Uma alienígena descobrindo que seu lugar não é aqui.

Desde os seis anos estou inserida nesse sistema de “atuação”. Aprendi a ser assim. Adoro atuar, o tempo todo, por isso me sinto tão bem no teatro!

O problema é que eu cresci com toda esse espírito atuante dentro de mim, com aquelas regrinhas básicas regendo minha vida. Regrinhas como “No teatro tudo é grande! Aumente seus sentimentos! Coloque uma lupa neles. A velhinha sentada na última cadeira tem que ter uma visão tão boa quanto os da primeira fileira!”. Sou um monstro criado por esse universo atuante!

Sim, porque para uma criança de seis anos separar o que acontece no teatro e na vida real é um tanto impossível. Cresci assim, aumentando tudo, tornando tudo mais intenso e imensamente maior.

Outro dia conversando com a Analu, cheguei à conclusão de que quando uma gota de água cai fora do copo, para mim é como se Noé estivesse chegando já.

Sou neurótica, altamente.

Daquele tipo maluco que acha que se não falaram com você por um dia, te odeiam profundamente. Que se dizem que gostam de você, te amam o suficiente para morrerem por ti caso seja necessário.

Qualquer coisa é sinônimo de neurose para mim. Passo os dias quase que inteiros pensando em quem está possivelmente magoado comigo, os motivos para isso e a maneira de como consertar. Na maioria das vezes descubro que a pessoa nem estava brava! E eu aqui, pirando. Sempre assim. Incrível.

O problema é que venho me irritando com essa minha característica. Venho querendo parar de ser assim, mas ah… Não dá!!!

Se eu quero falar com alguém, mas esse alguém não vem falar comigo, não tenho coragem de começar a conversa porque minha cabeça insana acha que se tal pessoa não vem falar comigo, é porque não quer falar comigo, quer me ver morta ali na esquina e eu devo ficar absurdamente calada. Calada. Completamente calada.

Acho que com toda essa minha neura à respeito de tudo, acabarei por ficar sozinha. Ninguém é paciente o suficiente para me suportar, convenhamos.

No fim das contas, acho que estou realmente destinada a ser atriz, porque dentre todas as coisas a serem feitas, é a única que faço naturalmente, sem nem perceber.

Acredito ser uma atriz nata e é muito melhor aumentar e dramatizar as coisas em um lugar propício a isso.

Só queria pedir desculpas a todos os alvos dos meus dramas.

Ah… Sei lá… Não estou nada normal ultimamente. Meu normal já é bem anormal comparando com os outros, quando ele se torna anormal também, é porque estou quadraticamente anormal e isso não é bom. Devia aprender a me condicionar ao mundo real, do jeito que ele é, ao invés de ficar com essas minhas piras sobre como gostaria que ele fosse. Eu deveria entender que ninguém entende minhas piras, ninguém compartilha de meus gostos bizarros, todo mundo quer exclusivamente se encaixar e ser bem aceito por aqui. Quer terminar o ensino médio, entrar na faculdade que os pais dignam melhor, concluir o curso, arranjar um emprego que pague bem, comprar uma casa, casar-se, ter um par de filhos e viver trabalhando desgastantemente por trinta anos, até que a aposentadoria saia e ele possa ficar em casa vendo o programa da ana maria braga pela manhã. As pessoas só querem isso. Nenhuma delas jamais será capaz de me entender completamente. Sou um alien. Preciso descobrir como sair desse corpo de humano e mostrar minhas anteninhas verdes por aí. Estou ficando cansada de me condicionar a esse mundo que considero completamente ridículo. Estou ficando anormal, a cada dia mais. Dramática, a cada dia mais. Sofredora, a cada dia mais.

Bem, sei lá… Só queria que alguém além da minha família olhasse pra mim e dissesse “You’re doing it right”, porque estou prestes a crer que não sou nada certa. Nem um pouco.

Enfim, boa noite e boa semana. Desculpem-me pelo desabafo.

0 thoughts on “Uma alienígena descobrindo que seu lugar não é aqui.

