apareci com mechas vermelhas no cabelo, aos 12 anos e que hoje ri a cada vez que volto do salão com uma cor diferente. Você que sempre me fez morrer de medo de te ver triste ou decepcionado comigo, mas que sempre se esforçou para nunca demonstrar esses sentimentos. Você que nunca me bateu e nunca apontou o dedo na minha cara para me julgar ou reclamar de algo, embora eu saiba que por diversas vezes fiz coisas que não foram de seu agrado.

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Você, que esteve sempre ao meu lado, desde o dia em que eu nasci e que continua a estar e que estará até que a morte nos separe. A mesma morte que nosso poeta Raul ensinou ser o segredo da vida. Porque você, gerador de metade do meu código genético, portador de meu tipo sanguíneo, responsável legalmente pela minha pessoa desde o dia em que eu nasci, você, que, como poucos, errou enquanto tentava acertar, você que hoje vive uma vida completamente diferente daquela em que vivia quando eu te conheci, que hoje não me aguenta mais no colo e não se agacha esperando que eu corra para te abraçar e te rodopiar, mas que me abraça docemente, com uma dose extra de carinho e repetindo a frase que eu vivia falando para o meu avô, você que agora toma mais remédios e come menos do que eu e que tem a pele mais macia do que a de um bebê, que agora tem vários cabelos brancos, porque eu desisti de tentar tirá-los e que deixa a barba crescer por dias porque eu não acho mais tão legal fazê-la, você que ainda usa camisa social somente com bolso e que agora lê o jornal com um óculos pendurado no nariz e que me elegeu como a companheira número um das palavras cruzadas, você, meu querido e amado PAI, você merece todo amor e  felicidade do mundo, não só hoje, mas em todos os dias de sua vida.

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Eu, que nunca escrevi para você neste lugar, escrevo hoje porque sei que nunca o havia feito pois sabia que sempre estaria faltando alguma coisa a ser dita. Por hoje, dedico a ti este texto eternamente incompleto e agradeço por você existir e estar sempre ao meu lado. Amar-te-ei por toda a minha vida, não importa o quanto ela dure ou o que nos aconteça.

0 thoughts on “Tudo Culpa Sua!

  1. QUE LINDO, May! :’)
    Feliz aniversário pro seu pai, que ele continue por muito tempo do seu lado te amando e te ensinando essas coisas bonitas. Metade da sua doçura deve ser culpa dele 😉
    Amei as fotos :*

    <3!

  2. Uau… tô toda emocionada aqui, sabia?
    Primeiro porque eu tenho um sério problema em escrever pros meus pais, porque acho que nunca vai ficar à altura deles, mas esse ficou acima de qualquer expectativa. E segundo porque eu me identifiquei com tantas partes desse texto – meu pai também tem um assobio único e vou que nem cachorrinha atrás dele no meio do shopping quando ele o faz…

    Enfim, um dos textos mais bonitos que vi por aqui.
    Se não o mais…

    Parabéns…

    Beijoca

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