Vazio Agudo, ando meio Cheio de Tudo.

Estava tudo bem. Vocês devem lembrar disso porque perto do carnaval escrevi um dos textos mais empolgados possíveis. Tudo estava ótimo. E não consigo entender porque não está mais. Se for parar para pensar, as coisas tecnicamente continuam as mesmas, por que raios meu jeito de enxergá-las insiste em mudar a cada segundo?

A cada dia que passa me canso um pouco mais dessa instabilidade com a qual tenho que lidar. Dizem que eu deveria tomar ansiolíticos e eu realmente concordo que a solução para o mundo seria a existência da SOMA que Huxley tanto falou sobre. Mas seria uma existência sem graça, presa, modulada, imposta. Fácil, bem mais fácil, feliz, tranquila, estável. E me pergunto, será que ela não seria cansativa? Acho que seria. Acho que estabilidade demais cansa. É claro que acho isso, sou a funcionária número um na empresa de criar problemas imaginários, ficar ansiosa tentando resolvê-los e se esforçar ao máximo para que eles ocorram e o tempo perdido não ter sido em vão.

Não posso ficar desocupada. Não posso sentir o tédio chegando. Não posso passar mais de quatro horas online sem ser para algo relacionado a estudos. Não posso passar um dia inteiro no escuro comendo chocolate e vendo seriados repetidos. Não posso chorar copiosamente por causa de uma solidão que nunca me abandona. Porque nada disso é justo comigo mesmo. Porque se me sinto tão sozinha é porque me obrigo a ser assim. Ok, as pessoas me irritam. Ok eu faço o possível para ser simpática e ao mesmo tempo me manter distante o suficiente para que elas não me façam sofrer. Só que tem pessoas que, de repente, estou perto demais. Muito mais do que eu deveria. Pessoas que me deixam absurdamente maluca caso passem um par de dias sem dar notícias e que me causam uma avalanche de sentimentos que alguém apático e que não sabe sair da própria cama não consegue lidar. É por isso que eu não posso ser essa pessoa. Porque ao longo da vida criei responsabilidades para com outras pessoas, sendo impossível desvincilhar-me delas, não importa o tamanho da vontade.

E quando ouvir The Moldy Peaches enquanto repenso mais uma vez se escolhi certo a minha faculdade, tento descobrir o que diabos pode virar tema de pesquisa em uma feira e no que eu posso decidir estudar para a minha monografia e surto um pouquinho mais por imaginar que estarei tão bitolada estudando que não conseguirei falar com ninguém ao vivo e me sentirei novamente a pessoa mais estranha, alucinada, solitária e necessitada de SOMA que já pisou neste planeta, percebo novamente que estou fazendo tudo errado e que a vida poderia ser bem mais leve, tranquila e lidável se eu conseguisse ser um pouquinho mais paciente, gentil e corajosa. Se eu tivesse a cabeça mais aberta, me sentisse mais livre e parasse de me cobrar por todas as cosias que dão errado e pelas que dão certo também.

Acabei ganhando uma boa quantidade de chocolate semana passada e até hoje não consegui terminar uma barra sequer. Chocolate tem me feito sentir uma pessoa realmente ruim. A concentração se esvaiu, assim como a vontade de dormir e a de comer e a de fazer qualquer coisa. Olho ao redor e vejo todos os livros começados, os xerox a serem lidos, as notas a serem tiradas e a atenção às pessoas que eu cobro tanto e absolutamente preciso retribuir. Tremo. Ofego. Lágrimas escorrem sem esforço algum. The Moldy Peaches toca aquelas coisas absurdamente doloridas que foram cenários de momentos muito diversos e enquanto anseio por um abraço, cafuné e ombro pra chorar penso no quão horrível deve ser ter que lidar comigo no dia a dia.

Olho paranoicamente para as paredes e tetos, penso em todos os afazeres que se aproximam e na impossibilidade prática de cumpri-los por motivos de: falta de vontade ao absurdo. Afasto-me das pessoas por medo de ser grosseira a ponto de fazer com que elas se afastem de mim para sempre. Esfacelo meus ursos de pelúcia e torço desesperadamente para que algo consiga me tirar dessa angústia absurda. Tudo é caos. Tudo é agonia. E cá estou eu cansada de ser eu, mais uma vez.

(Obrigada Leminski pel haikai inspirador que virou título deste texto de merda.)

Comentários: