Ela e Ele.

Ela estava linda, andando calmamente a caminho do parque, essa era a primeira vez que o veria pessoalmente. Kate costumava ser simples e discreta, considerava-se esperta demais para ter sentimentos, mas às vezes não conseguia fugir deles. Ela tratava as pessoas como brinquedos. O conheceu a dois meses, em um desses sites de conversas anônimas. No início fora atraída pelo mistério do relacionamento, depois foram se conhecendo melhor, sem o anonimato para escondê-los.

O Sol estava brilhando forte naquele dia e Kate não entendia o motivo, afinal era 19 de Julho, deveria estar frio. Apesar do Sol, Kate estava arrepiada, seu coração disparado, não sabia o que esperar do encontro. Tinha acabado de voltar do internato quando o conheceu, estava desacostumada a lidar com meninos, tantas coisas ocorreram no internato… Estaria ela pronta para um relacionamento?  Olhou no relógio, faltava um minuto para a hora marcada, apressou-se. Estava nervosa demais para prestar atenção em algo, apenas andava. “Ele é apenas um garoto”, repetia baixinho.

Ela era idealista e pouco adepta à tecnologia, por ele chegou a ficar 12 horas em frente ao computador. Na única vez que o viu, pela webcam, sentiu algo estranho. Os olhos dele lhe aceleravam o coração. Daí veio o medo, afinal ela não costumava ter sentimentos. O mistério a seduzia, ela não conseguia parar de falar com ele e assim marcaram o encontro.

Agora Kate caminhava ansiosa, já conseguia ver o parque. Pensava na alegria da mãe quando disse que iria se encontrar com um garoto, na preocupação do pai quando disse da onde se conheciam e nos olhos do menino, olhos sem os quais já não podia viver.

Chegou ao parque, foi até a lanchonete, pediu um sorvete de amora e se sentou, na terceira cadeira do lado esquerdo, exatamente como combinaram.  Olhou o relógio novamente, já era para ele ter chegado.

Logo cedo, naquele mesmo dia, Kate havia comido seus ovos  fritos, vestido sua melhor roupa, feito escova no cabelo e até passado maquiagem. Antes de sair, quando foi checar sua aparência no espelho, não se reconheceu, pensou então se ele reconheceria, se ele gostaria dela daquele jeito e logo depois fingiu não ter pensado isso. Por que ela deveria se importar com o que ele acharia dela? Virou-se e partiu, sem mudar absolutamente nada em seu look.

Sentada olhando os patos no lago e os casais nos pedalinhos, Kate viu seu sorvete acabar. Será que ele não viria? Começou a ficar insegura. Eis que entra na lanchonete um rapaz, alto, magro, inteiramente vestido de preto e com um gorro. Ela não sabia qual era a real aparência do garoto que esperava, só conseguia se lembrar de seus olhos. Sabia que reconheceria os olhos em qualquer lugar. O rapaz virou-se para Kate e começou a andar em sua direção, foi chegando perto e ela percebeu que ele estava usando óculos escuros. Ele puxou a cadeira e se sentou, ao lado dela, pediu um sorvete de amora também, conforme haviam combinado e olhou para ela, como se fosse tudo que sabia fazer.

“Olá”, Kate começou a conversa. “Oi! Desculpe-me pelo atraso, não lembrava em qual lanchonete tínhamos combinado”  “Não, tudo bem, também acabei de chegar.” “Ah, que bom então, mas… cadê seu sorvete?” “ah, hm… Já”, ele a interrompeu dizendo “Você está linda!” “ah, hm… Obrigada” e então eles ficaram em silêncio. Aquele famoso silêncio constrangedor que paira em primeiros encontros. Ela não conseguia parar de pensar nos olhos dele, queria vê-los. Por que ele estava usando aqueles óculos? Nem estava sol ali! Será que estava machucado? Ela queria muito saber.

