What The Hell.

Então que faz quase um mês que estamos planejando esse feriado. Faríamos nossa primeira festa do pijama, cada uma levaria uma guloseima diferente, estava tudo preparado, as atrações, o local, a data, tudo, detalhadamente programado. Mas o Ser Superior, aquele que projeta os nossos destinos, não quis que tal fato se concretizasse. Então, talvez por prever possíveis desastres decorridos de tal festa, ele fez com que nossa anfitriã ficasse doente e passasse o feriado sofrendo amargamente. Coitada dela, de verdade. Porque sabemos o quanto esse feriado foi esperado, o quanto programamos tal festa e o quanto necessitávamos de um pouco de diversão e relaxamento. Não reclamo tanto por mim, porque ainda tive meus quatro dias de folga, mas a coitada passou os quatro dias sofrendo com crises asmáticas e afins, então nem deve ter descansado, coitada. Espero que melhore, de verdade. Espero que possamos fazer nossa festa algum outro dia, quem sabe e se não der, é porque não era para ser mesmo.

Enfim. Acordei cedo, tudo planejado para ir a tal festa. Foi desmarcada. Tudo bem, ainda teria o meu cinema com meus amigos. Almocei rapidamente e encaminhei-me para o shopping. O plano era assistir a “Quebrando o Tabu”, um documentário que desmestifica a questão das drogas, promete desmestificar, pelo menos. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso aparece, junto com alguns ex-presidentes estados unidense e afins, parece realmente interessante. Segundo o site do cinema o filme passaria às 13:50. Chegamos lá. O horário mudou, a primeira sessão seria às 20:10. Ninguém estava afim de ficar até essa hora num shopping. Porque sim, ao contrário do que se espera de jovens da capital, não gostamos muito da ideia de desperdiçar tempo em shoppings. É um tanto leviano demais. Portanto resolvemos assistir a algum outro filme que começasse por perto. “O Homem ao Lado” foi o escolhido. Até aí tudo bem. Estávamos então em um cinema completamente desconhecido, num shopping que eu jamais havia frequentado, “Shopping Novo Batel” era o nome. Compramos nossos ingressos e nos deparamos com uma grande porta marrom, no meio do nada. Lá era a sala de cinema. Um tanto fora do convencional, eu diria, mas tudo bem. Entramos. Estava escuro, não havia nada, exceto uma cortina preta. Senti-me um trem fantasma, desses parques de diversão que frequentamos às vezes. Não sabia como sair dali, para onde seguir, onde estava de fato o cinema. Apalpamos a cortina e encontramos uma abertura, a puxamos, abrimos e adentramos no recinto. Uma sala de cinema enorme, muito grande, talvez a maior que eu já vi. Talvez não seja de fato tão grande, mas meu medo e aflição naquele momento me fizeram visualizar algo extratosférico. Não havia luz. Nem um restício de luz. Nada. Uma escuridão completa e eu, que já não sou a pessoa mais segura do mundo, estava aflita. Muito. Apalpamos muitos lugares, tentamos utilizar o celular para enxergar algo. Em vão. No fim, conseguimos encontrar as cadeiras, nos sentamos. Não havia mais ninguém no cinema. O filme começou. Era um filme argentino, uma história de vizinhos, um filme bizarro, intrigante, engraçado sem ser xulo, cômico sem precisar contar piadas. A realidade transmitida ali com tamanha simplicidade tornava tudo mais engraçado ainda. E o filme não acabava. Tomadas de cenas fantásticas, fotografia impecável, tiragens de câmera que eu jamais pensaria em fazer, diálogos divertidos, coisas inusitadas, personagens caricatos, mas não acabava. Em meio a um de meus devaneios filmísticos, portanto, ouvi um pigarro. Olho para trás. Tinha mais dois homens no cinema. Dois homens estranhos, sentados separados. Nunca entendi quem vai ao cinema sozinho, não consigo ver a graça, não faz sentido. Mas eles estavam lá. Um em cada canto, nós ali no meio e a imensidão da sala vazia. Completamente vazia e escura, completamente escura. E depois de muitas confusões entre Victor e Leonardo, os protagonistas do filme, depois de entendermos que a nossa liberdade termina quando a do outro começa e depois de pegarmos a crítica à burguesia expressa ali, tudo que eu queria era que aquele filme terminasse logo. Sentia aflição, medo, vontade de rir, angústia, tudo ali, misturado. Era como se eu estivesse num lugar de ninguém, perdida, esperando ser encontrada. Ainda não fui encontrada, talvez eu nunca seja. O filme terminou. Saímos daquela sala, vi luz de novo, ela penetrou nos meus olhos, me transmitiu paz e segurança. Senti-me disposta a voltar para casa. Leve. Como se tudo aquilo tivesse sido apenas mais um pesadelo. Uma aventura dessas que parecem fúteis mas te transformam por completo. O que aprendi no final foi muito mais do que aquele filme podia me ensinar. Talvez eu tenha me encontrado ou talvez apenas voltado ao normal.

O que importa é que esse Ser Superior que tem o dom de transformar o meu destino sem nem pedir licença, que muda minha cabeça e a de todas as pessoas a minha volta, esse tal Ser que faz com que eu perca muito tempo da minha vida questionando-me sobre ela, esse Ser louco e insano que eu xingo praticamente todo dia o dia inteiro, hoje fez alguma coisa certa. Porque eu não fui feita para planejar as coisas. Não fui feita para seguir regras, costumes ou boas maneiras. Não fui criada para ter uma casa enfrufrusada, cheia de coisas inúteis que são consideradas bonitas por alguns. Não fui feita para agradar os outros. Fui feita para viver à minha maneira. Do meu jeito. Da maneira que eu considero melhor. Para fazer as coisas intensamente, sem me preocupar com as consequências, sem raciocinar muito obre elas. Fui feita para viver, simplesmente isso. Para sair andando por aí, sem rumo, apreciando o céu, respirando o ar puro e cantarolando. Nasci para apreciar a arte, as pessoas, não para tentar entendê-las, para apreciá-las. Para apreciar a beleza que cada um emana, apreciar os defeitos e qualidades que todos possuem. Fui feita simplesmente para apreciar, ser espectadora. Sou uma ótima espectadora. Talvez eu sirva para fazer alguma coisa, talvez eu possa ser digna de algum tipo de atenção, mas não agora. Talvez, algum dia eu encontre algo que me pertença, um grupo que me encaixe, alguém que me complete, mas não agora. Não. Agora é o momento de apreciar.

Posso apreciar a sua vida também?

É, eu seria como o Victor. Faria uma janela que desse para a tua casa e passaria os dias inteiros lá analisando seu modo fútil de viver. Anotando seus erros para lembrar-me de nunca cometê-los. Analisando, observando. No fim, é o que eu faço de melhor mesmo. Então, é isso… Bom final de semana para vocês.

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