Veranis

Algum dos livros que li me ensinou que a gente precisa receber doze abraços diários para que o dia seja plenamente bom. São extremamente raros, porém, os dias em que receber doze abraços se faz possível. Mesmo porque, não é todo dia que há a oportunidade de encontrar pessoas e pessoas abraçadoras são raras neste universo de individualismo extremo e de não me toques absolutos. Eu sinto falta dos abraços. E me sinto plena quando recebo um par deles, desde que bem dados.

Férias são um momento muito interessante para pessoas introspectivas, introvertidas, anti-sociais e preguiçosas. Ainda mais quando são férias de verão. Enquanto no inverno você pode dar a velha desculpa de “estou hibernando” e passar literalmente a semana inteira trancada no quarto, saindo esporadicamente somente para suprimir necessidades fisiológicas e de higiene pessoal, no verão ficar no quarto parece impossível. Observar o céu azul, o calor que impede de dormir por dias inteiros e a sensação de ter um universo inteiro a ser desvendado acabam por ser muito maiores que a preguiça. Mas a anti-socialidade continua e o esforço mental de considerar a possibilidade de conversar com alguém para planejar ir a algum lugar é muito maior do que a resolução cômoda para o problema: pegar um livro novo, escolher um lugar confortável e passar o dia lendo. Sem precisar conversar com ninguém.

Eu passo o ano inteiro esperando pelas férias por duas razões, a primeira é que elas são a premissa da minha aposentadoria, que é meu maior objetivo de vida e a segunda é que elas são dias de limbo eterno para que eu possa acordar e planejar fazer o que eu quiser, sem ter obrigação nenhuma. Se há sorte alguma viagem pode vir a ocorrer, mas normalmente só me resta a piscina, o sol entre nuvens e o vento que nunca some. Os parques sempre gelados e os museus com exposições que duram tempo demais e impedem que você os visite muitas e muitas vezes. Os amigos viajam. Vão fazer algo “condizente com a idade”, ou simplesmente visitar parentes ou colocar o “projeto verão” em prática. Outros permanecem em casa, mas, como eu, com uma falta de vontade absurda de entrar em contato com outro ser humano.

Só que eu moro no Centro e, embora seja agraciada com noites repletas de fogos de artifícios lindos que aparecem direto na minha janela durante Dezembro inteiro, sinto falta do ar puro. De ler em um quintal, embaixo do Sol. De ter grama. De ter espaço. De poder, realmente, passar o dia inteiro em casa aproveitando a minha estadia, ao invés de ter que ficar revezando os quartos e as camas enquanto frito meus olhos com mais páginas a ser lidas. E sinto falta dos abraços. A coisa que eu mais sinto falta é de abraços, principalmente porque ler dá vontade de abraços e os personagens não vão sair dos livros para me abraçar. A vontade é uma constante.

Tirei todas as minhas vacas de pelúcia do armário, depois de alguns anos sem encostar nelas. Para sentir-me perto de algo, pertencente a algo, abracei-as como fazia na época em que só conseguia dormir com elas por perto. Acariciei-as e conversei com elas, como nos velhos tempos. Como nos velhos tempos elas me responderam com dicções e entonações distorcidas de minha própria voz. Disseram que estavam com saudades e que estavam felizes por eu tê-las desenterrado. E eu fiquei um pouco mais em paz. E a vontade de abraços diminuiu um pouco. Bem pouco.

Decidi que preciso morar em uma casa de novo. Não consigo me imaginar convencendo meus pais a tal feito, pois eles sabem que eu não vou ajudar a limpar nada, só quero espaço e rede e quintal e um cachorro. É. Estou com muita vontade de ter um cachorro. Nunca quis ter um animal de estimação e nunca entendi porque as pessoas os têm, eles são bonitinhos, ok, mas o trabalho que dá para mantê-los é muito maior do que a alegria que eles supostamente proporcionam. Só que eu já tive um cachorro, uma cadela, na verdade, a Kyara. E por mais que eu morresse de ciúmes dela, ela dormia na beira da minha janela todas as noites e eu sempre ia ficar do lado dela conversando e fazendo carinho quando a vida ficava sem graça. É até engraçado pensar que uma criança de seis anos já tinha momentos de achar a vida sem graça, talvez eu nunca tenha tido jeito, sempre tenha sido assim, chata, anti-social, introspectiva, tímida e absolutamente apaixonada por abraços, contato físico com seres confiáveis e conversas infindáveis e sem sentido.

Não estou com saudades da Kyara. Um dia ela me mordeu. Nunca mais cheguei perto dela. Nem dei tchau quando viemos embora e a doamos para a diarista. Não me importava mais com ela, porque ela tinha me machucado e essa resolução era muito simples e clara na minha cabeça. Sinto saudades de resoluções como essa. E a vontade de ter um cachorro é porque deve ser muito legal ficar lendo enquanto se faz cafuné em uma bola de pelos macios que ainda te lambe de um jeito nojentinho e fofinho. Deve ser divertido ver reflexos da própria personalidade espelhados em seu animal de estimação, como vejo várias pessoas narrarem. Deve ser legal dar banho de mangueira em um animal que corre e acaba por te molhar inteiro. Deve ser melhor que abraços. Ou tão bom quanto. Ou pelo menos um substituinte perfeito para férias solitárias e momentos angustiantes.

Eu vou ter um cachorro. Um dia.

One thought on “Veranis

  1. Ai, Má…. ao mesmo tempo que acho que somos diferentes, acho que somos muito idênticas, de verdade! De tudo que falou aí, eu só vou contra morar em casa… uma vez que morei e apartamento e quero morar pro resto da vida. Claro, que quanto maior ele for, e mais espaços (playground) tiver, melhor! Quanto ao post anterior do telefone … gente, amei! Sou eu, total! haha
    Beijos, e saudades…

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