Você.

Eu sempre me senti deslocada no mundo. Sempre achei que nada era pra mim e que eu era a única maluca que resolveu viver. Até que eu te conheci. Fazíamos parte do mesmo grupo de amigos, mas nunca nos falávamos, eu só ouvia o que você falava na aula e achava que você devia ser legal, mas nunca cheguei e conversei pra valer.

Então você aparece dizendo que vai em um acampamento e perguntando se alguém queria ir junto, eu disse que iria porque adoro acampamentos e estava precisando de um. Você não acreditou, mas mesmo assim topou dividir a barraca comigo. Até o dia do acampamento chegar começamos a conversar e eu descobri que você é realmente extraordinária. Que tipo de criança coloca sacola de plástico no tênis pra andar na chuva que não nós? Isso sem contar quando resolvemos fazer um calendário para Marte diferente do já existente. E então fomos ao acampamento. Eu, você e sua prima na mesma barraca. Eu nunca tinha visto a sua prima, mas isso não foi problema. Dividiram as equipes e ficamos na mesma. Naquele lugar você viu momentos bizarríssimos da minha pessoa, como tentar me equilibrar em uma corda presa em árvores ou comer comidas feitas em um estado deplorável de higiene e eu vi você fazendo coisas que nunca tinha imaginado e morrendo de vergonha de dançar, com a inteligente explicação que “não faz sentido tocar uma música e todo mundo ficar se mexendo”. Ah! Como você é maravilhosa.

Mas a melhor parte mesmo foi quando fizemos a trilha na lama e quase morremos – eu quase morri pelo menos – e depois nos encontramos, absolutamente ensopadas de lama. Não lama de vestibular, feita para se sujar. Lama de verdade. De água com terra de verdade e com um cheiro terrível. Foi um fim de semana repleto de  aventuras e hoje eu sei que jamais teria me submetido a ele se não estivesse ao seu lado.

Nós faríamos vestibular para o mesmo curso e o professor de sociologia nos disse que não havia mais nada para nos ensinar, pois tudo que era esperado a ser aprendido no Ensino Médio nós sabíamos. E você estudava muito para passar, porque não bastava passar, tinha que ser o primeiro lugar. E eu me divertia e morria de medo de que minha preguiça me deixasse de fora da universidade. E nós tivemos as conversas inteligentes mais legais do mundo. E você me contou que escreveu um livro – veja só – e que adora metal music. E nós rimos e compartilhamos momentos únicos. Um dia você me deu seu endereço para eu mandar cartas nas férias, mandei um dia depois e então trocamos algumas cartas, embora com uma demora horrível, porque na nossa situação é mais fácil falar falando do que usar o Correio, mas mesmo assim, é divertido as vezes.

E passamos na primeira fase. E passamos na segunda. E você não estava presente para ir comigo à lama na federal, mas mesmo assim eu fiz um cartaz com seu nome e sujei-o com a lama, porque você merecia estar naquele momento de algum modo. E depois sua mãe veio combinar comigo de fazer um “trote surpresa” pra você, um mês depois do real. E nós fomos ao Barigui e eu consegui te enganar. E por mais que na hora você tenha odiado tudo, sei que hoje lembra com um sorriso no rosto e espero que ainda confie em mim, afinal, menti por uma boa causa. E nós te sujamos com lama e com farinha e com tinta verde e ainda te fizemos pedir dinheiro na rua, tomar banho na fonte e depois fomos para tua casa comer os quitutes do piquenique, seu bolo estava delicioso e eu te lavei com mangueira. Ah. Que divertido!

E veio o primeiro dia de aula, que eu te encontrei na frente do Guaíra para irmos juntas, porque estava com medo demais de pisar na universidade sozinha. E sentamos lado a lado. E zoamos a aula trote. E quando teve o trote nós fugimos e ficamos olhando pela janela, enquanto analisávamos como se fosse um ritual esquisito. E descobrimos que não estávamos na mesma sala. Compramos mochilas da mesma cor. Encontrávamos sempre que possível para colocar os assuntos em dia. E compartilhar os textos diferentes das aulas. E falar sobre as matérias e sobre os trabalhos e pra planejar nosso documentário maluco em que rodaremos pelo Brasil inteiro.

E você foi assistir à minha peça. E eu ao seu recital de violão. Fomos ao cinema, ao teatro e simplesmente ficamos sentadas na praça conversando por horas a fio. Fizemos caridade. Piquenique. Andamos sem rumo. Rimos. Conversamos. Conversamos muito. Sobre tudo. Sem vergonha, simplesmente por conversar. Contei-te sobre as tragédias da minha família e você me deu o maior apoio moral do universo e quando você me contou algo que precisava do meu apoio, eu, sem saber o que dizer, fiz piada.

E hoje eu sei, mesmo quando estou triste, mesmo quando me sinto sozinha, mesmo quando tenho saudades, sei que eu tenho uma amiga de verdade. Certamente tenho mais que uma, mas tenho essa, especificamente. Tenho você. E hoje é o seu aniversário, você, que odeia aniversários por considerar inútil ser felicitado simplesmente por ter dado mais uma volta ao Sol. Eu, que adoro essa data, não podia deixá-la em branco. Estou indo encontrar-me com você em 20 minutos, iremos à feira do livro da cidade. Eu te darei parabéns e você ficará sem graça e mudará de assunto. E nós conversaremos e riremos. E eu sei que compartilharemos as mais incríveis coisas ainda no decorrer de nossas vidas. Você vai ter capacidade para ser Ministra de alguma coisa quando eu for Presidente, vai ser a madrinha de algum dos meus mil filhos, vai me contar todas as suas experiências com a sua bolsa universitária enquanto eu faço o mesmo com a minha e nós vamos rir e conversar e competir no songpop e falar formalmente até em mensagens de texto e eu vou tentar te abraçar e alcançar só a sua cintura e vou ficar frustrada, mas logo passa, porque com você até abraço fica em segundo plano, e vamos nos dar bem, porque é isso que nós fazemos. É isso que se faz quando se encontra um amigo de verdade. Sem pressões.

Feliz décima oitava volta ao Sol, querida amiga centenária.

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