Foi vez de ele quebrar o silêncio “Por que você olha tanto para os meus óculos? Gostou do modelo?”, justamente a única pergunta que ela estava rezando para que ele não fizesse. “Ah, hm… É. O modelo é bem bonito! Onde você comprou? Será que ficaria bom em mim?” “Você está pedindo para provar meus óculos? Que engraçado.” E ele fez exatamente o que ela esperava que fizesse, o que ela queria que fizesse. Tirou os óculos de seu rosto e colocou-os no dela. “Ótimo”, ela pensou. Agora os olhos dele estavam à mostra, mas ela não conseguia enxergá-los, pois os óculos eram realmente escuros. “Ficou bom em você! Pena que não tem um espelho aqui.” Ele disse. “Ah… Que bom que você achou isso!” “Quer saber? Fique com eles para você, não está muito claro aqui mesmo.” “Ah não. Não posso aceitar, são lindos, mas são seus e, como você disse, não está muito claro aqui.” “Ok, é impressão minha ou você fez tudo isso só porque queria que eu os tirasse?” E agora, o que ela deveria dizer? A verdade?  Ele a acharia uma completa idiota. “Não, eu realmente os achei bonito, mas não para serem usados agora.” “Então você vai aceitar ficar com eles?” “Hm… Não me parece certo.” “Eu imploro, fique com eles, tenho vários parecidos em casa.” “Se eu aceitasse, poderia guardar na minha bolsa e não usar agora?” “Haha, sua preocupação era essa? Claro que poderia.” “Então… Muito obrigada pelo presente!” Finalmente. Ela estava livre dos óculos, retirou-os imediatamente, guardou-os e quando foi olhar nos olhos dele, ele estava virado, olhando os patos no lago e os casais nos pedalinhos. “Quer saber? A gente devia dar uma volta. Não viemos ao parque para ficarmos sentados conversando sobre meus, quer dizer, seus óculos.” “É”, disse ela, ”você tem razão”. Eles se levantaram, pagaram os sorvetes, saíram da lanchonete e caminharam em direção ao lago. Ela não parava de tentar encontrar os olhos dele, mas parecia que ele estava fugindo. Agora, ela olhava fixamente para ele e ele, com os braços entrelaçados nos dela, olhava para o céu. “Gosto de analisar o formato das nuvens, sei que parece coisa de criança, mas é algo que me distrai.” “Comigo aqui você precisa de outra coisa pra se distrair?”, foi o que Kate pensou, mas só pensou, porque não podia admitir para si mesma que queria mais atenção, que queria saber o que exatamente estava acontecendo ali. Tudo que ela sabia é que precisava olhar em seus olhos. Olhou para o céu também e disse “É, realmente… As nuvens são muito bonitas. Achava que eram feitas de algodão, quando era menor” “Eu sempre achei que eram mashmellows gigantes!” “Haha” “Finalmente.” “O quê?” “Eu te fiz rir.” Foi aí que ele conseguiu deixá-la vermelha, pela primeira vez. “Acho que a gente devia ir ao pedalinho.”  Ele disse, para mudar de assunto.  “Pedalinho? Mas… Só tem casais nos pedalinhos, seria estranho.” “Aposto que está dizendo isso porque tem preguiça de pedalar, eu pedalo para você.” E então eles foram para o pedalinho, ela ainda sem ter visto seus olhos. E o silêncio reinou novamente. “O que foi?”, ele perguntou. “Nada, não sou muito de falar.” “Não tente me enganar, eu te conheço. Sei que todos os dias antes de sair de casa você se olha no espelho, sei que gosta de ovos com a gema dura, que passou anos em um internato só com garotas, que se apaixonou por uma dessas garotas, que tem um pai super durão e uma mãe super amável, que prefere coisas discretas e que fica quieta quando tem algo lhe incomodando.” “Você sabe que me apaixonei por uma garota? C-c-como você consegue sair comigo sabendo disso?” “Olha, eu não me importo Kate. Eu gosto de você, exatamente do jeito que você é, pelo que você é.  E eu sei que você parece durona, nunca admite gostar de ninguém, mas no fundo, tem um coração de manteiga. A Mary não soube te amar como você merece, mas eu sei.” Ela se afastou. “C-c-como você sabe sobre a Mary? Eu nunca contei para ninguém.” “Eu disse que te conheço, Kate.” Agora ela estava com medo dele. Ele sabia coisas que ela jamais havia contado sequer a seu diário. E ele disse que gosta dela. A pior coisa do mundo, na visão de Kate, é fazer com que alguém goste de você, porque a partir desse momento, você é capaz de magoá-la profundamente, com um minuto de silêncio, ou um sorriso falso. Ela não precisava que ele gostasse dela. Ela só estava ali por causa dos olhos. O que aconteceu com Mary foi doloroso demais para que ela pensasse em repetir a dose. Ela não precisava se apaixonar, não precisava gostar de alguém. Foi no meio de toda essa confusão de pensamentos que ela percebeu o que estava acontecendo, ele tinha diminuído o ritmo de pedaladas e estava olhando fixamente para ela, aflito. Ela finalmente pôde ver seus olhos. Eram realmente os mesmos daquele dia na webcam, eram aqueles olhos que fizeram seu coração disparar. Redondos, grandes, com as pontas externas meio levantadas, as pálpebras escondidas sob ele aberto, vivo. Os cílios grandes e castanhos. A pupila quase invisível dentro daquela íris castanha, escura e densa. Era o olhar mais lindo que ela já havia visto. Bastaram apenas três segundos admirando-o para que ela tivesse certeza absoluta de que fora feita para estar perto daqueles olhos, para sempre. Depois de encará-lo por mais algum tempo, finalmente disse “Há uma coisa que você não sabe sobre mim.” “Ah é, o quê?” “Eu não usava muito o computador até te conhecer, não costumava falar muito com as pessoas. Eu nunca havia falado para a minha mãe sobre algum garoto, nunca tinha convencido meu pai a me deixar sair com um. Nunca tinha pensado tantas vezes em ir embora enquanto estava no meio do caminho. Nunca tinha sentido meu coração disparar tanto apenas por ver que você tinha me dito ‘oi’ e, principalmente, nunca tinha sentido borboletas no meu estômago, tido calafrios  e me perguntado se estava no céu, apenas por olhar nos seus olhos.” Dessa vez, foi ele quem ficou vermelho. “É, Adam… Acho que eu gosto de você.” Ela não acreditava que tinha dito isso, ficou constrangida e para se reerguer segurou bem forte a mão dele, e começou a pedalar junto. Eles saíram do pedalinho, ela o levou até uma das árvores vazias do parque, deitou-se para ver as nuvens, com ele ao seu lado. Os dois se abraçaram e ficaram ali até que escurecesse. Não precisaram falar mais nada. Ambos  sabiam que não havia nada mais a ser dito.

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