Umbigo Grande

A vida me fez concluir que toda mulher é feminista quando o bicho pega pro lado dela.

Tudo ia muito bem quando o machismo funcionava em nosso favor, seja com homens trabalhando desesperadamente o dia inteiro enquanto as mulheres podiam ficar em casa bordando ou mandando em suas empregadas. Ou quando eles pagavam o jantar e abriam a porta do carro, fazendo de nós donzelas indefesas. Ia tudo tão bem que as mães educavam suas filhas para procurar um homem que seguisse exatamente esse padrão, o do homem todo-poderoso que tudo provê e ocupa todo tempo livre com a arte de te fazer feliz. Enquanto isso você limparia a casa, lavaria as roupas e posteriormente cuidaria dos filhos, mas ah, nada mais justo, afinal, ele que teria ficado com todo o trabalho pesado.

Aí algumas mulheres despertaram. Elas perceberam que também eram gente e que não precisavam depender de homens para sobreviver, pois poderiam ser tão auto-suficientes quanto eles. Estudaram, conseguiram direito ao voto e a ser eleita, batalharam para serem rainhas mesmo sem marido e filhos pentelhando e mostraram que os dois cromossomos X podem ser tão fortes quanto um X e um Y juntos. Só que ainda assim estava tudo bem ele pagar o jantar e abrir a porta do quarto. Estava tudo bem ele sentar vendo futebol e ela ficar que nem uma barata tonta pegando as cervejas. Estava tudo melhor ainda quando era ele quem dirigia e a vida era uma carona sem fim.

E novamente algumas delas perceberam que não são e não podem continuar sendo idiotas a esse nível.

Todas as pessoas que conheço que têm irmãos em algum momento soltam a famosa expressão “isso acontece porque eu sou mulher”. Todas as garotas que conheço se precaveêm antes de sair de casa com artefatos como uma chave na mão, roupas que chamem pouca atenção e, claro, muito cuidado com os horários e locais por onde se passa, além da preferência por estar sempre acompanhada. Nunca conheci uma garota que tenha passado todos os dias da vida sem pensar pelo menos uma vez que foi prejudicada em tal ponto por ser mulher. E todas continuam sendo, continuam tentando e aos poucos vão se adaptando ao sistema, pois cansam de lutar contra ele.

Acho curiosíssimo o fato de haver mulheres homofóbicas e racistas. Quero dizer, são pessoas que sentem na pele o quanto é horrível ser prejudicada simplesmente por ser de tal jeito, não faz sentido (para mim) que elas simplesmente reproduzam a mesma aflição em terceiros, mesmo que em categorias diferentes. Mulheres machistas fazem menos sentido ainda. Só que, bem, toda mulher é feminista quando o bicho pega pro lado dela. Mas toda mulher é machista em todos os outros momentos.

Da mesma forma que nunca conheci uma garota que não se sinta prejudicada por ser mulher, nunca conheci uma que tenha vivido a vida inteira sem jamais julgar o caráter de outra mulher por suas atitudes particulares. É claro que me incluo nessa categoria. Todas as mulheres possuem um pouco do devir “meninas malvadas” dentro delas, mesmo que elas nunca tenham assistido a esse filme. É extremamente comum reproduzir preconceitos em relação a pessoas loiras, a mulheres dirigindo ou mulheres ocupando quaisquer cargos que não aqueles previamente denominados “cargos de mulher”. É extremamente comum uma mulher humilhar a outra por não ter um parceiro, ou por ter parceiros demais. E é mais comum ainda as mulheres acharem o máximo pagar menos para entrar em festas ou a ideia de se arrumar inteira para “vai que encontro meu príncipe encantado”. Toda mulher é feminista quando o bicho pega pro lado dela, mas quando ele tá pegando pro lado da outra, ela é uma das que está apontando a faca.

Vejo o preconceito em todas as suas categorias como uma estrutura inconsciente, ou seja, algo que faz parte do inconsciente coletivo da sociedade e que, por mais que seja trazido à tona em diversas situações, continua sendo sempre culpa do outro e não de cada um de nós. Se em uma pesquisa sobre preconceito a maioria das pessoas responde não ser racista, mas ao mesmo tempo conhecer alguém que é, significa que passamos tempo demais olhando e julgando o outro e tempo de menos observando a nós mesmos. Gandhi dizia para sermos a mudança que gostaríamos de ver no mundo e eu conheço muita gente que se esforça para tal, só que se minha teoria estiver correta e a base de tudo isso estiver realmente no inconsciente, não vamos conseguir nos livrar dela apenas tendo noção de que precisamos. Saber que a coisa existe é totalmente diferente de saber como ela existe ou como ela se mostra.