  1. Tem um ditado que eu gosto… Se uma pessoa diz que você está errada, é só uma pessoa… Se duas pessoas te condenam, são só duas, você pode ignorar… Se três pessoas acham que você errou, comece a pensar a respeito… Se todos acham você anormal, então você deve ser mesmo…

    Mas o que é normal? Você é diferente, e todos são diferentes, e na verdade, as diferenças é que são boas… Elas promovem as discussões que levam ao crescimento, elas permitem a evolução através da gama de possibilidades, elas produzem opções de todos os gostos… Existem padrões, mas sem exceções, os padrões não fariam sentido…

    Nós vivemos numa sociedade rica em desigualdade social, cheia de barreiras e separações, com pessoas alienadas, presas em seu próprio mundo, com pessoas trabalhando dias a fio para ganhar mixarias. Num mundo em que eu gostaria de viver, não teria uma pessoa debruçada em cima do lixo, procurando algo para comer, ou crianças no sinal pedindo dinheiro para poder pagar a embriagues dos pais, pois tenho certeza que a grande maioria deles trocaria de lugar com a classe média, ter a possibilidade de trabalhar e se alimentar dignamente… É fato que os deputados ganham muitas vezes mais de salário que os professores, mas eles deveriam ser aqueles que garantem a existência da sociedade, e a diferença não deveria ser tão grande…

    Para eu, está tudo errado, e até a classe média trabalha demais para saciar a vontade de uma minoria… A diferença social faz parte do capitalismo, mas deve existir um limite para a pobreza, e um limite para a riqueza… O normal do mundo HOJE é isso, e é escolha sua, ser normal ou não… Tem uma frase que gosto muito e reflete o que tento dizer… “Não é sinal de saúde viver ajustado numa sociedade sistematicamente doente”.

    Existe tanta coisa entalado, mas não tem como se saber, se alguém vai ouvir o grito…
    E continuo viajando nas minhas nóias aqui… Talvez seja a segurança de, do outro lado, eu não ser ninguém mais que nada XD

    1. Caro Everton Lorenzo, seus comentários vêm enriquecendo muito minha gama de reflexões a respeito das coisas, por isso os aprecio.
      A desigualdade social no atual sistema é extremamente grande e me entristece saber que ao invés de todas as pessoas pensarem em maneiras de melhorar isso e erradicar tal problema, elas pensam apenas em como garantir a própria vida. Não sou assim, por isso me sinto diferente. Ninguém nunca disse que sou anormal, no entanto me ignoram, me chamam de louca e agem como se eu realmente fosse anormal, mas para mim sou muito mais normal do que todos eles, porque eu penso sobre as coisas, ao invés de fazê-las mecanicamente. Gosto de ser diferente, mas tenho me irritado com o fato de não ter ninguém que compartilhe de minhas nóias, me deixando aqui sozinha e sem rumo. Quer dizer, não é porque sou diferente do resto das pessoas que estou condenada a viver sozinha por aqui, acredito que há mais pessoas que se sentem como eu me sinto, gostaria apenas de ter o prazer de conhecê-las.
      Tenho sentido que grito absurdamente, mas ninguém ouve. É horrível isso. Daí fico aqui, sem saber se devo abandonar todos os meus ideais e coisas que considero certas, para me encaixar nesse mundo ridículo, desigual e até desumano.
      Há muitas coisas que sinto que posso fazer para tentar melhorar um pouco o ambiente que me cerca, mas não me considero forte o suficiente para fazer isso sozinha.

      1. Tudo o que falo são coisas que penso… Mas só penso porque as sinto… Tudo que escrevo aqui são sentimentos que já tive, e se falo pra você, é porque também sinto isso… XD

        1. Olha, com esse breve comentário você acaba de tirar um pequeno sorriso do meu rosto! Mas bem, eu sei que há pessoas que sentem coisas parecidas, entristeço-me apenas por não conhecê-las pessoalmente e continuar condenada a conviver com essa gente “normal” com quem convivo.

  2. Ei May. Eu sou total Noé vindo por causa de gota, você sabe, e a gente se entende muito bem quando fala disso. Agora, eu não sabia que pensávamos tão parecido nesse sentido. SOU EXATAMENTE ASSIM. Principalmente com as pessoas que gosto MUITO. Costuma me abraçar forte e só passou correndo com um beijinho? ME ODEIA. Me abraçou mais forte que o normal? ME AMA MUITO. Hahaha. A intensidade é foda. Mas foi o que o Jr disse.. esse é nosso diferencial. Os outros vivem, nós, artistas, sentimos. Me sinto especial quando lembro disso. Quer dizer que minha neura talvez tenha um motivo sublime, hahaha. Beijos!

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