Um Grito pela Liberdade

*Para entender esse texto você precisa ver o vídeo a seguir.

Então é isso, a gente paga policiais pensando que eles vão nos proteger contra os desobedientes da lei e eles fazem coisas como essa. Além de absurdo, é des-humano.

Enquanto nós nascemos em famílias consideravelmente bem estruturadas e temos condições de nos alimentarmos, estudarmos e divertirmos sem que precisemos nos esforçar muito para isso, eles precisam lutar para conseguir se encaixar nessa vida urbana que é imposta a todos. O que eles fizeram de errado? Abandonaram suas casas talvez, brigaram com suas famílias talvez, mas isso realmente importa? Eles estão trabalhando, honesta e decentemente, da mesma maneira que nós ou nossos pais fazem.

Cortaram os cabelos deles. Não se pode nem ter o cabelo que se quer. Alguém vê um sentido nisso?

O pior é que a imprensa, que deveria estar ao lado da população, contra as injustiças –  que deveria nos mostrar as coisas que acontecem exatamente como acontecem – simplesmente omite ou transgride fatos que modificam completamente o contexto da reportagem. Eles são passados para nós como bandidos, desordeiros. A polícia é passada como correta e injustiçada. Aquelas pessoas que fazem artesanato e se sustentam com o pouco que ganham são presas, desrespeitadas, roubadas e nós ainda somos levados a crer que eles mereceram isso.

É por essa razão que eu deixei de cogitar a hipótese de ser jornalista. Pensei em ser jornalista, ver as injustiças e filmá-las com minha própria câmera, fazer reportagens maravilhosas e mostrar ao povo as coisas exatamente como acontecem, mas percebi que ninguém mostraria minhas reportagens. Ninguém publicaria meus textos. Não há nada de errado em ser autônoma, mas um blog crítico da sociedade e vídeos realistas não seriam capazes de me sustentar e eu preciso de um sustento, porque não sei fazer artesanato, não saberia viver na rua, pelo menos não por muito tempo. Ser jornalista é mais difícil do que ser político. Porque na política seus ideais podem ser mascarados e você pode acabar tendo que se juntar com pessoas completamente opostas a ti, mas você vai ter tido a possibilidade de tentar melhorar algo. No jornalismo não. Ou você faz exatamente o que querem que você faça, ou fica desempregado, porque há muita gente disposta a mentir, escrever bobeiras e corromper seus ideais mais profundos por um pouquinho de fama e dinheiro.

Vi um filme brasileiro outro dia (Era Uma Vez…) em que o cara só queria ser honesto e o filme mostra exatamente o quão difícil é ser honesto nesse país. Exatamente como o nobre artesão cita no vídeo acima, eles querem que você vire mendigo. Ou você tem uma vida socializada como todo mundo (não que eles te deem oportunidade para isso, claro), ou você rouba, ou você vira mendigo. A liberdade de expressão, a liberdade em geral, na verdade, já não existe mais. É como se vivessemos em uma ditadura, em que uma maioria é favorecida em troca de votos a cada quatro anos e ninguém se importa com a minoria.

Isso é muito triste. Revoltante. Um completo absurdo.

Dói pensar que a gente vota em pessoas que permitem que coisas assim ocorram. Quer prender bandidos? Prenda bandidos! Quer prender maconheiros? Prenda maconheiros! Não estou dizendo que a polícia não deve prender ninguém, mas ela deve deter somente os culpados e não aqueles que cumprem um esteriótipo de culpa. De repente todas as pessoas que moram na rua, possuem cabelo comprido e fazem artesanato são automaticamente bandidos, maconheiros e traficantes?

Como se isso não bastasse eles ainda abusam do poder! As pessoas não podem sequer tentar se defender que já são presas por desacato. Completo abuso de poder. Completo absurdo. Absurdo.

Não consigo ver coisas assim acontecendo.

Sou amante da arte. Minha mãe é artesã, eu aprendi a pintar, bordar e fazer várias outras coisas muito antes de saber para que servia a polícia (Não é minha habilidade principal, mas sou melhor nisso do que em matemática, por exemplo). Ver coisas assim acontecendo me machucam demais. Estão degradando a nossa cultura, a cultura de raíz. Enquanto há pessoas fazendo coisas realmente ruins para o país, eles perdem tempo com os pobres artesãos! Daqui a pouco estarão limitando as feiras, barrando produtos, desconfiando de tráfico nas barracas de artesanato… O que querem que eu espere de um lugar como esse?

Sou nacionalista. Eu amo o meu pais e encho a boca para falar isso. Tenho curiosidade tamanha para conhecer lugares, culturas e opiniões, mas nunca pensei em construir uma vida longe daqui. Não há lugar melhor do que o Brasil. Não posso deixar que esses “poderosos” estraguem o meu país. Não posso permitir que meus filhos vivam em um lugar ditatorial e cheio de censura. Não posso permitir que pessoas honestas sejam tão injustiçadas, enquanto ladrões moram em mansões em Brasília e ninguém sequer pensa em fazer algo, além de reclamar.

Amanhã faz 189 anos que somos um país independente. Melhoramos muito desde 1822, mas há muito a ser feito também. O problema é que enquanto continuarem a prender, maltratar e censurar pessoas honestas, enquanto os errados continuam livres por aí e os certos, de espírito livre e bondoso estiverem em cadeias superlotadas, aprendendo na pele que se não virarem bandidos acabarão mortos, vai ficar difícil fazer com que nós, jovens conectados à internet e advindos de uma cultura amplamente americanizada, continuemos a amar e zelar por nossa mãe gentil. Se nos querem aqui pelos próximos 50 anos precisam nos fazer ter vontade de ficar por aqui. Caso essa bárbarie, repressão e onda de injustiças prossiga, as pessoas mais qualificadas – que tiverem oportunidade – nos abandonarão e sobrará apenas os menos favorecidos, que, uma vez já perdidos, demorarão para conseguir carregar o país nas costas e nós regrediremos, tornando-nos apenas os detentores da floresta mais bem preservada, isso se conseguirmos mantê-la. O país precisa respeitar seus habitantes para que eles queiram permanecer por aqui, porque o país precisa de nós por aqui. Está tudo errado e se fosse para consertar levaria anos e precisaria de uma revolução, parecida com a Russa ou a Francesa, não nos ideais, nos resultados. Mas os brasileiros são passivos demais para isso. Preferem ver injustiças acontecendo a levantar e fazer algo.

Eu ficarei no Brasil, mas sozinha não conseguirei fazer nada. A questão é que são muito raras as pessoas que pensam nas questões sociais, indignam-se com elas e sentem essa vontade imensa que eu sinto, vontade de mudar e melhorar nosso ambiente de convívio.

 

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