Mesmo tentando melhorar meu auto-controle sobre o que falo e penso em relação às pessoas serem, tentando tornar algumas dessas sinapses automatizadas um pouco mais conscientes, peco. Várias vezes me pego culpando as vítimas e oprimindo-as de alguma forma. Ao mesmo tempo em que aponto para a minha família as coisas que eles fazem e me oprimem. Eu sou tão culpada quanto. Provavelmente muitos de nós somos. Porque a gente só é feminista quando o bicho pega pro nosso lado. Os outros? Ah, eles que cuidem da vida deles.

Meu umbigo (o metafórico) está quase se transformando em um imenso buraco negro. Espero não ser sugada. Ainda tenho esperanças de vencer.

3 thoughts on “Umbigo Grande

  1. Pensar nisso me faz enxergar que realmente a coisa toda é complicada e que somos todos farinhas do mesmo saco, ainda que sem saber. No fundo no fundo no fundo pecamos igual.
    ÓTIMO TEXTO!

  2. Não gosto de generalizações. Prefiro pensar que cada pessoa consegue inventar uma solução, covarde ou corajosa, para cada problema diferente. Não sei como o machismo pode funcionar a favor da mulher. Evidentemente que o machismo reconhece a mulher, e é nesse reconhecimento que oprime. Entender como isso funciona a favor das mulheres me parece problemático.

    As mulheres conseguem o direito a escrever sua própria história e rompem com a ortodoxia patriarcal. Mas, tal caminho sempre está pautado em uma ideologia iluminista onde você só é algo se – e apenas se – estudou para aquilo. Todos aqueles que não tem diploma ou são auto-didatas são postos em uma posição subalterna e oprimida em relação a todos aqueles que portam diplomas.

    Assumir que se é prejudicada por ser mulher é, sem dúvida, interessante. Mas nós somos prejudicados por tantas formas e de tantas maneiras que talvez o problema seja outro. Nacionalidade, língua, condição econômica, acesso á recursos, acesso a tecnologia e etc. A lista é grande (para não dizer infinita). Quem porta o capital tem acesso a produção do saber e a legítimidade do conhecimento. Por exemplo – a construção de um hypermercado em uma região pode (e deve) alterar profundamente as formas de troca locais. E não há muito o que fazer, exceto explodir o mercado.

    O absurdo está na existência da intolerância, e da maneira como as relações tendem, o pior ainda está por vir. Conheço uma pessoa que é exemplo de vitória feminina, e nunca levantou nenhuma bandeira feminista, muito menos participou de marchas ou brincou de pintar cartolinas. A luta de tal pessoa sempre se deu a partir de uma postura ética e prática e, sinceramente, creio que pouco importa para ela se é machista, feminista ou alienista.

    Jung dizia que nós projetamos nos outros os nossos próprios defeitos. Se reclamo de fulano por algo, não percebo que aquele problema é meu, e faço de tudo para esconder ele. Inclusive dizer que a culpa é do outro. Talvez a culpa seja do Outro, mas é o caso de Lacan aqui. E não Sartre.

    Fico em dúvida se o inconsciente, pessoal ou coletivo, é dado a priori ou pode ser moldado pelo social. Se for social, quero muito entender como é possível algo não dito, por exemplo, o silenciamento da minoria, se transformar em uma prática comum. Podemos nos livrar do inconsciente? Dúvido, mas definitivamente creio que nossos interesses e nossos desejos não estão necessarimaente associados.

    Talvez a pior maneira de tratar uma vítima é negar a possibilidade da mesma ser uma vítima. Ausência total de reconhecimento.

  3. Antes de qualquer coisa: amor demais sua indicação do meu blog ali embaixo, muitíssimo obrigada <3

    E olha, achei seu texto muito sóbrio. Você conseguiu ponderar bem sobre tudo. E sabe, só de reconhecer e aceitar que a gente erra, que ainda tem preconceitos, já é um ótimo começo. É aí que a gente se conhece e vê o que quer e não quer mudar.

    Um beijo

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